Gene Edward Veith 14 de Setembro de 2017 - História da Igreja
Os cristãos atuais frequentemente
falam sobre transformar a sociedade. Um exemplo radical de como um
ensino teológico teve um impacto social revolucionário é a doutrina da
Reforma sobre a vocação. Na Idade Média, a sociedade era altamente
estruturada, hierárquica e estática. Isso mudaria, começando no ano de
1500, como uma consequência não intencionada da doutrina de Lutero sobre
a vocação.
A doutrina da vocação
Para Lutero, vocação — a palavra latina
para “chamado” — significa muito mais do que um emprego ou profissão.
Vocação é a doutrina de Lutero sobre a vida cristã. Mais do que isso, a
vocação é a maneira como Deus trabalha através dos seres humanos para
governar a sua criação e conceder os seus dons.
Deus nos dá nosso pão diário por meio de
fazendeiros, moleiros e padeiros. Ele cria e cuida de uma nova vida por
meio de pais e mães. Ele nos protege por meio das autoridades legais.
Ele proclama a sua Palavra e administra os seus sacramentos por meio de
pastores. A vocação, disse Lutero, é uma “máscara de Deus”, uma maneira
pela qual ele se esconde nas relações e tarefas comuns da vida humana.
Um texto-chave para a vocação é 1
Coríntios 7.17: “Ande cada um segundo o Senhor lhe tem distribuído, cada
um conforme Deus o tem chamado”. O contexto imediato dessa passagem tem
relação com o casamento. Nossas famílias, nossa cidadania em uma
determinada comunidade ou sociedade, nossas congregações e, sim, nossos
locais de trabalho são todos facetas da vida para as quais Deus nos
designou e nos chamou.
O propósito de todos os nossos chamados é
amar e servir os próximos que cada vocação introduz em nossas vidas (no
casamento, nosso cônjuge; na paternidade, nossos filhos; no local de
trabalho, nossos clientes; e assim por diante).
Somos salvos somente pela graça, pela fé
na obra de Jesus Cristo. Mas, depois, somos enviados de volta aos
nossos chamados para que vivamos essa fé. Deus não precisa das nossas
boas obras, disse Lutero, pensando nos esforços exaustivos para merecer a
salvação para além do dom gratuito de Cristo, mas o nosso próximo
precisa das nossas boas obras. Nossa fé dá fruto em amor (Gálatas 5.6; 1
Timóteo 1.5), e isso acontece em nossas famílias, trabalho, comunidades
e congregações. Nesses chamados, também carregamos nossas cruzes,
pecamos e encontramos perdão, e crescemos em fé e santidade.
Os estamentos
A sociedade medieval era dividida em
três estamentos: o clero (“aqueles que oram”); a nobreza (“aqueles que
lutam”, ou, na prática, “aqueles que governam”); e os plebeus (“aqueles
que trabalham”).
Pensava-se que o clero tinha uma
“vocação”, um chamado distinto de Deus para buscar “a vida espiritual”
para além do mundo. Dedicar-se completamente à oração e aos exercícios
espirituais era considerado de muito maior valor do que aquilo que
poderia ser encontrado nos estamentos seculares. Entrar em uma ordem
religiosa exigia votos de celibato, pobreza e obediência. Para Lutero,
essa busca por mérito não somente era uma rejeição do evangelho, mas
tais votos repudiavam os próprios reinos da vida — família, trabalho,
governo — que Deus estabeleceu. Esses reinos, ele insistiu, também eram
vocações cristãs.
Lutero redefiniu os estamentos como
instituições designadas por Deus para a vida terrena. Essas instituições
são a igreja, o Estado e o lar (a família e seu trabalho econômico).
Essas eram paralelas aos estamentos medievais do clero, nobreza e
plebeus. Mas enquanto na Idade Média essas eram três categorias sociais
separadas, para Lutero, essas são esferas de vida nas quais todo cristão
habita e nas quais todo cristão tem vocações.
As distinções sociais rígidas entre três
estamentos — aqueles que oravam, aqueles que governavam e aqueles que
trabalhavam — desmoronaram. A vida de oração não é apenas para uma
classe sacerdotal, mas para todos os crentes. O Estado não é apenas a
preocupação de uma elite governante, mas de todos os seus cidadãos. O
lar não é apenas para os plebeus. Todos, incluindo o clero, podem ser
chamados para o casamento e a paternidade. Todos, inclusive a nobreza,
são chamados ao trabalho produtivo. Todos oram. Todos (eventualmente)
governam. Todos trabalham.
O impacto social da Reforma
Outra nomenclatura para a doutrina da
vocação é o sacerdócio de todos os crentes. Deus chama alguns cristãos
para serem pastores, mas ele chama outros cristãos para exercerem o seu
sacerdócio real ao ararem campos, forjarem aço e iniciarem negócios. Mas
todos os sacerdotes — incluindo os camponeses e moças serviçais —
precisam ter acesso à Palavra de Deus. Assim, durante a Reforma, as
escolas abriram e a alfabetização floresceu.
Os plebeus instruídos subiram a escada
social e poderiam governar, eventualmente. Os trabalhadores que amavam e
serviam os seus clientes por meio dos seus trabalhos encontraram
sucesso econômico. Enquanto Lutero se dirigia a uma sociedade estática
pós-medieval, Calvino e posteriormente os puritanos adaptaram a vocação
ao emergente mundo moderno. Eles deram ênfase aos chamados do local de
trabalho e encorajaram os cristãos a aceitarem as novas oportunidades às
quais Deus os estava chamando. Assim, a Reforma proporcionou uma
mobilidade social sem precedentes.
Estranhamente, a doutrina da vocação tem sido esquecida hoje. O que uma redescoberta da vocação faria à sociedade atual?
Revisão: André Aloísio Oliveira da Silva
Original: How Vocation Transformed Society
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