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quinta-feira, 9 de abril de 2026

Como devemos orar? | Kevin DeYoung

 


De acordo com Jesus, há dois “grandes nãos” quando se trata de como oramos: não seja como os hipócritas, e não seja como os pagãos. Em primeiro lugar, portanto, Jesus não quer que sejamos como os hipócritas ao orar:

E, quando orardes, não sejais como os hipócritas; pois gostam de orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam sua recompensa. Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê o que é secreto, te recompensará (Mt 6.5-6).

Vamos deixar claro o que entendemos pel termo hipócrita. A palavra grega hypocrites significa “ator de teatro”. Com sentido negativo, refere-se a alguém que veste uma máscara e desempenha um papel, alguém que finge ser o que não é. Esse é também basicamente o significado do termo hipócrita em português. Os hipócritas dizem acreditar em uma coisa, mas, na prática, vivem de um modo completamente diferente. É o caso do célebre vegetariano que come bacon toda noite, do inimigo ferrenho da indústria do tabaco que fuma um maço de cigarros por dia, do defensor dos valores da família que dorme com prostitutas — são todos hipócritas. Fingem ser o que não são. Seu fingimento tem como principal objetivo ganhar o aplauso e a estima das pessoas.

Com frequência, os cristãos pensam em hipócritas como pessoas que fazem uma coisa, mas cujos sentimentos não coincidem com a ação. Isso, porém, não é hipocrisia. Os hipócritas ostentam uma série de princípios, mas vivem de acordo com princípios diferentes dos que ostentam. Quando você vai à igreja mesmo sem vontade, isso se aproxima mais da fidelidade. Quando você faz a coisa certa em seu casamento, mesmo sem sentir muito amor, isso é lealdade. Já ouvi muitas vezes: “Pastor, eu seria hipócrita se continuasse casado, porque o amor acabou”. Ou: “Eu seria hipócrita se fosse ao culto, porque não sinto vontade de ir”. Ou: “Eu seria hipócrita se orasse, porque não sei bem em que creio e me sinto distante”. Fazer o que é certo quando não se tem vontade de fazê-lo é maturidade. Professar uma coisa em público, mas viver outra coisa diferente em particular, isso sim é hipocrisia.

Vemos claramente o que Jesus tem em mente em Mateus 6.1: “Cuidado para não praticardes boas obras diante dos homens a fim de serdes vistos por eles; do contrário, não tereis recompensa de vosso Pai, que está no céu”. É isso que fazem os hipócritas. Eles não amam a Deus de fato. Eles não gostam nem um pouco do reino. Não gostam de modo algum de santificar o nome de Deus. Gostam de orar nas sinagogas e nas esquinas das ruas. Gostam de ser vistos pelos outros. Não há nada de errado, obviamente, em orar em público. Jesus não está tentando acabar com o culto público ou a oração comunitária (cf. Mt 18.19-20; At 4.24-30). Quando Jesus chega a 6.9, ele pressupõe um contexto coletivo de oração. Ele faz um alerta contra o que é muito comum em nosso coração — e talvez mais no coração do pastor do que no de qualquer outra pessoa: ser religioso em público mais do que em particular. Nossa vida de oração deveria ser como iceberg no oceano: uma grande massa de espiritualidade sob a superfície e que é invisível aos olhos dos outros, e não como uma alface americana boiando na água, com todo o “conteúdo” visível e nada de substância por baixo. Nossa vida de oração deve ser mais do que aquilo que salta aos olhos.

Jesus faz um alerta a todos nós, mas especialmente aos pastores, presbíteros, diáconos, líderes de estudo bíblico feminino, líderes de pequenos grupos e qualquer um que esteja envolvido com o ministério público. Cuidado com o profissionalismo religioso. Cuidado para não dizer as coisas certas fora de casa e fazer tudo errado dentro de casa. Você talvez consiga enganar as pessoas durante uma hora ou duas uma vez por semana, aos domingos, mas você não está enganando a Deus, e não está enganando as pessoas que estão perto de você. Cuidado com esse tipo de profissionalismo religioso. Não ore para ser visto pelos outros.

