A Questão Fundamental
A melhor maneira de entender corretamente
uma situação ou um problema é reduzi-lo aos seus pontos básicos e essenciais. É
fazer as perguntas corretas em vez de nos perdermos em discussões periféricas e
sobre pontos secundários. Quero trazer esse princípio para o antigo debate
acadêmico acerca da vida, do universo e do ser humano, que é o debate acerca
das origens de todas as coisas. Todos nós teríamos um melhor proveito e
entenderíamos melhor esse debate se pudéssemos reduzir as questões e pontos
polêmicos a um denominador comum, a uma ou duas perguntas que representassem o
fulcro da questão.
Acredito que em vez de ficarmos discutindo a
idade da terra, o processo pelo qual a seleção natural operou, em que medida
Deus colaborou ou não com esse processo, deveríamos nos concentrar na questão
que é realmente fundamental: a natureza é tudo que existe? Ela, por si mesma,
pode explicar o surgimento e o funcionamento de todas as coisas? A vida surgiu
por meio de processos naturais, não direcionados e sem um propósito?
Se a resposta for positiva, então o universo
deve ser visto como um sistema fechado onde todas as coisas surgiram e se
explicam em termos de causa e efeito naturais e acontecidos ao acaso. E nesse
caso, as ciências deveriam aceitar apenas teorias naturalistas, e rejeitar a
priori aquelas que sugerem a interferência de causas metafísicas, inteligentes
e sobrenaturais para a realidade.
Se, porém, considerarmos que a natureza não
é tudo que existe – e essa é a crença de 90% da população mundial, haja vista a
pequena proporção de ateus nesse mundo, não deveriam as ciências considerar quaisquer teorias que explicassem de
forma adequada a realidade, “até mesmo uma que invoque a ação de um ser
inteligente?”, pergunta Nancy Pearcey na apresentação do livro As Perguntas Certas de Phil Johnson
(2004).
O retorno ao ponto mais fundamental desse
assunto poderia nos levar a fazer as perguntas certas e estar abertos para
respostas plausíveis e coerentes com a crença na existência de um Deus criador
de todas as coisas.
No fundo, a questão das origens, da vida,
das ciências, se resume numa decisão entre duas maneiras fundamentais de se
entender a realidade. Foi a matéria que deu origem à inteligência, ou foi a
inteligência que deu origem à matéria? De um lado, temos a visão que enxerga o
mundo e tudo que nele existe como o resultado de um processo longo e cego, sem
propósito definido, que se encaminha pela seleção natural para um destino
imprevisível. Por meio deste processo, a matéria produziu vida inteligente. Do
outro lado, há a visão de que o universo e as coisas que nele se contém são o
resultado da ação inteligente e proposital de um Deus pessoal, todo-poderoso e
sábio. Ele é a inteligência por detrás do surgimento do mundo material. Não é
importante e essencial saber como ele operacionalizou o mundo e como ele o
desenvolve. O importante é que, partindo do pressuposto que a natureza não é
tudo que existe, essa visão está aberta para teorias e hipóteses que levam Deus
em conta na pesquisa e no estudo. Essa visão de que a natureza não é tudo que
existe nos coloca diante das questões mais importantes da existência: quem
somos, de onde viemos, o que estamos fazendo aqui e para onde vamos, questões
que precisam ser respondidas à luz da existência de Deus.
Instituições de ensino confessionais, que se
guiam pela visão cristã de mundo, não deveriam adotar uma visão naturalista de
mundo, reducionista em sua essência, que se fecha para pesquisas e estudos que
levam em conta o transcendente e o metafísico. Com competência e abertura, deveriam
guiar seu labor acadêmico sempre levando em conta os valores da fé e da visão
cristã de mundo.
http://tempora-mores.blogspot.com.br/2018/02/cristianismo-e-universidade-17.html

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