Fundamentos
“Ora, destruídos os fundamentos, que poderá
fazer o justo?” (Salmos 11.3)
Esta citação bíblica nos ensina a
necessidade de fundamentos para podermos praticar e viver a justiça. Assistimos
hoje ao avanço de uma mentalidade cuja característica é a demolição dos
fundamentos da sociedade ocidental cristã, como a conhecemos.
Esta mentalidade é chamada por muitos
estudiosos de pós-modernidade. Como o nome indica, a pós-modernidade
é o período da história
que veio para tomar o lugar do período moderno. Este tempo foi iniciado,
conforme se pensa, com a falência do comunismo, com a derrocada do muro de Berlim,
em 1989, e com o insucesso da economia, dos organismos mundiais e da tecnologia
e ciência modernas de resolver os problemas mais agudos da humanidade.
Passou-se a questionar os fundamentos
anteriormente estabelecidos e começou a questionar-se também a existência de
verdade absoluta em todas as áreas da vida e do conhecimento humanos.
A pós-modernidade não é propriamente um
movimento organizado, mas um espírito, uma maneira de ver a realidade, uma
mentalidade, cuja influencia se percebe na academia, na religião, na arte, na
cultura, na economia.
Nessa postagem eu gostaria de refletir sobre
as oportunidades e desafios que esta mentalidade pós-moderna representa do
ponto de vista do cristianismo histórico. O ponto central é este do Salmo 11.3
– é preciso fundamentos para que se possa fazer justiça.
Vejamos,
primeiramente, os fundamentos que a mentalidade pós-moderna tende a derrubar.
No topo da lista temos o fundamento da existência de valores,
conceitos e verdades absolutos e universais.
O pensamento pós-moderno rejeita o conceito
defendido pela modernidade de que existam verdades absolutas e fixas. Toda
verdade é relativa e depende do contexto social e cultural onde as pessoas
vivem. Cada um percebe a verdade de sua própria forma. Não existe “verdade”,
mas sim “verdades” que não se contradizem, mas se complementam. Isso inclui
verdades religiosas. Conceitos como “Deus” são totalmente relativos. A única “inverdade”
que existe é alguém insistir que existe verdade fixa e absoluta!
Em seguida vem o fundamento da racionalidade.
A mentalidade pós-moderna rejeita o ideal do pensamento moderno de que a
verdade pode ser alcançada através da análise racional. Considera que a
promessa do Iluminismo, de encontrar uma resposta unificada para a realidade
falhou completamente. A pós-modernidade, assim, abandonou a busca de verdades
absolutas e fixas, que caracterizou o período anterior, rejeitando igualmente o
conceito de dogmas e definições exatas.
Para a mentalidade pós-moderna, a mensagem
cristã é muito ofensiva, pois esta apresenta a Bíblia como única revelação de
Deus, a existência de absolutos morais, e o Evangelho como sendo a verdade.
Temos também o fundamento da análise crítica.
Surgimento do conceito do politicamente correto – Na mentalidade pluralista e
inclusivista, a opinião e as convicções de todos têm de ser respeitadas. A
razão para esse “respeito” é que a opinião de um é vista como tão verdadeira
quanto a opinião do outro. Assim, torna-se politicamente incorreto criticar as
opiniões, a conduta e as preferências morais, políticas, religiosas de alguém.
Deve-se amenizar os comentários críticos com
eufemismos ou generalidades que não ofendam. Já que não existem conceitos
absolutos na área de religião e de moral, não pode haver proselitismo, isto é,
alguém tentar convencer outro a mudar de religião ou de comportamento.
Por fim, menciono o fundamento do certo e do
errado. Com o abandono das verdades absolutas, não há parâmetros objetivos a
serem seguidos. O pós-modernista Steven Connor (Postmodernist Culture, 1989), diz que “desde a música ao turismo, à
TV e mesmo à educação, o consumidor não quer mais aquilo que é bom, mas ele
quer experiências”. O parâmetro passa ser o sentimento, a experiência. Daí
começou a surgir a filosofia do “sentir bem”.