Em vez disso, Jesus diz que devemos fechar a porta e orar para sermos vistos por Deus. Está claro para você que a oração é uma questão de fé? Será que acreditamos de fato que Deus nos ouve quando oramos? Acreditamos que Deus nos vê? Acreditamos que ele nos recompensará? Quando oramos em secreto, acreditamos que há um Deus que vê em secreto e nos ouve? Para isso é preciso fé. Se você gosta dos louvores dos homens, é só isso que você terá. Jesus diz: “Não seja tolo. Não viva sua vida à espera do aplauso humano se pode ter o aplauso divino”. Quem se importa se as pessoas o acham incrível se você pode viver sob o sorriso de Deus? Você acha que o Deus em secreto o vê e o recompensa?

Há alguns meses, minha esposa e eu compramos uma babá-eletrônica: um kit que vinha com um monitor e uma câmera de vídeo. Agora sabemos por que nosso filho de dois anos dorme até tarde de manhã. Ele brinca no berço durante duas horas depois de o colocarmos para dormir. É surpreendente ver o que ele faz de fato quando não sabe que o estamos vendo. Imagine agora que você é uma criança de sete anos de idade e que ama seu pai. Você o admira. Você sabe que ele cuida de você. E seu pai tem uma câmera em todos os cômodos para ver o que você está fazendo. Isso, porventura, não faria diferença na forma como você vive sua vida — não apenas no que diz respeito a fazer coisas erradas, mas também ao modo como você faz as coisas certas? A criança não precisa se sentir pressionada a se equiparar a seus amigos. Não precisa dar um show. Não precisa fingir ser o que não é. Ela precisa apenas ser a mesma pessoa onde quer que vá, porque em qualquer lugar, seu Pai a vê — não para castigá-la, neste caso, mas para recompensá-la! Viva para quem você não vê, não para quem vê. Não seja hipócrita.

Em segundo lugar, Jesus não quer que sejamos como os pagãos quando oramos:

E, quando orardes, não useis de repetições inúteis, a exemplo dos gentios; pois eles pensam que serão ouvidos pelo muito falar. Não vos assemelheis a eles; pois vosso Pai conhece de que necessitais, antes de o pedirdes a ele (Mt 6.7-8).

Jesus usa o termo “gentios” no versículo 7, mas não está pensando em etnicidade. Ele está pensando nas pessoas que oram, mas que não conhecem o Deus verdadeiro.

Há alguns anos, eu estava em Nova York com um grupo de cristãos no intuito de me reunir com diversos líderes religiosos da cidade e ouvir o que tinham a dizer. Entre outras coisas, assistimos, com a devida permissão e em um local reservado, a rituais sikhs e hindus. Estou certo de que muita gente ali era sincera em suas crenças, e respeitamos seu direito de adorar como achavam adequado. Cremos que todos têm direito à liberdade religiosa. E, no entanto, da perspectiva cristã, compreendi exatamente o que Jesus disse. Vi jovens executando rituais religiosos para os espectadores. Aqueles jovens pareciam pouco interessados no que faziam. Estavam acendendo velas, espargindo incenso ou orando por outras pessoas. A questão é que o ritual simplesmente foi executado. As palavras foram proferidas e as frases repetidas.

É possível ver esse mesmo fenômeno no mundo todo. Na maior parte dos países muçulmanos, o que importa é tão somente os rituais executados. Basta dizer as palavras certas e olhar para o lado certo na hora certa. Alguns países budistas usam rodas de oração. As pessoas colocam suas orações em um cilindro e o giram várias vezes, de modo que as orações sejam multiplicadas. É um ritual; é mecânico. Para Jesus, isso não é oração de jeito nenhum. Orar não é como aquelas enquetes de internet para eleger o melhor jogador de uma partida ou o vencedor de um reality show, nas quais é possível votar quantas vezes quiser, de modo que quanto mais você apertar o botão, mais chances seu escolhido tem de ganhar.

