O texto abaixo foi extraído do livro 8 Mulheres de Fé, de Michael Haykin, lançamento da Editora Fiel.
Por várias razões, o casamento de
Richard e Margaret se tornou o assunto de Londres. Havia a diferença de
idade entre eles: Richard era velho o suficiente para ser pai dela.
Havia também a disparidade entre a situação social de ambos: a morte da
mãe dela, em 1661, lhe deu uma riqueza considerável. Finalmente, era
conhecido de todos que Baxter tinha advogado o celibato para ministros,
devido à necessidade de se devotarem sem reservas aos seus ministérios.
Embora Baxter nunca tivesse afirmado a visão católica romana de que o
casamento dos ministros era ilegal, advertia-os com o desejo de
supervisionar o rebanho:
O trabalho do sagrado ministério é
suficiente para ocupar o homem inteiro, se ele tivesse a força e os
atributos de muitos homens… Acredite, aquele que tiver uma esposa deverá
passar muito de seu tempo em sua companhia, em oração e outras
obrigações familiares… E, se ele tiver filhos, ó, quanto cuidado, tempo e
trabalho eles irão demandar.
Porém, uma vez que se casou, Baxter
descobriu que o casamento estava em bastante sintonia com ele. Como ele
escreveu depois da morte de sua esposa: “Vivemos em amor inviolável e
mútua complacência, cientes do benefício do auxílio mútuo. Nesses quase
dezenove anos, não me lembro de uma única vez que tenhamos divergido em
questão de amor ou de interesse”.
Essa afirmação, contudo, deve ser lida à
luz do fato de que nem Richard nem Margaret eram pessoas tranquilas.
Richard, estudioso e, de certa forma, recluso, era não era muito
treinado no trato social. Às vezes, era mal-humorado e tinha uma língua
afiada, possivelmente um efeito colateral por viver regularmente com
dores. Margaret, então, o repreendia gentilmente quando ele se mostrava
descuidado ou precipitado em seu discurso. Baxter escreve: “Se minha
aparência não estivesse agradável, ela fazia com que eu me ajeitasse (o
que meu estado físico fraco e doloroso me deixava indisposto a fazer)”.
Baxter aprendeu uma lição valorosa sobre o casamento por meio da
correção de Margaret em relação às suas faltas. Não foi nada menos do
que uma escola de santificação. E aconselhou maridos e esposas em
Christian Directory:
Não ocultem o estado de suas almas, nem
escondam suas falhas um do outro. Vocês são como uma carne e devem ter
um coração: e, assim como é tão perigoso para um homem ser desconhecido
para si mesmo, também é muito nocivo para o marido ou a esposa serem
desconhecidos um do outro; nesses casos, eles necessitam de ajuda. Não
passa de uma tola sensibilidade de sua parte quando você esconde a
doença de seu médico ou de seu amigo prestativo; e quem deveria ser
gentil e prestativo para você como vocês deveriam ser um para o outro?
De fato, em alguns poucos casos, em que revelar uma falta ou um segredo
não fará nada além de extinguir a afeição, e não promover o auxílio do
outro, é sábio ocultar; mas esse não é o caso mais corriqueiro. Abrir o
coração um para o outro é necessário para a ajuda mútua.
Margaret, por outro lado, estava
geralmente sobrecarregada por medos irracionais obsessivos, pesadelos e
pavor. Parte disso foi causada por haver quase morrido pelo menos quatro
vezes antes de conhecer Richard, além de um incidente traumático, em
especial na Guerra Civil, quando o castelo de sua mãe foi cercado,
invadido e saqueado, e “homens foram mortos bem na sua frente”. E ela
também sofria de várias enfermidades, em especial ataques regulares de
enxaqueca e congestão dos pulmões. De resto, tinha “uma perspicácia
extraordinária, aguda e contundente” e era capaz de avaliar o caráter de
homens e mulheres bem rapidamente. Ela tendia, segundo Baxter, a ser
quieta e reservada, e dado o dom dela de compreender os outros, esperava
“que todos compreendessem sua mente sem [ela] expressá-la”. Como era de
se esperar, quando as pessoas, inclusive seu marido, falhavam em
entender o que ela estava pensando, sentia-se frustrada. Apesar disso,
ao contrário de seu marido, ela não tinha problemas com a raiva.
Ademais, as circunstâncias em que foram
criados deram a eles expectativas bem distintas acerca de como cuidar da
casa, o que, sem dúvida, causava certa tensão. Baxter escreve sobre si
mesmo:
Fui criado em meio a pessoas simples,
inferiores [quer dizer, humildes], e acreditava que lavar tanto as
escadas como os quartos, para mantê-los limpos como tábuas de cortar pão
ou louça, e toda a falação a respeito de limpeza e ninharias, tudo isso
era curiosidade pecaminosa e gasto de tempo dos servos, os quais
poderiam, durante aquele tempo, ler algum bom livro. Mas ela, que fora
criada de outra forma, tinha outro modo de pensar.
Os anos que passou sozinho deixaram
Baxter indiferente quanto às questões de cuidar de uma casa. Apesar
disso, ele ficou feliz de ter alguém eficiente que cuidasse de seus
assuntos. A casa dos Baxter, como todas as outras, tirando as mais
pobres daquela época, tinha servos. Margaret se mostrava uma senhora
extremamente gentil e carinhosa em relação a eles, quase sempre deixando
passar suas faltas e erros. Ela insistia em que Richard os catequizasse
uma vez por semana e lhes ensinasse a Bíblia. Havia ocasiões em que
Baxter estava tão envolvido em seus estudos que se esquecia de sua
obrigação. Então, Margaret o lembrava gentilmente com uma expressão de
“encrenca” no rosto. Os servos no lar dos Baxter eram tratados como
família: “Ela nutria um desejo sincero pela conversão e a salvação de
seus servos”, escreveu Baxter, “e se sentia muito preocupada com a
possibilidade de que tantos deles (embora toleráveis em seu serviço)
fossem embora tão ignorantes, ou alheios em relação à verdadeira
piedade, quanto tinham chegado; e aqueles que se convertiam genuinamente
conosco, ela amava como se fossem filhos”.

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