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A soberania de Deus



A soberania de Deus

Doutrina que consola e sustenta

Por Hermisten Maia em 25 mar, 2026


Resumo: Este artigo explica a doutrina da soberania de Deus à luz da teologia reformada e das Escrituras, mostrando por que ela confronta a mentalidade pós-moderna e, ao mesmo tempo, oferece profundo consolo ao cristão. A partir de textos bíblicos e reflexões de Calvino, Lutero e Pink, o texto apresenta como o governo absoluto de Deus sustenta a fé, a esperança e a vida cristã. Escrito pelo Dr. Hermisten Maia, ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil. É formado em Teologia, Filosofia e Pedagogia. É Mestre e Doutor em Ciências da Religião. Leciona em diversos Seminários ininterruptamente desde 1980. Tem experiência na área de Teologia Sistemática, lecionando há 40 anos, e História da Reforma Protestante, atuando principalmente nos seguintes temas: João Calvino ,Teologia Reformada e Cosmovisão Reformada.

Na cultura “pós-moderna”, marcada pela busca de autonomia absoluta e pela rejeição de qualquer autoridade externa, a soberania de Deus soa como afronta. Vivemos em tempos em que a liberdade é exaltada como valor supremo, mas, paradoxalmente, ela mesma nos aprisiona em ansiedades e inseguranças. Defendemos princípios até que nos contrariem e, não raro, transformamos interesses pessoais em “princípios” de vida.

Entre as doutrinas que mais sofrem com essa oscilação está a soberania de Deus. Em tempos de estabilidade, preferimos falar de nossa autonomia e capacidade de escolha. Mas quando nos vemos sem recursos, aflitos ou desorientados, recorremos à fé singela: “Deus é soberano, Ele sabe o que faz”.

Calvino (1509-1564) observou com precisão: “Mesmo os santos precisam sentir-se ameaçados por um total colapso das forças humanas, a fim de aprenderem, de suas próprias fraquezas, a depender inteira e unicamente de Deus”.[1]


A dificuldade humana em deixar Deus ser Deus

O coração humano resiste em receber a Deus como Ele Se revela. Desde o Éden, quando Adão e Eva desejaram “ser como Deus” (Gn 3.5), a humanidade insiste em moldar o Criador à sua própria imagem. Paulo descreve esse movimento em Romanos 1: os homens trocam a glória de Deus por ídolos, preferindo adorar a criatura em vez do Criador.

Quando julgamos dominar a realidade, dispensamos Deus; quando não, criamos um “deus” à nossa medida para justificar crenças ou incredulidade. A Teologia Reformada chama isso de depravação total: não apenas fazemos escolhas erradas, mas nossa própria vontade é inclinada contra Deus.

O Antigo Testamento mostra como Israel confundiu o silêncio de Deus com aprovação tácita de seus pecados. O Senhor, porém, os advertiu: “Pensavas que eu era teu igual; mas eu te arguirei e porei tudo à tua vista” (Sl 50.21). Calvino comenta: “Cada um faz de si mesmo um deus e virtualmente se adora, quando atribui a seu próprio poder o que Deus declara pertencer-lhe exclusivamente”.[2]


A soberania como escândalo e consolo

Curiosamente, os homens reconhecem espontaneamente atributos como amor, graça e perdão, mas rejeitam a soberania. Pink (1886-1952) advertiu: “Negar a soberania de Deus é entrar em um caminho que, seguindo até à sua conclusão lógica, leva a manifesto ateísmo” [3]

O tema da soberania esteve no centro da Reforma. Lutero (1483-1546), em sua obra De Servo Arbitrio[4], confrontou Erasmo (1466-1536) ao afirmar que a vontade humana está cativa e só a soberania divina liberta. Mais tarde, debates sobre predestinação marcaram concílios e denominações.[5]

Enquanto o deísmo moderno concebia um Deus distante, que não intervém, a fé cristã proclama um Deus soberano que governa cada detalhe da história.