É verdade que Jesus nos exorta a orar e a jamais desistir (Lc 18.1-8), porém a oração persistente é muito diferente da oração do tagarela. A palavra usada em Mateus 6.7 é battalogeo, que significa: empilhar expressões vazias ou falar demais (NIV). A versão Nova Almeida Atualizada usa a expressão “vãs repetições”. O termo grego é uma espécie de onomatopeia, uma palavra que soa como o som que tenta reproduzir (p. ex., oinc, miau, atchim). Pare com o bat-ta-lo-ge-o, diz Jesus. Não sejam como os pagãos, que acham que o simples pronunciar das palavras agrada a Deus. Na oração, o objetivo não é completar algum ritual mecânico.

Dizer palavras vazias e sem sentido na oração ocorre com mais frequência do que imaginamos. Pode acontecer nas igrejas mais litúrgicas. O pastor lê aquelas fórmulas litúrgicas, recheadas de palavras muito específicas e trabalhadas durante séculos, com a paixão e a intensidade de um funcionário de call center que já leu tudo aquilo milhões de vezes (“Esta chamada poderá ser gravada para fins de qualidade e de treinamento. Tudo bem com o sr. hoje, sr. DeYoung?”). Podemos recitar o Credo dos Apóstolos, ou o Pai-Nosso, ou fazer uma leitura responsiva como se fossem experiências transcendentais. Mas é muito comum que essas palavras se transformem em uma repetição decorada sem vida e árida.

Por outro lado, pode-se orar também com expressões vazias e palavras sem sentido em igrejas informais que não recorrem a liturgias pré-definidas. A oração da liderança do culto pode ser feita sem planejamento empilhando frases sem muito sentido, ou podem ser até mesmo heréticas. “Ó querido Senhor, Deus Pai, nós te louvamos porque o Senhor morreu na cruz pelos nossos pecados. Pedimos apenas, Espírito Santo, que estejas conosco hoje e nos aconchegues sob o manto do teu amor”. Talvez achemos que quanto mais emocionais forem nossas orações, quanto mais empilharmos títulos divinos, tanto mais Deus nos ouvirá. John Stott chamava esse tipo de oração de “palavrório com zero raciocínio e nenhum coração”.[1]

Não precisamos impressionar Deus com nossas fórmulas ou com nossa espontaneidade. Ele sabe do que precisamos antes mesmo de lhe pedirmos (Mt 6.8). Não oramos porque Deus precisa de ajuda para administrar o universo. Não oramos para mudar a mente de Deus. Oramos porque Deus instituiu meios para alcançar seus propósitos. Ele dispôs as coisas de modo que concede mais graça àqueles que lhe pedem. Deus não precisa de oração, mas ele a usa, assim como usa outros meios. Ele usa a chuva para que as lavouras floresçam, o sol para aquecer a terra e o alimento para fortalecer nosso corpo. Da mesma maneira, Deus usa a oração para realizar sua obra soberana. Na oração, não estamos instruindo Deus; instruímos a nós mesmos.

Observe novamente a motivação de 6.9, pois a instrução no versículo 8 se baseia naquele que vê em secreto. Jesus ainda não ensinou seus discípulos pelo que orar, mas já é possível observar como é importante saber para quem estamos orando. Não estamos orando para um treinador impetuosos, ou para um rei distante, ou para um supervisor austero. Estamos orando para nosso Pai celestial. Se você acredita que ele é um bom Pai, então não precisa tentar impressionar outras pessoas. Você sabe que Deus vai cuidar de você. E se você acredita que ele é um Pai magnífico, então sabe também que não precisa empilhar palavras vazias. Você sabe que Deus conhece todas as suas necessidades. Ninguém ganhará crédito extra com o acréscimo de palavras.

