Entre o tempo em que plantei igrejas
no Brasil e meu trabalho agora em Edimburgo, em um dos conjuntos
habitacionais mais carentes da Escócia, recebi inúmeros grupos
missionários temporários. E, ao mesmo tempo que recebia com alegria a
ajuda deles, percebi ao longo dos anos que vários desses grupos que
amavam a Jesus vindos do Reino Unido e dos Estados Unidos chegavam com
seus pincéis e martelos, mas sem qualquer entendimento a respeito da
mensagem do evangelho que achavam que viriam proclamar.
O evangelho trata de boas-novas. Elas de
fato são as melhores notícias. E é essencial que entendamos
corretamente a mensagem e a mantenhamos no lugar certo. Entender a
mensagem errado seria o mesmo que tomar um remédio fora da sua validade:
ele é incapaz de curar. Por outro lado, colocar outras coisas no lugar
prioritário do evangelho seria o mesmo que possuir uma linda caixa de
joias que não tem nenhuma joia dentro: você possui algo lindo e vazio.
Precisamos ter a disposição de investir
tempo para que a mensagem seja transmitida correta e fielmente. Eis aqui
cinco motivos para isso:
1. A eternidade é o que mais importa
O evangelho abrange tudo a respeito da
vida, tanto esta vida presente quanto a vida futura. Muitos dos jovens
que desejam servir em períodos curtos em comunidades carentes da Escócia
estão empolgados pelos pobres e apaixonados pela ideia de ser
missionários e de “romper barreiras”. Mas, infelizmente, eles
inadvertidamente colocam a ênfase no lugar errado: reconciliação racial,
justiça social, ou na renovação da cultura. A mensagem do evangelho não
se resume apenas ao amor de Cristo ou o ao desejo de Deus de tirar você
das dificuldades nas quais você se encontra.
A maior necessidade nos conjuntos
habitacionais não é a mudança social ou econômica. O maior problema
deles é o fato das pessoas estarem alienadas de um Deus santo porque o
fedor dos pecados delas ofende a Deus. Assim, essas pessoas precisam de
um Senhor e Salvador real que morreu e ressuscitou por elas para que
pudesse remover todo o seu pecado e substituir seu coração endurecido e
idólatra por um coração de carne. Qualquer outra mensagem é incapaz de
começar a ajudar.
Sendo claro, não somos contra ajudar as
pessoas com seus problemas físicos diários. Há situações em que seria
positivamente ruim para uma igreja não ajudar alguém com necessidades
físicas. Mas é necessário priorizar a mensagem do evangelho; ele vem
primeiro. Pobreza, violência e injustiça são problemas reais num nível
pessoal e social. Mas são sintomas da doença espiritual que carregamos
conosco. Tratar os sintomas é algo bom e nobre, mas sem a cura do
evangelho o paciente certamente morrerá. Quando abordamos o evangelismo
em nossos conjuntos habitacionais necessitados, precisamos fazê-lo com
uma mentalidade que parta de dentro para fora.
2. Não existe outro meio de salvação
Em Atos 4.12, lemos: “E não há salvação
em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado
entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos”. Se isso é
verdade, as pessoas precisam crer no verdadeiro evangelho para ser
salvas e conduzidas a um relacionamento correto diante de Deus. Não
existe salvação em qualquer outra pessoa; não existe um plano B. Estão
completamente errados aqueles que acham que melhorar o visual dos
conjuntos habitacionais, esvaziar as lixeiras e plantar alguns jardins
vai transmitir, de certa maneira, a verdade do evangelho por meio de
alguma forma de osmose espiritual. A fé vem pelo ouvir (Romanos 10.17),
de forma que proclamamos a completa obra substitutiva de Cristo pelos
pecadores ao invés de oferecer um programa de autoajuda.
Boas obras, como cuidar dos pobres, são
sim um sinal poderoso para os incrédulos (1 Pedro 2.12), mas no livro de
Atos a Palavra de Deus que é espalhada e causa o crescimento assombroso
da igreja primitiva (p.ex.: Atos 6.7). O cristão do primeiro século
certamente fazia boas obras cuidando do pobre, auxiliando as viúvas e
ajudando os mais idosos. Mas essas coisas eram subprodutos de uma vida
vivida para a glória do evangelho; elas não consistiam no evangelho em
si mesmo. As pessoas em nossos conjuntos habitacionais serão salvas
apenas se ouvirem a proclamação do evangelho de forma clara e
compreensível. Não existe outro caminho.
3. De outra maneira somos capazes de desistir
Se não apresentarmos o evangelho
corretamente, podemos esquecer qualquer tipo de trabalho sério de
plantação de igreja nos conjuntos habitacionais. Precisamos saber o que
vamos fazer bem como o estado das pessoas a quem serviremos. Não podemos
nos permitir ser surpreendidos e desencorajados pela profundidade da
depravação humana. O morador dos conjuntos habitacionais não a esconde
como o pessoal do subúrbio faz.