A soberania é a doutrina mais repudiada pelo homem natural e, ao mesmo tempo, a mais consoladora para o crente. Jó expressa nossa limitação diante do mistério divino: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos! Que leve sussurro temos ouvido dele! Mas o trovão do seu poder, quem o entenderá?” (Jó 26.14). Ainda assim, é justamente na confiança na soberania de Deus que encontramos paz em meio às vicissitudes da vida.


O Conhecimento como dom da graça

Nosso conhecimento de Deus é sempre “conhecimento-de-servo”, delimitado pelo próprio Senhor e condicionado pela realidade do pecado humano. É um saber acerca de Deus como Senhor e, ao mesmo tempo, sujeito a Ele.[6]

Como seres finitos, não podemos enxergar o todo da realidade de uma vez; nossa perspectiva é limitada por nossa própria finitude. Conhecer a Deus é iniciativa da graça divina: é fé que nasce da graça. Por isso, não somos padrão de verdade; precisamos validar nosso pensamento na Palavra, que é a verdade (Jo 17.17). O nosso conhecimento nunca é autorreferente com validade própria e por iniciativa nossa.

Somente Deus é soberano, e somente a partir Dele podemos conhecê-Lo. Esse conhecimento nos liberta para compreender a nós mesmos e a realidade ao nosso redor, sustentando-nos inclusive nos momentos de dor, quando a medicina falha, o emprego é perdido ou a morte visita o lar. É a certeza de que Deus reina que consola e fortalece o crente.


Conclusão pastoral

A soberania de Deus não é um conceito abstrato, mas um fundamento para a vida cristã. Nela repousa nosso consolo: saber que o Senhor reina, que nada escapa ao Seu governo e que Suas promessas sustentam nossa esperança.

Uma família que perde um ente querido encontra consolo não em explicações humanas, mas na certeza de que “o Senhor reina” (Sl 93.1). Assim também, o missionário que enfrenta perseguição persevera porque confia que Deus governa até sobre os corações mais endurecidos.

E, finalmente, é a soberania que garante nosso futuro: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21.5). O governo eterno de Deus culminará na restauração plena.

Deixemos Deus ser Deus, conforme a Sua revelação, e descansemos nos Seus cuidados. A verdadeira paz nasce quando reconhecemos que Ele é soberano e que, em Cristo, somos guardados por esse governo eterno. Amém.

[1] João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 1.8), p. 22.

[2]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 100.1-3), p. 549. Veja-se também: João Calvino, Instrução na Fé, Goiânia, GO: Logos Editora, 2003, Caps. 1-3, p. 11-14.

[3]A.W. Pink, Deus é Soberano, Atibaia, SP.: Editora Fiel, 1977, p. 21. Em outro lugar: “Os idólatras do lado de fora da cristandade fazem ‘deuses’ de madeira e de pedra, enquanto os milhões de idólatras que existem dentro da cristandade fabricam um Deus extraído de suas mentes carnais. Na realidade, não passam de ateus, pois não existe alternativa possível senão a de um Deus absolutamente supremo, ou nenhum deus” (A.W. Pink, Os Atributos de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985, p. 28). Do mesmo modo, Sproul (1939-2017): “Defender a crença num ‘poder do alto’ nebuloso é balançar entre o ateísmo e um cristianismo total com suas exigências pessoais” (R.C. Sproul, Razão para Crer, São Paulo: Mundo Cristão, 1986, p. 48).

[4] A Editora Fiel tem uma versão resumida e adaptada desta obra: “Nascido Escravo”.

[5] “Duas coisas obrigam à pregação da predestinação. A primeira é a humilhação do nosso orgulho e o reconhecimento da graça de Deus; e a segunda é a natureza da fé Cristã em si mesma.” (Martin Luther, De Servo Arbitrio. In: E. Gordon Rupp; Philip S. Watson, eds. Luther and Erasmus: Free Will and Salvation, Philadelphia: The Westminster Press, 1969 p. 137).