Quando passo um trabalho para meus alunos do seminário, tenho de lhes dar o número aproximado de palavras que quero, ou eles não saberão que tipo de trabalho terão de escrever. Mas eu sempre lhes digo: “Não ultrapassem esse número! Não quero ler mais do que tenho de ler! E não enrolem. Digam o que têm a dizer e basta. Vou avaliar o que vocês dizem, não o fato de terem encontrado uma maneira prolixa de dizer”.

Notas

[1] John Stott, The message of the Sermon on the Mount (Downers Grove: IVP Academic, 1978), p. 144 [publicado em português por ABU Editora sob o título A mensagem do Sermão do Monte com John Stott].

Trecho extraído da obra “O Pai-Nosso“, de Kevin DeYoung, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2026, p.16-25. Publicado no site Cruciforme com permissão.

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Foto de Malachi Cowie na Unsplash

Kevin DeYoung é o pastor principal da University Reformed Church, em East Lansing (Michigan). Obteve sua graduação pelo Hope College e seu mestrado em teologia pelo Gordon-Conwell Teological Seminary. É preletor em conferências teológicas e mantém um blog na página do ministério The Gospel Coalition. Autor dos livros Os Dez Mandamentos, Homens e mulheres na igreja e Cristianismo impossível, publicados por Vida Nova

Sabemos da importância da oração, mas, muitas vezes, sua prática gera frustração. Livros que focam incessantemente no dever de orar costumam trazer mais culpa do que segurança. O segredo para mudar essa situação não está em seguir receitas ou repetições vazias, mas em aprender com aquele que melhor conhece o Pai. Com precisão teológica e sensibilidade pastoral, em O Pai-Nosso: aprendendo com Jesus sobre o que, por que e como orar, Kevin DeYoung examina com cuidado a oração ensinada por Cristo. Ele desvenda o contexto de cada petição, mostrando de forma prática como ela equilibra perfeitamente o zelo pela glória de Deus e a nossa total dependência de sua provisão, perdão e proteção. Cada capítulo acompanha um guia de estudo que pode ser usado em grupo, no discipulado de novos convertidos ou para a edificação pessoal. Mergulhe neste guia conciso para descobrir a convicção e a liberdade necessárias para abraçar o maior dos privilégios: a comunhão com o Deus vivo.

terça-feira, 31 de março de 2026

Mapa - LISTA MUNDIAL DA PERSEGUIÇÃO 2026


 Acesse o link abaixo para baixar o Mapa e a Lista oficial do Portas Abertas...

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A soberania de Deus



A soberania de Deus

Doutrina que consola e sustenta

Por Hermisten Maia em 25 mar, 2026


Resumo: Este artigo explica a doutrina da soberania de Deus à luz da teologia reformada e das Escrituras, mostrando por que ela confronta a mentalidade pós-moderna e, ao mesmo tempo, oferece profundo consolo ao cristão. A partir de textos bíblicos e reflexões de Calvino, Lutero e Pink, o texto apresenta como o governo absoluto de Deus sustenta a fé, a esperança e a vida cristã. Escrito pelo Dr. Hermisten Maia, ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil. É formado em Teologia, Filosofia e Pedagogia. É Mestre e Doutor em Ciências da Religião. Leciona em diversos Seminários ininterruptamente desde 1980. Tem experiência na área de Teologia Sistemática, lecionando há 40 anos, e História da Reforma Protestante, atuando principalmente nos seguintes temas: João Calvino ,Teologia Reformada e Cosmovisão Reformada.

Na cultura “pós-moderna”, marcada pela busca de autonomia absoluta e pela rejeição de qualquer autoridade externa, a soberania de Deus soa como afronta. Vivemos em tempos em que a liberdade é exaltada como valor supremo, mas, paradoxalmente, ela mesma nos aprisiona em ansiedades e inseguranças. Defendemos princípios até que nos contrariem e, não raro, transformamos interesses pessoais em “princípios” de vida.

Entre as doutrinas que mais sofrem com essa oscilação está a soberania de Deus. Em tempos de estabilidade, preferimos falar de nossa autonomia e capacidade de escolha. Mas quando nos vemos sem recursos, aflitos ou desorientados, recorremos à fé singela: “Deus é soberano, Ele sabe o que faz”.

