Nicholas Needham
31 de Julho de 2017 - História da Igreja
Tradução: Camila Rebeca Teixeira
Revisão: André Aloísio Oliveira da Silva
Original: A Century of Change
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Algumas pessoas consideram a Reforma
Protestante como uma restauração milagrosa do Cristianismo apostólico
que Deus fez ocorrer na história diretamente do céu. Esse ponto de vista
já dominou particularmente a mentalidade protestante americana.
Contudo, essa visão foi desafiada de modo eficaz em meados do século
dezenove por dois gigantes do pensamento histórico-teológico, John
Williamson Nevin e Philip Schaff, do seminário Mercersburg, na
Pensilvânia. Desde então, não houve retorno algum para a visão mais
antiga. Embora seja verdade que Deus agiu poderosamente no século
dezesseis, ele não o fez sem a história ou causas humanas (A propósito, a
obra em oito volumes “A história da igreja cristã”, de Schaff, ainda é
uma obra-prima digna da nossa afeição e atenção).
A influência do renascimento
Em muitos aspectos, a Reforma foi o lado
espiritual do renascimento. Os pensadores renascentistas no século
quinze reagiram contra grandes influências da cultura medieval,
solicitando um retorno à cultura mais antiga e, criam, mais saudável
encontrada nas clássicas Grécia e Roma. Seu moto bem conhecido era ad fontes –
“às fontes”. Para alguns, isso incluía a rejeição de quase toda a
teologia e espiritualidade medievais e o retorno às fontes originais do
Cristianismo, ou seja, à Bíblia e aos pais da igreja primitiva. Os pais
eram vistos como melhores intérpretes do evangelho do que os teólogos
escolásticos medievais.
Esse retorno à Bíblia e aos pais foi
mais poderosamente visto na vida e obra de Erasmo. Ele é bem conhecido
por sua devoção acadêmica ao Novo Testamento grego, pelo qual ele
avaliou e encontrou falha na Vulgata Latina, a Bíblia oficial da igreja
medieval ocidental. (Os apóstolos escreveram o Novo Testamento em
grego). A redescoberta renascentista do grego, juntamente com o ad fontes
dirigido para as fontes do Cristianismo, resultou na edição impressa de
Erasmo do Novo Testamento grego, em 1516. Essa foi uma ponte através da
qual muitos estudantes foram guiados do renascimento para a Reforma.
Vemos esse fato nas duas primeiras das noventa e cinco teses de Martinho
Lutero:
Quando nosso
Senhor e Mestre Jesus Cristo disse: “Arrependei-vos”, ele quis dizer que
toda a vida dos crentes deveria ser uma vida de arrependimento. A
palavra não pode ser entendida como referindo-se ao sacramento da
penitência — ou seja, confissão e satisfação — como administrado pelos
sacerdotes.
Aqui, Lutero apela à palavra grega para “arrependimento”, a qual, devido à tradução da Vulgata latina poenitentiam agite, “fazer penitência”, anteriormente era entendida como referindo-se ao sacramento da penitência.
A devoção de Erasmo ao Novo Testamento
grego é bem conhecida. É talvez menos conhecido que ele era quase tão
dedicado, tanto nos caminhos eruditos quanto nos espirituais, aos pais
da igreja primitiva. Ele editou e reimprimiu muitos escritos dos pais,
convidando os leitores a encontrarem neles um Cristianismo mais puro do
que o que estava disponível nas fontes medievais. O próprio modelo de
Erasmo foi o grande Jerônimo: o erudito celibatário que consagrou os
seus dons intelectuais para promover a causa da verdadeira fé.
O conhecimento maior e mais exato dos
pais da igreja primitiva promovido por Erasmo levou muitos a
questionarem o Cristianismo daquela época. O Cristianismo do século
dezesseis era a fé que se expressara nos grandes credos da igreja,
incluindo o Credo dos Apóstolos, o Credo Niceno e a Definição de
Calcedônia?
Nessa defesa renascentista dos pais como
os melhores intérpretes do evangelho, um pai em particular pareceu
muito eminente: Agostinho. Em parte, isso foi simplesmente porque
Agostinho se elevava sobre todos os outros pais na igreja ocidental
devido à sua genialidade teológica, influência formativa e autoria
prolífica. Porém, muitos encontraram alimento para as suas almas nos
escritos devocionais e doutrinários de Agostinho. Martinho Lutero e
Ulrico Zuínglio se tornaram discípulos de Agostinho de todo o coração,
aderindo notavelmente à sua compreensão da soberania da graça divina.