[6]Cf. John M. Frame, A Doutrina do conhecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 56.


Autor: Hermisten Maia. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Editor e Revisor: Vinicius Lima.


Reflexões ComprometidasTeoBrasil


Hermisten Maia

Hermisten Maia é ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil, integrando a Equipe de Pastores da Primeira IP de São Bernardo do Campo, SP. É formado em Teologia, Filosofia e Pedagogia. É Mestre e Doutor em Ciências da Religião. Leciona em diversos Seminários ininterruptamente desde 1980. Tem experiência na área de Teologia Sistemática, lecionando há 40 anos, e História da Reforma Protestante, atuando principalmente nos seguintes temas: João Calvino e Teologia Reformada e Cosmovisão Reformada. Faz parte de diversos Conselhos Editoriais de Revistas de Teologia e de Ciências da Religião. Tem 40 livros escritos e mais de 1.500 artigos publicados. Leciona em diversas Instituições de Ensino Superior no Brasil. Publica diariamente em suas redes sociais um artigo e um vídeo.


https://voltemosaoevangelho.com/blog/2026/03/a-soberania-de-deus-2/

Estou envelhecendo e sofrendo muito — como ter alegria no envelhecimento?



Episódio do Podcast John Piper Responde

Por John Piper em 6 mar, 2026

Hoje vamos falar sobre envelhecimento — os medos que vêm com o envelhecimento. Ouvimos um cristão idoso que se abre conosco com total honestidade. Ele está aterrorizado com o envelhecimento, aterrorizado com a sensação de inutilidade, aterrorizado com as indignidades de um corpo em declínio, além do medo da morte, mesmo acreditando no céu. Então, eis o dilema: como terminar a vida — terminar a reta final e desconhecida desta corrida — enquanto se torna cada vez mais humilde, e fazê-lo sem se tornar medroso ou amargo?

Vamos à pergunta deste senhor: “Pastor John, o que você diria a alguém que tem pavor de envelhecer e se sente cada vez mais inútil à medida que suas forças diminuem, ou que entra em pânico com a morte, mesmo acreditando no céu? Esse é o meu dilema. Como um cristão idoso pode terminar sua vida não com medo ou amargura, mas com alegria, dignidade e esperança em Cristo?”


Para o país desconhecido

Vamos começar com Abraão. Hebreus 11:8 diz: “Pela fé, Abraão, quando chamado, obedeceu, a fim de ir para um lugar que devia receber por herança; e partiu sem saber aonde ia.”

Não sabemos se estaremos totalmente sozinhos no dia da nossa morte, sem nossos entes queridos ao nosso redor. Não sabemos se teremos perdido tantos recursos e capacidades que seremos profissionalmente inúteis. Não sabemos se será um momento de grande sofrimento e dor. Não sabemos se nossa fé será tranquila ou terrivelmente combatida pelo maligno. Não sabemos se nossas finanças terão se esgotado ou se alguma crise no mercado terá feito nossos recursos desaparecerem. Não sabemos se a demência nos terá roubado todas as nossas memórias cristãs e até mesmo nossa memória das Escrituras. Não sabemos quantos anos teremos, onde estaremos morando, se será repentino, longo ou prolongado.

Entre agora e o momento em que morreremos, estamos caminhando para um país desconhecido. Não importa quantos passos você tenha dado para se sentir seguro, não é — não neste mundo.

Agora, como fazemos isso? Como entramos nesse desconhecido com alegria, dignidade e esperança? Essa é a pergunta que está sendo feita. E, para ser honesto, pode ser impossível fazer isso com dignidade.


Alegria na indignidade

Eis o que o apóstolo Paulo diz sobre o corpo à medida que se aproxima da morte. Ele o descreve como uma semente plantada no solo: “Semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder.” (1 Coríntios 15.42–43).