Calvino (1509-1564) observou com precisão: “Mesmo os santos precisam sentir-se ameaçados por um total colapso das forças humanas, a fim de aprenderem, de suas próprias fraquezas, a depender inteira e unicamente de Deus”.[1]


A dificuldade humana em deixar Deus ser Deus

O coração humano resiste em receber a Deus como Ele Se revela. Desde o Éden, quando Adão e Eva desejaram “ser como Deus” (Gn 3.5), a humanidade insiste em moldar o Criador à sua própria imagem. Paulo descreve esse movimento em Romanos 1: os homens trocam a glória de Deus por ídolos, preferindo adorar a criatura em vez do Criador.

Quando julgamos dominar a realidade, dispensamos Deus; quando não, criamos um “deus” à nossa medida para justificar crenças ou incredulidade. A Teologia Reformada chama isso de depravação total: não apenas fazemos escolhas erradas, mas nossa própria vontade é inclinada contra Deus.

O Antigo Testamento mostra como Israel confundiu o silêncio de Deus com aprovação tácita de seus pecados. O Senhor, porém, os advertiu: “Pensavas que eu era teu igual; mas eu te arguirei e porei tudo à tua vista” (Sl 50.21). Calvino comenta: “Cada um faz de si mesmo um deus e virtualmente se adora, quando atribui a seu próprio poder o que Deus declara pertencer-lhe exclusivamente”.[2]


A soberania como escândalo e consolo

Curiosamente, os homens reconhecem espontaneamente atributos como amor, graça e perdão, mas rejeitam a soberania. Pink (1886-1952) advertiu: “Negar a soberania de Deus é entrar em um caminho que, seguindo até à sua conclusão lógica, leva a manifesto ateísmo” [3]

O tema da soberania esteve no centro da Reforma. Lutero (1483-1546), em sua obra De Servo Arbitrio[4], confrontou Erasmo (1466-1536) ao afirmar que a vontade humana está cativa e só a soberania divina liberta. Mais tarde, debates sobre predestinação marcaram concílios e denominações.[5]

Enquanto o deísmo moderno concebia um Deus distante, que não intervém, a fé cristã proclama um Deus soberano que governa cada detalhe da história.

A soberania é a doutrina mais repudiada pelo homem natural e, ao mesmo tempo, a mais consoladora para o crente. Jó expressa nossa limitação diante do mistério divino: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos! Que leve sussurro temos ouvido dele! Mas o trovão do seu poder, quem o entenderá?” (Jó 26.14). Ainda assim, é justamente na confiança na soberania de Deus que encontramos paz em meio às vicissitudes da vida.


O Conhecimento como dom da graça

Nosso conhecimento de Deus é sempre “conhecimento-de-servo”, delimitado pelo próprio Senhor e condicionado pela realidade do pecado humano. É um saber acerca de Deus como Senhor e, ao mesmo tempo, sujeito a Ele.[6]

Como seres finitos, não podemos enxergar o todo da realidade de uma vez; nossa perspectiva é limitada por nossa própria finitude. Conhecer a Deus é iniciativa da graça divina: é fé que nasce da graça. Por isso, não somos padrão de verdade; precisamos validar nosso pensamento na Palavra, que é a verdade (Jo 17.17). O nosso conhecimento nunca é autorreferente com validade própria e por iniciativa nossa.

Somente Deus é soberano, e somente a partir Dele podemos conhecê-Lo. Esse conhecimento nos liberta para compreender a nós mesmos e a realidade ao nosso redor, sustentando-nos inclusive nos momentos de dor, quando a medicina falha, o emprego é perdido ou a morte visita o lar. É a certeza de que Deus reina que consola e fortalece o crente.


Conclusão pastoral

A soberania de Deus não é um conceito abstrato, mas um fundamento para a vida cristã. Nela repousa nosso consolo: saber que o Senhor reina, que nada escapa ao Seu governo e que Suas promessas sustentam nossa esperança.

