Stephen Nichols 14 de Setembro de 2017 - História da Igreja
O texto abaixo foi extraído do livro Além das 95 Teses, de Stephen Nichols, futuro lançamento da Editora Fiel.
“Ainda não progredi além da instrução das crianças nos Dez Mandamentos, o Credo e a Oração do Senhor.
Ainda aprendo e oro todos os dias com meu Hans e minha pequena Lena.”
Martinho Lutero, 1531
Martinho Lutero era verdadeiramente um
pastor muito ocupado. Executava múltiplas tarefas, incluindo escrever,
pregar, ensinar e administrar. Toda semana, ele escrevia numerosas e
longas cartas ou trabalhava em um de seus muitos tratados, pregava duas
vezes aos domingos e, em geral, mais três vezes durante a semana,
lecionava diariamente na universidade, orientava muitos estudantes e
aconselhava um bom número de pastores, igrejas e até mesmo príncipes
novatos. Além disso, Lutero cuidava de sua família sempre crescente.
Também experimentou a pressão das diversas controvérsias resultantes de
seu tempo e de seus esforços. No entanto, em meio a toda essa atividade
frenética, ele dedicava algumas horas ao ensino, não só de seus próprios
filhos, mas também das crianças de Wittenberg.
Lutero tinha um intelecto incrível. A
tradução que fez do Novo Testamento grego para o alemão, em apenas três
meses, permanece como um claro testemunho à sua genialidade. Envolveu-se
em debates com as mais brilhantes mentes de seus dias. Muito antes de
sua notoriedade ter-se espalhado com a postagem das 95 teses, ele já se
havia estabelecido claramente como um dos acadêmicos mais promissores da
Alemanha. Mas talvez a marca mais óbvia de seu prodígio intelectual
tenha sido o fato de ele ensinar as verdades essenciais da fé cristã às
crianças, de uma forma que elas conseguiam entender.
Essa ênfase no ensino das crianças, que
facilmente poderia ter sido ofuscada por outras exigências, fazia todo o
sentido para Martinho Lutero. Para a igreja nascente, que logo ganhou
seu nome, e para todo o movimento protestante não apenas sobreviver, mas
também florescer, o ensinamento das crianças se tornou prioridade
absoluta e urgente. Lutero sabia disso, não somente por causa dos
exemplos históricos, mas também porque observava a situação que se lhe
apresentava.
Assim, durante todos os meses de outono e
inverno de 1528 e 1529, ele viajou pelas novas congregações de toda a
região. Ainda era um fora da lei, e essa turnê não estava isenta de
riscos. No entanto, Lutero viajava para ver, por si mesmo, as condições
em que as igrejas se encontravam. Os resultados dessa inspeção
deixaram-no frustrado e decepcionado. Testemunhou condições
“deploráveis” e “infelizes”, observando: “As pessoas comuns,
especialmente aquelas que vivem no campo, não têm conhecimento dos
ensinos cristãos e infelizmente, muitos pastores são incompetentes e se
mostram inadequados ao ofício de ensinar”. “Eles passaram a dominar a
fina arte”, entoava Lutero, “do abuso da liberdade”.
Toda essa situação perturbou
profundamente Lutero. Ele, então, passou a direcionar seu foco e suas
preocupações sobre dois grupos: o clero e as crianças. Ao retornar a
Wittenberg, pediu imediatamente a Melâncton e a outros de seu círculo de
amigos e colegas que produzissem material que lhe possibilitasse lidar
com essas deficiências e treinar os infantes. Assim, eles produziram
extenso material, mas apenas uma parte foi aprovada por Lutero. Alguns
textos, ele considerava nada mais que moralismo – uma cura que, Lutero
temia, seria pior que a doença. Mas percebeu que quase tudo estava aquém
de fazer o que ele considerava essencial: a comunicação clara das
verdades cruciais da Bíblia e da teologia ortodoxa de uma geração a
outra. Em outras palavras, ele desejava imprimir uma tradição que
perdurasse, no melhor sentido do termo.