Uma geração depois, João Calvino disse que ficaria feliz em ter a sua fé
expressa inteiramente de acordo com os ensinamentos de Agostinho. Aqui,
então, há outra maneira muito específica em que a renascença fluiu para
a Reforma. Ao criar um novo espaço para Agostinho, a renascença
alimentou o “movimento de renovação” agostiniano que estava próximo do
coração da Reforma.
Erasmo também alimentou o fogo da
reforma. Seu desagrado com os desvios do catolicismo romano medieval,
articulado frequentemente em sátiras devastadoras, ajudou a criar na
mente das pessoas uma prontidão para remédios drásticos. Seu “Elogio da
loucura” é geralmente considerado como o exemplo supremo de escritos de
Erasmo nesse gênero. Para mim, muito mais cômico é o seu “Júlio excluído
do céu”, no qual a alma do Papa Júlio II (1503-1513) chega às portas do
céu, apenas para descobrir que São Pedro não o reconhece e nega-lhe a
entrada, pelo que Júlio ameaça excomungar o apóstolo.
De modo mais positivo, Erasmo
estabeleceu um programa de reforma para a sociedade, que envolvia a
centralidade da educação, o conhecimento do grego, o estudo da Bíblia e
uma espiritualidade que se concentrava na fé do coração, e não em um
mero ritual exterior. Muitas vezes, descobrimos que os reformadores
protestantes em toda a Europa estavam mergulhados nesses ideais
erasmianos. Eles acrescentaram uma dimensão teológica que estava ausente
no programa de Erasmo (como uma doutrina agostiniana da graça), mas os
dois aspectos — erasmianismo e agostinianismo — provaram ser
poderosamente compatíveis. Em alguns casos, podemos até mesmo detectar a
influência direta dos ideais e escritos positivos de Erasmo ao
estabelecer alguém no caminho reformista, especialmente Zuínglio, que
sempre alegou que devia a sua conversão a um poema religioso de Erasmo:
Em 1514 ou 1515,
eu li um poema sobre o Senhor Jesus, escrito pelo profundamente erudito
Erasmo de Roterdã, no qual com diversas palavras muito belas Jesus se
queixa que as pessoas não buscam todas as bênçãos nele, de modo que seja
para eles uma fonte de toda bênção, um Salvador, um consolo, um tesouro
da alma. Então, eu pensei: “Bem, se isso é verdade, por que então
devemos buscar ajuda em qualquer ser criado?”
A imprensa
Tão importante para a Reforma quanto o
renascimento foi a nova e revolucionária maneira de disseminar
informação pela prensa de tipo móvel. Talvez uma das razões básicas
pelas quais os movimentos anteriores de reforma evangélica não captaram a
mente pública (como os valdenses, lolardos e hussitas) foi que eles
entraram em cena antes que a imprensa fosse inventada.
Numa Europa dominada pelo sistema
católico romano, a difusão intelectual de novas ideias “não oficiais”
era muito mais difícil antes da introdução da prensa de tipo móvel.
A invenção da prensa de tipo móvel foi a
revolução da informação do final da Idade Média. Johannes Gutenberg de
Mainz, Alemanha, foi o grande pioneiro na década de 1450. Em 1500, mais
de duzentas prensas estavam produzindo livros em toda a Europa. Estavam
distantes os dias em que os escribas (geralmente monges) precisavam
copiar obras literárias à mão. Pela primeira vez, um editor poderia
fazer milhares de cópias de um livro de modo fácil e rápido, e
colocá-las em grande circulação. Isso significava que as ideias poderiam
se disseminar muito mais velozmente do que antes. Significava também
que a capacidade de ler se tornava mais valorizada.
Como resultado, as ideias reformadoras
do renascimento puderam se espalhar pela Europa com relativa facilidade,
e em seu rastro, as ideias ainda mais radicalmente reformadoras de
Lutero, Zuínglio e outros. Podemos dizer que a impressa permitiu que a
Reforma “se tornasse viral” de uma maneira que simplesmente não seria
possível em uma época anterior. A nova tecnologia da informação se
tornou um dom de Deus para o seu povo.
Podemos discernir a sintonia entre a
revolução gráfica e a propagação da Reforma em um único fato: foram as
cidades e universidades que primeiramente abraçaram a Reforma. Na
Inglaterra, por exemplo, Londres tornou-se rapidamente o berço nacional
do protestantismo. Lá estavam as grandes imprensas. Lá também havia um
porto próspero onde os navios mercantes podiam trazer literatura
protestante da Europa Continental.