Uma família que perde um ente querido encontra consolo não em explicações humanas, mas na certeza de que “o Senhor reina” (Sl 93.1). Assim também, o missionário que enfrenta perseguição persevera porque confia que Deus governa até sobre os corações mais endurecidos.

E, finalmente, é a soberania que garante nosso futuro: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21.5). O governo eterno de Deus culminará na restauração plena.

Deixemos Deus ser Deus, conforme a Sua revelação, e descansemos nos Seus cuidados. A verdadeira paz nasce quando reconhecemos que Ele é soberano e que, em Cristo, somos guardados por esse governo eterno. Amém.

[1] João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 1.8), p. 22.

[2]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 100.1-3), p. 549. Veja-se também: João Calvino, Instrução na Fé, Goiânia, GO: Logos Editora, 2003, Caps. 1-3, p. 11-14.

[3]A.W. Pink, Deus é Soberano, Atibaia, SP.: Editora Fiel, 1977, p. 21. Em outro lugar: “Os idólatras do lado de fora da cristandade fazem ‘deuses’ de madeira e de pedra, enquanto os milhões de idólatras que existem dentro da cristandade fabricam um Deus extraído de suas mentes carnais. Na realidade, não passam de ateus, pois não existe alternativa possível senão a de um Deus absolutamente supremo, ou nenhum deus” (A.W. Pink, Os Atributos de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985, p. 28). Do mesmo modo, Sproul (1939-2017): “Defender a crença num ‘poder do alto’ nebuloso é balançar entre o ateísmo e um cristianismo total com suas exigências pessoais” (R.C. Sproul, Razão para Crer, São Paulo: Mundo Cristão, 1986, p. 48).

[4] A Editora Fiel tem uma versão resumida e adaptada desta obra: “Nascido Escravo”.

[5] “Duas coisas obrigam à pregação da predestinação. A primeira é a humilhação do nosso orgulho e o reconhecimento da graça de Deus; e a segunda é a natureza da fé Cristã em si mesma.” (Martin Luther, De Servo Arbitrio. In: E. Gordon Rupp; Philip S. Watson, eds. Luther and Erasmus: Free Will and Salvation, Philadelphia: The Westminster Press, 1969 p. 137).

[6]Cf. John M. Frame, A Doutrina do conhecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 56.


Autor: Hermisten Maia. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Editor e Revisor: Vinicius Lima.


Reflexões ComprometidasTeoBrasil


Hermisten Maia

Hermisten Maia é ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil, integrando a Equipe de Pastores da Primeira IP de São Bernardo do Campo, SP. É formado em Teologia, Filosofia e Pedagogia. É Mestre e Doutor em Ciências da Religião. Leciona em diversos Seminários ininterruptamente desde 1980. Tem experiência na área de Teologia Sistemática, lecionando há 40 anos, e História da Reforma Protestante, atuando principalmente nos seguintes temas: João Calvino e Teologia Reformada e Cosmovisão Reformada. Faz parte de diversos Conselhos Editoriais de Revistas de Teologia e de Ciências da Religião. Tem 40 livros escritos e mais de 1.500 artigos publicados. Leciona em diversas Instituições de Ensino Superior no Brasil. Publica diariamente em suas redes sociais um artigo e um vídeo.


https://voltemosaoevangelho.com/blog/2026/03/a-soberania-de-deus-2/

Estou envelhecendo e sofrendo muito — como ter alegria no envelhecimento?



Episódio do Podcast John Piper Responde

Por John Piper em 6 mar, 2026

Hoje vamos falar sobre envelhecimento — os medos que vêm com o envelhecimento. Ouvimos um cristão idoso que se abre conosco com total honestidade. Ele está aterrorizado com o envelhecimento, aterrorizado com a sensação de inutilidade, aterrorizado com as indignidades de um corpo em declínio, além do medo da morte, mesmo acreditando no céu. Então, eis o dilema: como terminar a vida — terminar a reta final e desconhecida desta corrida — enquanto se torna cada vez mais humilde, e fazê-lo sem se tornar medroso ou amargo?

