Tim Challies 23 de Maio de 2016 - Vida Cristã
Dos muitos legados da Reforma
Protestante, poucos tiveram impacto maior e mais abrangente do que a
redescoberta da compreensão bíblica sobre a vocação. Antes da Reforma,
as únicas pessoas com vocação ou chamando eram as que estavam envolvidas
com o trabalho da igreja em tempo integral: monges, freiras ou padres.
Como Gene Veith escreve no livro Deus em Ação (publicado Brasil pela editora Cultura Cristã:
As ocupações comuns da vida, como ser um
agricultor ou ajudante de cozinha, fabricar ferramentas ou vestuário,
ser um soldado ou mesmo um rei, eram reconhecidas como necessárias,
porém mundanas. Essas pessoas podiam ser salvas, mas estavam atoladas no
mundo. Servir a Deus plenamente, viver uma vida verdadeiramente
espiritual, exigia um compromisso de tempo integral.
Ao olharem para além de tradições sem
inspiração, em seu regresso à autoridade e suficiência da Palavra de
Deus, os Reformadores descobriram que o ministério de tempo integral era
uma vocação, mas de maneira alguma era a única vocação. Eles viram que
cada um de nós possui uma vocação, e que cada vocação tem dignidade e
valor aos olhos do Senhor. Todos nós podemos honrar a Deus no trabalho
que fazemos.
No entanto, essa velha tradição nunca
está tão longe, e se não voltarmos constantemente à Palavra de Deus e
permitirmos que ela nos corrija, logo caímos nela mais uma vez. É
encorajador encontramos hoje muitos pastores e autores cristãos
explorando o que significa ser um cristão comum, que faz o trabalho
comum como parte de sua vida comum. É encorajador ver tais líderes
afirmarem o valor de todas as vocações. As perguntas que cada cristão
enfrenta em um momento ou outro são estas: os encanadores, cozinheiros,
médicos e empresários cristãos são menos cristãos porque não estão no
ministério de “tempo integral”? E as mães e donas de casa cristãs? Elas
podem honrar a Deus, mesmo por meio de vidas muito comuns? Podemos
honrar a Deus através de vidas comuns sem promover tacitamente um tipo
perigoso de acomodamento espiritual? O que significa não nos
conformarmos com este século e nos transformarmos pela renovação da
nossa mente (Romanos 12.2) nesta área de vocação?
Como esperado, a Palavra de Deus aborda
estas questões. Em 1Tessalonicenses, Paulo responde a perguntas que
recebera das pessoas da igreja em Tessalônica. E, aparentemente, uma das
perguntas que fizeram ao Apóstolo foi algo do tipo: Como podemos viver
uma vida que agrade a Deus (cf. 4.1-12)? Eles haviam sido informados do
mandato de Deus na criação: que Deus nos criou e nos colocou nesta terra
para exercermos domínio sobre ela como representantes dele. Eles haviam
sido informados da Grande Comissão de Cristo: que seu povo deve levar o
evangelho aos confins da terra, e à medida que mais e mais pessoas saem
da escuridão para a luz, devem treiná-las nas coisas do Senhor.
Essa igreja conhecia esses grandes
comandos, mas se encontrava esperando orientações específicas de Paulo.
Como seria viver e obedecer esses mandados da criação e da Grande
Comissão, para pessoas comuns, em lugares e tempos comuns? Será que
requer um ministério de tempo integral? Será preciso se mudar para o
outro lado do globo? O que é a vida que agrada a Deus?
A resposta de Paulo é fascinante e
perfeitamente consistente com a doutrina da vocação. Sua resposta aborda
três questões: a moral sexual, a igreja local e o trabalho.
Vida sob controle
A primeira coisa que Paulo diz à igreja é
que, se eles querem viver vidas que agradam a Deus, precisam evitar a
imoralidade sexual e, ao invés, disso buscar a pureza sexual: “Pois esta
é a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais da
prostituição; que cada um de vós saiba possuir o próprio corpo em
santificação e honra” (1Tessalonicenses 4.3-4). Os tessalonicenses
precisavam rejeitar as falsificações mundanas do sexo e dos
relacionamentos e, em lugar disso, buscar a piedade em tais áreas.
Vida em comunidade
A segunda coisa que Paulo diz a essa
igreja é que, se eles se propõem a viver vidas que agradam a Deus,
precisam se comprometer a amar as pessoas em suas igrejas locais: “Vós
mesmos estais por Deus instruídos que deveis amar-vos uns aos outros
[...]. Contudo, vos exortamos, irmãos, a progredirdes cada vez mais” (v.