Além disso, não podemos nos desesperar
com a existência ou não de uma solução para os problemas que as pessoas
enfrentam. Precisamos do evangelho completo, que nos fala sobre a
terrível verdade a respeito do nosso pecado e da gloriosa esperança que
temos em Cristo. Se alterarmos, diluirmos ou pervertermos o evangelho, o
apóstolo Paulo nos chama de malditos (Gálatas 1.8), e não podemos
esperar o favor de Deus para o trabalho que realizamos.
4. A pessoa real está realmente indo para o inferno
Em Hebreus 9.27 lemos: “E, assim como
aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o
juízo”. Numa linha de raciocínio semelhante, quando questionado sobre
uma torre que caiu e matou dezoito pessoas, Jesus chamou as pessoas ao
arrependimento ou a morrer em seus pecados (Lucas 13.5). Essa pode
parecer não ter sido uma resposta muito pastoral para uma pergunta a
respeito de pessoas que morreram de forma trágica, mas Jesus se
interessava demais pela alma de seus ouvintes para ignorar a
oportunidade.
Biblicamente falando, existe algo pior
do que a pobreza e a baixa autoestima: o inferno. Ele é real, eterno e
consciente. Todo ser humano se encontra debaixo do pecado e é filho da
ira (Romanos 3.9; Efésios 2.3). O fato de vir de histórias diferentes
não mitiga essa realidade. Numa era em que muito do pensamento cristão a
respeito do pobre diz respeito a amá-lo e a aumentar sua autoestima, o
inferno pode parecer uma realidade muito distante para várias pessoas.
Inúmeras vezes elas chegam aos conjuntos habitacionais com a ideia de
que todas precisam ser amadas ou, pior ainda, que precisam aprender a
amar a si mesmas! Se esse é o seu diagnóstico do problema, então você
jamais lhes contará a realidade do juízo e da punição eterna.
Temo que grande parte da letargia
evangelística das igrejas se deve ao fato de que não tratamos a doutrina
do inferno com seriedade a ponto de nos preocuparmos com os outros.
Nosso maior ato de amor pelas pessoas nos conjuntos
habitacionais não é ajudá-las com suas contas de luz ou com a busca de
um emprego, ou a se limparem, ou darmos a elas um quarto para dormir ou
ajudá-las com seu vício em drogas. O que de mais amoroso
podemos fazer pelos seres humanos ao nosso redor é proclamar-lhes a
realidade e a seriedade do inferno, independentemente do que possam
pensar a nosso respeito depois disso. Eis um ato de amor sacrificial.
Apenas parte da verdade sobre Deus não será suficiente.
5. Para a glória de Deus
O evangelho é sobre a glória de Deus
(observe que, em 2 Coríntios 4.4, Paulo o chama de “evangelho da glória
de Cristo”). Deus escolheu salvar pecadores de forma a se mostrar como
justo e justificador (Romanos 3.26). Escolheu redimir seu povo de forma a
provocar o louvor eterno em nosso coração (Apocalipse 5.12). Escolheu
realizar tudo isso de forma a engrandecer sua sabedoria enquanto anula e
frustra a chamada sabedoria dos poderes do mundo em rebelião contra ele
(1 Coríntios 1.21). Será que achamos que sabemos mais das coisas do que
Deus? Será que temos um evangelho melhor e mais glorioso do que aquele
que Deus planejou desde a eternidade e executou no tempo?
Um evangelho centrado no homem (Deus o
amou tanto, então, por favor, o escolha) glorifica pecadores. Sem uma
mensagem de juízo, Deus parece injusto e permissivo, não glorioso. Sem
um chamado ao arrependimento e à santidade, Jesus é proclamado como um
salvador impotente para derrotar o pecado na vida de seu povo (compare
com 1 João 3.8). Deus quer salvar, mas Deus não permitirá que isso
aconteça à parte do evangelho glorioso de seu Filho. Ele não divide a
sua glória, de forma que nenhum evangelho pela metade ou diluído será
suficiente.
Eles me disseram que eu estava indo para o inferno
Há catorze anos um pequeno grupo de
cristãos apareceu do lado de fora de um centro comunitário das ruas da
Inglaterra e me disse que eu estava indo para o inferno.
Eles me disseram o que eu precisava
fazer para evitar isso. Ouvir as boas-novas, receber as boas-novas, me
arrepender, crer e ser batizado.
Eu não queria ouvir aquilo. Mas quatro
anos depois de muita dor, ira e arrependimento genuíno tardio fui salvo
pela graça misericordiosa de Deus. Escrevo estas palavras hoje como
pastor pois um dia aqueles cristãos dedicaram suas vidas para que eu
pudesse ser “endireitado”. Isso é o que Deus pede de nós. Essa é a nossa
tarefa primária se quisermos alcançar e ajudar os necessitados.
Direitos: Trecho do livro Igreja em Lugares Difíceis, futura publicação da Editora Fiel
O leitor tem permissão para divulgar e distribuir esse texto, desde que não altere seu formato, conteúdo e / ou tradução e que informe os créditos tanto de autoria, como de tradução e copyright. Em caso de dúvidas, faça contato com a Editora Fiel.
É pastor sênior da Niddrie Community Church, Edimburgo, Escócia. É fundador do 20schemes, um ministério voltadohttp://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/935/Por_que_amenizar_o_evangelho_prejudica_os_pobres

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