Percebemos um fenômeno semelhante se
considerarmos a Suíça do século dezesseis. A Confederação Suíça era
composta por treze estados-membros, chamados de cantões. Quatro desses
eram cantões urbanos: Zurique, Basileia, Berna e Schaffhausen. Os outros
nove eram cantões agrícolas compostos por fazendas e vilarejos,
dominados por cinco cantões florestais centrais. É um mero acidente da
história que a Reforma foi vitoriosa em todos os quatro cantões urbanos,
enquanto os cantões florestais permaneceram como fortalezas do
catolicismo romano? As cidades, com seus centros de ensino superior e
suas indústrias gráficas, eram os lugares ideais para o pensamento da
Reforma ser disseminado.
De forma semelhante, na Alemanha, a
maioria das cidades imperiais livres (cidades auto-governadas sem maior
fidelidade senão ao santo imperador romano) se tornou protestante. Essa
não foi uma mudança política superficial, como o imperador Carlos V
descobriu a seu custo quando tentou reimpor o catolicismo nas cidades
pela força armada no fim dos anos 1540. O povo das cidades alemãs
permaneceu desafiadoramente protestante. A espada poderia conquistar
seus territórios, mas não as suas almas. Carlos finalmente teve que
admitir a derrota e se retirar.
Reformadores menos conhecidos
Devemos também colocar Lutero e Zuínglio
no seu contexto como figuras notáveis, mas não isoladas da Reforma
Protestante. Lutero seria apenas metade do homem que foi sem Filipe
Melanchthon. Foi Melanchthon, e não Lutero, quem proveu os conhecimentos
linguísticos da Reforma alemã. Seu conhecimento do grego era um
fenômeno, e pode muito bem ter sido Melanchthon quem primeiro viu e
insistiu que, no Novo Testamento, a palavra grega para “justificar”
significa “declarar justo”, em um sentido judicial, em vez de “tornar
justo”, em um sentido de santificação. Essa tornou-se a pedra angular da
doutrina da justificação pela fé. Foi certamente Melanchthon quem
escreveu a Confissão de Augsburgo, que se tornou o padrão internacional
luterano de doutrina. Lutero era bem consciente da sua dívida com
Melanchton como seu cooperador mais íntimo:
Eu sou rude,
turbulento e tempestuoso, nascido para lutar contra exércitos de
demônios e bestas. Meu trabalho é arrancar tocos e pedras, cortar cardos
e espinhos, limpar florestas selvagens. Depois, vem o Mestre Filipe,
gentil e suavemente, semeando e regando com alegria, de acordo com os
dons que Deus tão amplamente lhe concedeu.
Outros cooperadores de Lutero incluíam
Johannes Bugenhagen, que desempenhou um papel fundamental na reforma da
igreja na Dinamarca; Justus Jonas, que deixou sua marca como um escritor
de hinos; Nicolaus von Amsdorf, um teólogo escolástico profissional que
abraçou a Reforma; e vários outros bem conhecidos em seu próprio tempo,
embora eclipsados agora na sombra de Lutero. Grande como ele era,
Martinho Lutero não estava sozinho.
Nem Zuínglio. Ele foi habilmente
assistido por homens como Leo Jud, Oswald Myconius e Johannes
Oecolampadius. Após a morte precoce de Zuínglio em 1531, ele foi
sucedido pelo brilhante Heinrich Bullinger, que se tornou o “grande
velho” da Reforma, morrendo em 1575.
Outras partes da Europa tiveram os seus
próprios grandes reformadores. Martin Bucer em Estrasburgo (agora na
França, mas na época na Alemanha) tentou combinar o que havia de melhor
na Reforma de Lutero com o que era melhor em Zuínglio. O resultado
provou ser altamente atraente para um certo jovem francês chamado João
Calvino que, como reformador de segunda geração, foi um discípulo de
Bucer. Hoje, podemos discutir quem é um calvinista genuíno, mas o
próprio Calvino não era nada, senão um verdadeiro buceriano.
Na Dinamarca, temos Hans Tausen, o
“Lutero dinamarquês”, cuja pregação difundiu o evangelho como um
incêndio de 1524 em diante. Na Suécia, os irmãos Olaf e Lars Petersson
tiveram um ministério evangelístico igualmente impactante. Na
Inglaterra, William Tyndale imprimiu a sua tradução inglesa do Novo
Testamento em 1525; nem a religião inglesa nem a língua inglesa voltaram
a ser iguais.