Agora, eis uma paráfrase. Esta é minha paráfrase dessas três palavras: corruptível, desonra, fraqueza. Corruptível: apodrecendo como frutas com mofo em uma geladeira quente. Desonra: indigno e patético, como um velho encolhido em posição fetal com uma fralda que se suja. Fraqueza: indefeso, totalmente dependente dos outros para tudo. Essa é a imagem que Paulo tem do processo típico de morrer em sua época, e é muito comum em nossos dias.

Não temos nenhuma promessa na Bíblia de que a vida cristã terminará de outra forma que não seja assim — corruptível, desonrosa, indigna, fraca. Mas isso não significa que tenhamos que sucumbir à amargura e à falta de alegria.

Talvez tenhamos que abrir desistir da dignidade, mas a alegria em Jesus, a alegria na esperança, a alegria no sofrimento — podemos lutar por elas até o fim.

“Em todas as nossas aflições, estou transbordando de alegria” (2 Coríntios 7.4).

“Tristes, mas sempre alegres” (2 Coríntios 6.10).

“Nós nos alegramos em nossos sofrimentos” (Romanos 5.3).

“Considerem isso motivo de grande alegria, meus irmãos, quando passarem por várias tribulações” (Tiago 1.2).

“Eu me regozijo nas fraquezas, nos insultos, nas dificuldades, nas perseguições e nas calamidades” (2 Coríntios 12.10).

“Vocês aceitaram com alegria a perda dos seus bens” (Hebreus 10.34).

E assim por diante, os textos falam sobre a alegria no sofrimento. Podemos ter que desistir da dignidade, mas em toda a nossa fraqueza e sofrimento indignos, que possamos ser encontrados lutando a boa luta da alegria até o fim e dizendo com o apóstolo Paulo: “Em todas as nossas aflições” — nossas aflições do envelhecimento — “estamos transbordando de alegria”.


Permanecendo nas promessas de Deus

Agora, como fazemos isso? Fazemos da mesma maneira que sempre fizemos, da mesma maneira que lutamos pela alegria até o fim: vivemos pela fé na graça futura. Ou, em outras palavras: todos os dias nos levantamos e saímos da cama, permanecendo nas promessas de Deus. As promessas de Deus são a espada do Espírito com a qual matamos os pecados da incredulidade. Confiar nas promessas de Deus é o escudo da fé com o qual extinguimos os dardos inflamados da falta de alegria.

Portanto, quando o dardo inflamado da solidão ameaça nossa alegria, nós o extinguimos com a promessa:

“Eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mateus 28.20).

“Não te deixarei nem te abandonarei” (Deuteronômio 31.6).

“Assim, podemos dizer com confiança: ‘O Senhor é meu ajudador; não temerei; o que o homem pode fazer contra mim?’” (Hebreus 13.6).

Quando somos ameaçados pelo medo da inutilidade, extinguimos a flecha dessa ameaça com a promessa de que o menor bem feito por nós — mesmo que seja apenas uma oração sussurrada em nosso leito de morte — não será esquecido no céu, mas será recompensado pelo Senhor (Efésios 6.8).

Quando somos ameaçados pelo pensamento de que a perda miserável de nossas habilidades, força e beleza não tem nenhum propósito bom — que tudo é gratuito e sem sentido —, extinguimos esse dardo com a promessa de que esse definhamento está, na verdade, produzindo para nós “um peso eterno de glória incomparável” (2 Coríntios 4.16-17). Não é sem sentido.

Quando somos ameaçados pelo medo de que nossa fé possa falhar, extinguimos esse dardo com a promessa de que aquele que começou uma boa obra em sua vida irá terminá-la (Filipenses 1.6). Ele se apoderou de você, e é por isso que você pode se apoderar dele. Você não inicia isso; ele inicia isso. Como diz uma bela música que gosto chamada He Will Hold Me Fast, em seu refrão cantamos “Ele me sustentará, pois meu Salvador me ama tanto. Ele me sustentará”.