9-10). Conquanto cristãos devam estender o amor a todos os homens
indiscriminadamente, eles devem concentrar o seu amor especialmente
sobre os irmãos e irmãs em sua igreja local.
Vida no trabalho
O terceiro ponto de Paulo é
especialmente importante para o trabalho cristão comum. Ele orienta
aqueles cristãos a “diligenciardes por viver tranquilamente, cuidar do
que é vosso e trabalhar com as próprias mãos, como vos ordenamos; de
modo que vos porteis com dignidade para com os de fora e de nada venhais
a precisar” (v. 11-12). Se a Bíblia fosse dizer aos crentes que o
ministério de tempo integral é uma vocação maior ou melhor, se ela fosse
nos dizer que os melhores cristãos são os que vendem tudo o que possuem
e se mudam para o outro lado do planeta, seria de esperar encontrarmos
isso exatamente aqui; contudo, não encontramos. Encontramos algo
completamente diferente.
Em 1Tessalonicenses 4, Paulo dá
instruções muito simples que transcendem o tempo, a geografia e a
cultura. Ele diz aos Tessalonicenses que vivam tranquilamente, cuidem do
que é seu e trabalhem com suas próprias mãos. Quando ele lhes diz para
viverem tranquilamente, sua intenção é que eles se contentem com serem
desconhecidos e passarem despercebidos. Há um paradoxo aqui: eles devem
trabalhar duro para se aquietarem, ou devem ambicionar ser livres da
ambição mundana. Eles devem se contentar com a sua sorte e saber que é
com esse contentamento que eles podem melhor honrar a Deus. Quando Paulo
lhes diz para se cuidarem do que é deles, sua intenção é que eles se
concentrem em seu próprio trabalho e evitem ser intrometidos que se
ocupam com tudo, exceto com o que mais importa. E quando ele lhes diz
para trabalhar com suas próprias mãos, sua intenção é que eles continuem
com o trabalho em que estão envolvidos, mesmo (ou especialmente) se
esse trabalho envolve serviço manual. Ele podia convocá-los a tudo isto
porque o trabalho deles possuía valor intrínseco simplesmente por ser
sua vocação: sua vocação dada por Deus.
Até onde sabemos, Paulo não estava
escrevendo para um grupo de novos cristãos aqui. Ele não estava lhes
dando as instruções básicas para os conduzir por seus primeiros anos,
até que finalmente se graduassem para coisas melhores e mais difíceis.
Esta igreja parece ser forte e espiritualmente madura, e mesmo assim a
palavra de Paulo a eles é muito simples: vocês honram e glorificam a
Deus através de suas vidas perfeitamente comuns.
Vida em missão
No caso da instrução não ser suficiente,
e antes de passar para outros assuntos, Paulo explica a importância e o
efeito de fazer essas coisas bastante simples. Ele quer que eles façam
isso “de modo que vos porteis com dignidade para com os de fora e de
nada venhais a precisar” (4.12). Aqui Paulo mostra que os cristãos vivem
os desejos de Deus para eles através de seus trabalhos comuns e suas
vidas comuns. Esta vida tranquila, esta vida de cuidar do que é próprio e
trabalhar duro, permite-lhes cumprir a Grande Comissão. Afinal, se eles
fazem essas coisas, se buscam a pureza sexual, se amam e trabalham
duro, Paulo lhes assegura que estarão caminhando corretamente diante dos
de fora. E não apenas isso, mas estarão também exibindo amor por seus
irmãos e irmãs cristãos.
Vamos ser claros: isso não é um chamado
para a acomodação ou um chamado para o mínimo possível. É um chamado
para ser fiel exatamente onde estamos e saber que Deus está satisfeito
com o seu povo quando ele vivencia sua vida comum. Haverá alguns que são
chamados para o ministério da igreja em tempo integral como sua
vocação. Haverá alguns que deixarão de lado o trabalho manual, a fim de
serem treinados e designados como pastores de tempo integral,
dependentes do apoio de outros.
Haverá alguns que irão parar de
trabalhar com as mãos para ir ao campo missionário. Isso é bom, e honra a
Deus. Mas não é uma vocação maior ou melhor, ou um caminho mais seguro
para agradar a Deus. Nós agradamos a Deus, nós deleitamos a Deus, quando
vivemos como pessoas comuns em vidas comuns, que usam nossas
circunstâncias comuns para proclamar e vivenciar um evangelho
extraordinário.
http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/913/O_trabalho_cristao_comum
Nenhum comentário:
Postar um comentário