E assim poderíamos continuar. Lutero e
Zuínglio podem ter liderado o caminho, mas eles não estavam sozinhos.
Diante da face da Europa católica romana, inspirada pelos ideais de
Erasmo e pela teologia de Agostinho, toda uma geração se separou das
corrupções de uma igreja que havia se desviado. Não seria ruim investir
algum tempo e energia em descobrir esses reformadores menos conhecidos.
Reformas múltiplas
Os historiadores modernos também
enfatizam com razão que a Reforma Protestante foi apenas uma das
reformas experimentadas pelas pessoas do século dezesseis. O contexto
maior nos obriga a considerar também a Reforma Radical e a
Contra-Reforma católica romana. Os reformadores radicais eram uma
multidão muito diversa; atualmente eles são comumente divididos em
anabatistas, racionalistas e espiritualistas, enquanto alguns
historiadores acrescentam os milenaristas apocalípticos. Muitos
começaram como seguidores de Lutero e Zuínglio, mas depois se separaram e
seguiram o seu próprio curso.
Em meio às suas diversidades, os
reformadores radicais concordavam quanto à rejeição da visão protestante
da Escritura e da justificação somente pela fé. O mais duradouro dos
grupos anabatistas evangélicos, os menonitas, tinha um entendimento
católico romano sobre o cânon das Escrituras (aceitando os apócrifos).
Todos os reformadores radicais repudiaram o batismo infantil, mas não
tiveram acordo sobre o que colocar em seu lugar (batismo de crentes?
Batismo do Espírito?). Qualquer ligação entre a igreja e o Estado, por
mais tênue que fosse, eles também repudiaram, sendo talvez um ponto que a
maioria dos protestantes modernos reforçam.
A Contra-Reforma foi a reforma interna
empreendida pela igreja romana, em parte em resposta à Reforma
Protestante. Algumas das correntes da reforma dentro de Roma foram (de
um ponto de vista protestante) muito positivas, notadamente o movimento
evangélico católico, que abraçou a justificação pela fé. No entanto, o
que finalmente emergiu foi uma igreja romana solidificada em uma postura
militante anti-protestantismo. Teologicamente, isso ocorreu através do
Concílio de Trento, onde, por um período de vinte anos, a doutrina
romana foi codificada com uma nova precisão e clareza anti-protestante.
Em um nível mais popular, essa hostilidade militante à Reforma
Protestante foi defendida com um vigor sem limites pela nova ordem
monástica conhecida como a Companhia de Jesus, ou jesuítas.
No momento em que a poeira baixou, a
Europa se viu dividida ao meio por linhas religiosas, com
(aproximadamente) um norte protestante enfrentando um sul católico
romano. Radicais, espalhados nos dois lados da divisão, foram
perseguidos onde quer que vivessem. Cento e cinquenta anos de “guerra
fria” religiosa se estendiam, às vezes culminando em devastadores
conflitos militares que arrasaram o solo da Europa e o encharcaram de
sangue. Pelo menos na Grã-Bretanha, a causa do protestantismo tornou-se
aliada à causa do governo constitucional, com efeitos de longo alcance
sobre o futuro da América.
Assim, um estudo adequado da Reforma
mostra-nos que, longe de ser um inexplicável raio vindo do céu, foi em
todos os pontos imersa na história de sua época. A Reforma teve raízes e
antecedentes; teve canais de influência identificáveis; e tornou-se
profundamente entrelaçada com a política e a cultura de seu próprio
tempo singular (agora quinhentos anos distante de nós). Se me permitem,
em conclusão, ouso citar algo que eu disse uma vez:
De muitas
formas, os reformadores protestantes foram profundamente pessoas de seus
próprios tempos, como somos do nosso. Não devemos esperar a perfeição
deles, não mais do que uma geração futura descobrirá a perfeição em nós.
Certamente descobriremos, contudo, ao imergirmos na era da Reforma, que
(como Hollywood costuma reivindicar em seu status) “toda a vida está
aqui”. Também podemos descobrir que essa vida — tão revigorante,
tempestuosa e ousada — tem muito a nos oferecer hoje, em nossa própria
comparativa exaustão e superficialidade.
Tradução: Camila Rebeca Teixeira
Revisão: André Aloísio Oliveira da Silva
Original: A Century of Change
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