E assim as promessas continuam, correspondendo a cada dardo inflamado que o diabo lança contra nós. É assim que lutamos a luta pela alegria em meio a todas as indignidades do envelhecimento.


Aproximando-se de Deus todos os dias

Caro amigo que está envelhecendo, tenho 80 anos, e ter 80 anos significa que estou no meu 81º ano. Tudo isso é realmente relevante para mim.

Portanto, vamos cultivar uma proximidade com Deus. Vamos manter o Senhor sempre diante de nós (Salmo 16.8). Vamos focar todos os dias novamente na visão de Sua glória através das Escrituras. Vamos beber todos os dias do rio de suas delícias, que ele está tão desejoso de nos dar (Salmo 36.8). Vamos nos lembrar todos os dias que ele é um tesouro maior do que qualquer coisa que este mundo tem a oferecer (Mateus 13.44). Vamos responder, em voz alta, à sua pergunta a Pedro: “Tu me amas?” (João 21.17) com as palavras: “Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo, Jesus”. Vamos matar todo pecado e manter nossos corações puros. “Bem-aventurados os puros de coração, pois eles verão a Deus” (Mateus 5.8).

E enquanto pudermos, enquanto ainda pudermos, vamos ajudar os outros a fazer o mesmo. É isso que significa conhecer a Deus.


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Por: JOHN PIPER. © Desiring God Foundation. Website: desiringGod.org. Traduzido com permissão. Fonte: Aging with Joy | Revisão e edição por Vinicius Lima.


Desiring God PortuguêsJohn Piper Responde


John Piper

John Piper é o fundador e professor do desiringGod.org e chanceler do Bethlehem College & Seminary. Por 33 anos, serviu como pastor da igreja Bethlehem Baptist Church, em Mineápolis, Minessota. Ele é autor de mais de 50 livros, incluindo Em busca de Deus: Meditações de um hedonista cristão e o mais recente Providência.

https://voltemosaoevangelho.com/blog/2026/03/estou-envelhecendo-e-sofrendo-muito-como-ter-alegria-no-envelhecimento/

Educação e Ética na perspectiva reformada



Doutrina, Graça e Vida -  Educação e Ética na perspectiva reformada

Por Hermisten Maia em 11 fev, 2026


Resumo: Este artigo examina a relação entre educação e ética na tradição reformada, mostrando seu fundamento bíblico e cristocêntrico. Demonstra que ensinar forma convicções e viver eticamente responde à graça. Ao integrar doutrina e prática, o texto orienta a igreja a resistir ao relativismo, cultivar amor comunitário e viver a práxis do Reino em todas as esferas da vida cristã contemporânea. Escrito pelo Dr. Hermisten Maia, ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil. É formado em Teologia, Filosofia e Pedagogia. É Mestre e Doutor em Ciências da Religião. Leciona em diversos Seminários ininterruptamente desde 1980. Tem experiência na área de Teologia Sistemática, lecionando há 40 anos, e História da Reforma Protestante, atuando principalmente nos seguintes temas: João Calvino ,Teologia Reformada e Cosmovisão Reformada.


Introdução

Na tradição Reformada, educação e ética estão intrinsecamente ligadas à teologia. Ambas se fundamentam na revelação divina e na obra redentora de Cristo. A educação não é neutra: ela molda convicções que se expressam em conduta. A ética, por sua vez, não é simples convenção social, mas expressão da vontade de Deus.

Assim, educação e ética se articulam oferecendo bases sólidas para a vida cristã e comunitária, formando discípulos que refletem o Reino de Deus em todas as dimensões da existência.


Educação como formação integral

A Escritura apresenta a educação como formação integral do ser humano. O livro de Provérbios declara: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 1.7). Isso significa que todo processo educativo deve estar enraizado na reverência a Deus.

A educação cristã não se limita ao acúmulo de informações, mas orienta mente e coração para a verdade divina, preparando pessoas capazes de discernir e agir conforme a vontade do Criador.