Vamos à pergunta deste senhor: “Pastor John, o que você diria a alguém que tem pavor de envelhecer e se sente cada vez mais inútil à medida que suas forças diminuem, ou que entra em pânico com a morte, mesmo acreditando no céu? Esse é o meu dilema. Como um cristão idoso pode terminar sua vida não com medo ou amargura, mas com alegria, dignidade e esperança em Cristo?”


Para o país desconhecido

Vamos começar com Abraão. Hebreus 11:8 diz: “Pela fé, Abraão, quando chamado, obedeceu, a fim de ir para um lugar que devia receber por herança; e partiu sem saber aonde ia.”

Não sabemos se estaremos totalmente sozinhos no dia da nossa morte, sem nossos entes queridos ao nosso redor. Não sabemos se teremos perdido tantos recursos e capacidades que seremos profissionalmente inúteis. Não sabemos se será um momento de grande sofrimento e dor. Não sabemos se nossa fé será tranquila ou terrivelmente combatida pelo maligno. Não sabemos se nossas finanças terão se esgotado ou se alguma crise no mercado terá feito nossos recursos desaparecerem. Não sabemos se a demência nos terá roubado todas as nossas memórias cristãs e até mesmo nossa memória das Escrituras. Não sabemos quantos anos teremos, onde estaremos morando, se será repentino, longo ou prolongado.

Entre agora e o momento em que morreremos, estamos caminhando para um país desconhecido. Não importa quantos passos você tenha dado para se sentir seguro, não é — não neste mundo.

Agora, como fazemos isso? Como entramos nesse desconhecido com alegria, dignidade e esperança? Essa é a pergunta que está sendo feita. E, para ser honesto, pode ser impossível fazer isso com dignidade.


Alegria na indignidade

Eis o que o apóstolo Paulo diz sobre o corpo à medida que se aproxima da morte. Ele o descreve como uma semente plantada no solo: “Semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder.” (1 Coríntios 15.42–43).

Agora, eis uma paráfrase. Esta é minha paráfrase dessas três palavras: corruptível, desonra, fraqueza. Corruptível: apodrecendo como frutas com mofo em uma geladeira quente. Desonra: indigno e patético, como um velho encolhido em posição fetal com uma fralda que se suja. Fraqueza: indefeso, totalmente dependente dos outros para tudo. Essa é a imagem que Paulo tem do processo típico de morrer em sua época, e é muito comum em nossos dias.

Não temos nenhuma promessa na Bíblia de que a vida cristã terminará de outra forma que não seja assim — corruptível, desonrosa, indigna, fraca. Mas isso não significa que tenhamos que sucumbir à amargura e à falta de alegria.

Talvez tenhamos que abrir desistir da dignidade, mas a alegria em Jesus, a alegria na esperança, a alegria no sofrimento — podemos lutar por elas até o fim.

“Em todas as nossas aflições, estou transbordando de alegria” (2 Coríntios 7.4).

“Tristes, mas sempre alegres” (2 Coríntios 6.10).

“Nós nos alegramos em nossos sofrimentos” (Romanos 5.3).

“Considerem isso motivo de grande alegria, meus irmãos, quando passarem por várias tribulações” (Tiago 1.2).

“Eu me regozijo nas fraquezas, nos insultos, nas dificuldades, nas perseguições e nas calamidades” (2 Coríntios 12.10).

“Vocês aceitaram com alegria a perda dos seus bens” (Hebreus 10.34).

E assim por diante, os textos falam sobre a alegria no sofrimento. Podemos ter que desistir da dignidade, mas em toda a nossa fraqueza e sofrimento indignos, que possamos ser encontrados lutando a boa luta da alegria até o fim e dizendo com o apóstolo Paulo: “Em todas as nossas aflições” — nossas aflições do envelhecimento — “estamos transbordando de alegria”.


