Tim Chester 10 de Agosto de 2017 - História da Igreja
O texto abaixo foi extraído do livro Por que a Reforma ainda é importante?, de Michael Reeves e Tim Chester, lançamento da Editora Fiel.
Uns 120 anos depois da
Reforma, cerca de 120 acadêmicos se reuniram em Westminster para
redigir os documentos necessários para uma igreja reformada na
Inglaterra. O resultado foi o Breve Catecismo de Westminster, uma
lindíssima flor premiada do pensamento reformado:
Pergunta: Qual a finalidade principal do
homem? Resposta: A finalidade principal do homem é glorificar a Deus, e
gozá-lo para sempre.
A glória de Deus e o
prazer nele: essas verdades gêmeas inseparáveis foram luzes que guiaram a
Reforma. Os reformadores mantinham, por meio de todas as doutrinas
pelas quais lutaram e que sustentaram, que Deus era glorificado e que as
pessoas recebiam conforto e alegria.
Na justificação
somente pela graça, somente pela fé em Cristo, Deus era glorificado como
totalmente misericordioso e bom, supremamente santo e compassivo – e,
portanto, as pessoas podiam encontrar nele seu conforto e deleite. Por
meio da união em Cristo, os crentes podiam encontrar uma posição firme
diante de Deus, com alegria indizível, conhecendo-o como seu “Aba”,
confiantes em seu poder para salvar e guardar até o final. Sem uma
hierarquia sacerdotal separada do mundo, os crentes podiam chamar uns
aos outros de “irmãos” e “irmãs”, vivendo cada parcela da vida para o
bondoso Pai, por quem foram conduzidos à sua alegria.
Neste livro,
acreditamos que os reformadores estavam certos nisso e, portanto, que a
Reforma ainda é importante, pois essas verdades ainda vivem sob a feliz
luz da glória de Deus.
Temor e presunção
Uma boa prova disso
pode ser vista na forma como as teologias católica romana e reformada
diferem em relação à nossa segurança da salvação. O crente pode saber
que está salvo?
Do lado da Reforma, o
puritano Richard Sibbes defendeu essa segurança, pois, sem ela,
simplesmente não podemos ter a vida cristã conforme Deus quer que a
tenhamos. Deus, disse ele, deseja que sejamos gratos, alegres,
regozijando-nos sempre, firmes na fé. Mas não teremos nenhuma dessas
características se não estivermos certos de que Deus e Cristo são nossos
para nosso bem.
Haverá muitos deveres e
disposições que Deus requer, nas quais não poderemos estar sem a
segurança da salvação em boas bases. O que é isso? Deus nos ordena dar
graças em todas as coisas. Como posso saber isso a não ser que eu saiba
que Deus é meu e que Cristo é meu? [...]
Deus nos prescreve
regozijarmo-nos. “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo:
alegrai-vos”, Filipenses 4.4. Como um homem pode alegrar-se por seu nome
estar escrito no céu, e não saber que seu nome está ali escrito? [...]
Ai de mim! Como poderei prestar um culto alegre a Deus se duvido de que
ele é meu Deus e Pai? [...] Deus requer uma disposição de nossa parte,
para que sejamos plenos de encorajamento e fortes no Senhor; que sejamos
corajosos por sua causa ao suportar seus inimigos e os nossos. Como
pode haver coragem para resistirmos às nossas corrupções e às tentações
de Satanás? Como pode haver coragem no sofrimento, na perseguição e nas
cruzes do mundo, se não houver algum interesse particular que tenhamos
em Cristo e em Deus?
Contudo, a própria
confiança sustentada por Sibbes como um privilégio cristão foi condenada
pela teologia católica romana como pecado da presunção. Foi
precisamente uma das acusações feitas contra Joana d’Arc em seu
julgamento em 1431. Ali, os juízes proclamaram:
Esta mulher peca ao
dizer que tem certeza de ser recebida no Paraíso como se já fosse
participante da... glória, visto que nesta jornada terrena nenhum
peregrino sabe se será digno da glória ou do castigo, o que somente o
soberano juiz pode dizer.
Tal juízo fazia
completo sentido dentro da lógica do sistema. Se somente entraremos no
céu ao nos tornarmos (pela graça capacitadora de Deus) pessoalmente
dignos disso, é claro que ninguém poderá ter certeza disso. Por essa
linha de raciocínio, só posso ter tanta confiança no céu se tiver
confiança de eu mesmo não haver pecado.
Assim, embora esse
pensamento fizesse sentido no catolicismo romano, gerava medo, e não
alegria. A necessidade de possuir méritos pessoais diante de Deus
deixava as pessoas aterrorizadas diante da perspectiva do juízo. Você
ainda consegue sentir isso quando vir um afresco medieval do Juízo
Final. Consegue ouvi-lo nas palavras do Dies Irae que seriam entoadas em
toda missa católica pelos mortos:
Dia de ira, dia que
dissolverá o mundo em brasas de fogo [...]. O que eu, miserável, poderei
dizer? A que benfeitor poderei implorar? Quando nem os justos estão
seguros! Rei de tremenda majestade [...]. Não me percas naquele dia
[...] Minhas orações não são dignas, mas Tu, Bom (Deus), trata
bondosamente para que eu não arda em fogo perene.
E era exatamente por
isso que o jovem Lutero tremia de medo diante da ideia da morte, e
porque dizia que odiava a Deus (em vez de se alegrar nele). Ele não
conseguia ser grato, animado, alegre, forte na fé, pois só cria em Deus
como juiz que estava contra ele. Era uma visão de Deus reforçada por uma
escultura que passava toda vez que ele entrava na igreja da cidade em
Wittenberg.
Em baixo-relevo de
pedra, acima da entrada do cemitério que circulava a igreja, Lutero via,
esculpido na mandorla (uma auréola em forma de amêndoa), Cristo
assentado sobre o arco-íris como juiz do mundo, tão irado que as veias
ressaltavam, ameaçadoras e inchadas, em sua testa.
Com a sua descoberta
de que os pecadores são declarados livremente justos em Cristo, tudo
isso mudou. Sua confiança para aquele dia não estava mais firmada sobre
si mesmo: repousava em Cristo e em sua justiça suficiente. Assim, o
horripilante dia de ira tornou-se, para ele, o que chamaria de “o mais
feliz Último Dia”, dia de Jesus, seu amigo. A consolação que trouxe a
todos que aderiram à teologia reformada foi encerrada de modo perfeito
nas palavras surpreendentes do Catecismo de Heidelberg:
Pergunta: Qual é meu único consolo na
vida e na morte? Resposta: Em toda tristeza e perseguição, ergo minha
cabeça e aguardo como juiz do céu a mesma pessoa que antes se submeteu
ao juízo de Deus por amor a mim, e retirou de mim toda a maldição.
Conforto em Cristo para o crente que luta: essa era a teologia da Reforma.
O leitor tem permissão para divulgar e distribuir esse texto, desde que não altere seu formato, conteúdo e / ou tradução e que informe os créditos tanto de autoria, como de tradução e copyright. Em caso de dúvidas, faça contato com a Editora Fiel.
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