A palavra inglesa para tradição tem origem no latim traditio,
que significa transferir, passar adiante ou entregar. Para Lutero,
Paulo foi quem melhor encerrou o sentido da palavra ao admoestar seu
“filho na fé”, Timóteo, a transmitir “a homens fiéis e também idôneos
para instruir outros” (2Tm 2.2). Lutero entendia que essa era a única
forma de a igreja permanecer fiel ao evangelho e à teologia ortodoxa.
Era preciso ensinar - explícita, proposital e programaticamente – o
evangelho e a teologia ortodoxa, e fazer isso em relação aos mais
jovens.
Depois de esperar em vão, por algum
tempo, que alguém produzisse material com esse propósito, Lutero
decidiu, ele mesmo, fazê-lo, em 1529. O resultado foi o livro Catecismo menor. Por
seu próprio testemunho, conforme vimos, Lutero declarou que não se
importava que toda a sua obra fosse queimada e esquecida, contanto que O cativeiro da vontade e Catecismo menor
sobrevivessem. Felizmente, seu desejo se realizou sem essa condição.
Sua obra sobreviveu, tem vicejado e ainda conta com vasto público até
hoje, quase quinhentos anos depois de ter sido escrita.
No mesmo ano, Lutero também tratou os problemas do clero inculto com a publicação intitulada Catecismo alemão. Essa obra, que passou a ser chamada de Catecismo maior, segue a mesma estrutura de sua correspondente, só que é muito mais extensa.
Catecismo menor não foi a única
contribuição de Lutero à literatura infantil. Conforme já mencionamos,
ele também publicou uma tradução em alemão das Fábulas de Esopo. Além disso, foi autor de um alfabeto simples e de um livro voltado ao público infantil. Porém, Catecismo menor permanece como seu verdadeiro legado, valendo-lhe outra adição à já extensa lista de credenciais: a de educador infantil.
Uma obra-prima teológica: para crianças
Catecismo menor é uma obra-prima, por
ser, ao mesmo tempo, abrangente e conciso. Atual em sua apresentação,
estilo e conteúdo, essa obra figura entre os clássicos da literatura
devocional e teológica. Consiste em uma breve exposição dos elementos
essenciais para entender a Deus, sua Palavra e sua obra no mundo,
contendo breves ensinamentos sobre os Dez Mandamentos, o Credo
Apostólico, a Oração do Senhor e os sacramentos. Lutero expandiu o
catecismo para edições posteriores, a fim de incluir instruções sobre a
oração e aquilo que ele chama de “a mesa dos deveres”. Essas inserções
bastante concisas apresentam diversos ensinamentos da Bíblia sobre
pastores, autoridades seculares, maridos, esposas, pais, filhos,
trabalhadores e servos, mestres e viúvas, e concluem com uma palavra a
todos os cristãos em geral.
O catecismo de Lutero foi o primeiro dos
muitos catecismos produzidos durante a Reforma, incluindo o Catecismo
de Heidelberg, o Breve e o Completo catecismo de Westminster. A exemplo
desses, o catecismo de Lutero segue um modelo de perguntas e respostas. A
palavra catecismo quer dizer, literalmente, soar e diz respeito ao
ensinamento pelo falar. O método de instrução da catequese enfatiza o
envolvimento do mestre, do pai ou da mãe com a criança. Também encoraja a
memorização, pois as perguntas e respostas são frequentemente
repetidas. Essa repetição e essa memorização representam um meio voltado
a um fim, pois as palavras do catecismo devem impactar tanto o
pensamento como a vida daquele que conhece as palavras.
O leitor tem permissão para divulgar e distribuir esse texto, desde que não altere seu formato, conteúdo e / ou tradução e que informe os créditos tanto de autoria, como de tradução e copyright. Em caso de dúvidas, faça contato com a Editora Fiel.
http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/1199/Lutero_o_catecismo_e_a_proxima_geracao

Nenhum comentário:
Postar um comentário