Permanecendo nas promessas de Deus

Agora, como fazemos isso? Fazemos da mesma maneira que sempre fizemos, da mesma maneira que lutamos pela alegria até o fim: vivemos pela fé na graça futura. Ou, em outras palavras: todos os dias nos levantamos e saímos da cama, permanecendo nas promessas de Deus. As promessas de Deus são a espada do Espírito com a qual matamos os pecados da incredulidade. Confiar nas promessas de Deus é o escudo da fé com o qual extinguimos os dardos inflamados da falta de alegria.

Portanto, quando o dardo inflamado da solidão ameaça nossa alegria, nós o extinguimos com a promessa:

“Eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mateus 28.20).

“Não te deixarei nem te abandonarei” (Deuteronômio 31.6).

“Assim, podemos dizer com confiança: ‘O Senhor é meu ajudador; não temerei; o que o homem pode fazer contra mim?’” (Hebreus 13.6).

Quando somos ameaçados pelo medo da inutilidade, extinguimos a flecha dessa ameaça com a promessa de que o menor bem feito por nós — mesmo que seja apenas uma oração sussurrada em nosso leito de morte — não será esquecido no céu, mas será recompensado pelo Senhor (Efésios 6.8).

Quando somos ameaçados pelo pensamento de que a perda miserável de nossas habilidades, força e beleza não tem nenhum propósito bom — que tudo é gratuito e sem sentido —, extinguimos esse dardo com a promessa de que esse definhamento está, na verdade, produzindo para nós “um peso eterno de glória incomparável” (2 Coríntios 4.16-17). Não é sem sentido.

Quando somos ameaçados pelo medo de que nossa fé possa falhar, extinguimos esse dardo com a promessa de que aquele que começou uma boa obra em sua vida irá terminá-la (Filipenses 1.6). Ele se apoderou de você, e é por isso que você pode se apoderar dele. Você não inicia isso; ele inicia isso. Como diz uma bela música que gosto chamada He Will Hold Me Fast, em seu refrão cantamos “Ele me sustentará, pois meu Salvador me ama tanto. Ele me sustentará”.

E assim as promessas continuam, correspondendo a cada dardo inflamado que o diabo lança contra nós. É assim que lutamos a luta pela alegria em meio a todas as indignidades do envelhecimento.


Aproximando-se de Deus todos os dias

Caro amigo que está envelhecendo, tenho 80 anos, e ter 80 anos significa que estou no meu 81º ano. Tudo isso é realmente relevante para mim.

Portanto, vamos cultivar uma proximidade com Deus. Vamos manter o Senhor sempre diante de nós (Salmo 16.8). Vamos focar todos os dias novamente na visão de Sua glória através das Escrituras. Vamos beber todos os dias do rio de suas delícias, que ele está tão desejoso de nos dar (Salmo 36.8). Vamos nos lembrar todos os dias que ele é um tesouro maior do que qualquer coisa que este mundo tem a oferecer (Mateus 13.44). Vamos responder, em voz alta, à sua pergunta a Pedro: “Tu me amas?” (João 21.17) com as palavras: “Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo, Jesus”. Vamos matar todo pecado e manter nossos corações puros. “Bem-aventurados os puros de coração, pois eles verão a Deus” (Mateus 5.8).

E enquanto pudermos, enquanto ainda pudermos, vamos ajudar os outros a fazer o mesmo. É isso que significa conhecer a Deus.


Conheça os livros de John Piper pela Editora Fiel 

Veja mais episódios do John Piper Responde 


Por: JOHN PIPER. © Desiring God Foundation. Website: desiringGod.org. Traduzido com permissão. Fonte: Aging with Joy | Revisão e edição por Vinicius Lima.


Desiring God PortuguêsJohn Piper Responde


John Piper

John Piper é o fundador e professor do desiringGod.org e chanceler do Bethlehem College & Seminary. Por 33 anos, serviu como pastor da igreja Bethlehem Baptist Church, em Mineápolis, Minessota. Ele é autor de mais de 50 livros, incluindo Em busca de Deus: Meditações de um hedonista cristão e o mais recente Providência.

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