Nesse sentido, a educação é vocacional: capacita o cristão a servir a Deus em todas as áreas da vida.


Ética como resposta à graça

A ética cristã nasce da obra redentora de Cristo. Paulo exorta: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo” (Rm 12.1). A vida ética é resposta prática à graça recebida. Não se trata de moralismo, mas de culto racional, em que fé e prática se entrelaçam. A obediência não é meio de salvação, mas fruto da salvação: o cristão vive em santidade não para conquistar mérito, mas para expressar gratidão e testemunhar a transformação operada pelo Espírito.


Doutrina e prática inseparáveis

Na perspectiva bíblica, crença e conduta caminham juntas. Jesus afirma: “Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes” (Jo 13.17). A fé não é apenas assentimento intelectual, mas compromisso existencial. Doutrina e ética não podem ser separadas: o ensino da verdade exige a prática da verdade. Por isso, a educação cristã é formativa, moldando convicções que se expressam em comportamento e testemunho.


O desafio dos padrões do mundo

A Escritura alerta contra a conformidade aos valores transitórios da cultura: “Não ameis o mundo, nem as coisas que há no mundo” (1Jo 2.15). A ética cristã rejeita o relativismo que reduz a moralidade a gostos pessoais ou convenções sociais. O certo e o errado não são definidos por preferências humanas, mas pela vontade de Deus revelada em sua Palavra. A educação Reformada prepara o indivíduo para resistir às pressões culturais, discernindo valores permanentes em meio ao caos aparente do mundo, e formando cidadãos do Reino capazes de atuar criticamente na sociedade.


Ética comunitária e responsabilidade social

A ética bíblica abarca toda a vida comunitária. O profeta Miquéias resume: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus?” (Mq 6.8).

A educação Reformada visa preparar o cristão para atuar em todas as esferas da vida − política, econômica e social − como testemunho do Reino de Deus. A ética não é apenas individual, mas comunitária, refletindo solidariedade, justiça e misericórdia. Assim, a educação cristã forma pessoas que entendem sua vocação pública: viver a fé em todas as dimensões da vida, contribuindo para a transformação da cultura e da sociedade.


O amor como fundamento da ética

O princípio que sustenta a ética cristã é o amor. Jesus declara: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.35). Esse amor não é abstrato, mas se concretiza em relacionamentos reais, em serviço ao próximo e em solidariedade comunitária.

A educação cristã deve cultivar esse amor concreto, que se traduz em ações de justiça, misericórdia e cuidado. O amor é o eixo que dá sentido à ética cristã, pois nele se resume a lei e os profetas (Mt 22.37-40).


Educação como práxis do Reino

O Sermão do Monte apresenta a ética do Reino como alternativa divina à desordem humana (Mt 5-7). A Igreja, como manifestação histórica do Reino, é chamada a demonstrar em sua prática a eficácia da ética de Cristo. A vida cristã é uma escola contínua, em que o discípulo aprende diariamente a viver sob o senhorio de Cristo.

A educação, nesse horizonte, é parte da práxis do Reino: prepara homens e mulheres para viverem de modo íntegro, crítico e responsável diante de Deus e da comunidade, tornando visível a transformação que o evangelho opera.


Considerações finais

Na perspectiva Reformada, educação e ética são inseparáveis porque ambas se fundamentam na revelação divina e na obra redentora de Cristo. A educação molda convicções que se expressam em conduta, e a ética reflete a natureza divina e o amor em relacionamentos concretos.

Dessa forma, a educação Reformada é chamada a formar homens e mulheres que, iluminados pelo Espírito e fundamentados na Escritura, vivam de modo íntegro e transformador, testemunhando o Reino de Deus em todas as esferas da vida. Trata-se de uma educação que não apenas transmite conhecimento, mas, pelo Espírito, gera vida, moldando discípulos que refletem Cristo em sua prática cotidiana. Amém.


Autor: Hermisten Maia. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Editor e Revisor: Vinicius Lima.


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