Um exemplo pertinente do que estamos dizendo
é a declaração do educador e ex-pastor presbiteriano Rubem Alves, numa fala
durante uma cerimônia por ocasião da Reforma Protestante no Rio de Janeiro
(2003):
Gente, isso aí é uma das coisas mais centrais do espírito
da Reforma que significa que nós somos livres, não é? Não é pecado pensar
errado, porque ninguém sabe o que é pensar certo. Então a gente pode pensar do
jeito que for, que não tem ortodoxo e herege. E quem quiser dizer que o outro é
herege não está entendendo direito o espírito da Reforma.
Contudo, há vários aspectos positivos na
pós-modernidade. Primeiro, ela acentua o conceito de tolerância. Segundo,
estimula os estudos acadêmicos sobre multiculturalismo, gênero e sexualidade.
Ainda, ela inibe a discriminação preconceituosa por conta de gênero, raça e
posição social e abre espaços na academia para integrantes de grupos
minoritários. Por fim, mencionamos que ela desperta os estudiosos para o papel
do horizonte do indivíduo na percepção da realidade.
Ainda assim, existem
sérias inconsistências da mentalidade pós-moderna que apontam para a
necessidade de fundamentos. Por exemplo, a inconsistência
acadêmica. Pós-modernos escrevem textos para demonstrar que textos não têm
sentido algum, ou porque se descontroem ou porque têm tantos sentidos que
acabam não tendo nenhum. Eles precisam do fundamento da hermenêutica: o texto
quer dizer o que o seu autor quis dizer, para poder provar o contrário.
Há também uma certa inconsistência
axiomática. Pós-modernos negam a existência de verdades universais e absolutas.
Entretanto, defendem um axioma que consideram absoluto e universal, “não
existem verdades absolutas”. Precisam partir do fundamento da existência de
verdades absolutas para poder argumentar que elas não existem.
Uma outra inconsistência é aquela da atitude.
Pós-modernos defendem o conceito de tolerância como a total complacência para
com o pensamento de outros quanto à política, sexo, religião, raça, gênero,
valores morais e atitudes pessoais. Entretanto, existe claramente um ponto de
vista que eles não toleram: o daqueles que insistem em se apegar a conceitos e
valores definidos e objetivos.
inconsistência religiosa. Pós-modernos
pregam o fim do cristianismo por ser uma religião absolutista, que crê em
verdade, revelação, certo e errado. Porém, a religião por excelência da
pós-modernidade é o antigo paganismo, que ressurge modernamente com seu
dualismo cósmico entre o bem e o mal. Não consegue se livrar do conceito de que
existe o certo e o errado, o bem e o mal.
Por fim, vem a inconsistência ética. É comum
vermos pós-modernistas negando a verdade absoluta e, ao mesmo tempo, lutando
pelos “direitos humanos” ou pelo estabelecimento da “justiça”, ou em favor da
ecologia, especialmente nos países do terceiro mundo. Os pós-modernistas acabam
caindo na inconsistência de aceitar verdades universais para resolver situações
específicas. Eles aceitam regras gerais de coletividade ética, mas afirmam não
existir padrão de verdades.
Os desafios que a pós-modernidade traz para
uma universidade confessional são grandes. Primeiro, o desafio de não sermos um
gueto. Segundo, o desafio de não engolirmos a mentalidade pós-moderna, que às
vezes se oferece sob capa acadêmica, de forma acrítica. Por fim, o desafio de
mantermos uma adesão a fundamentos éticos e morais em meio ao relativismo e
pluralismo da nossa época.
Gostaria de sugerir que o cristianismo tem uma visão
de mundo e de realidade que respeita e reafirma todos os fundamentos que nossa
lógica e bom senso declaram existir.
http://tempora-mores.blogspot.com.br/2017/12/cristianismo-e-universidade-8.html

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