Ouvir sua comunidade
É perceptível em Niddrie que existem
muitas organizações habitacionais e várias outras agências sociais, com
equipes compostas fundamentalmente por pessoas de fora da comunidade,
que impõe suas ideias e seus ideais sobre a comunidade sem muito
diálogo. É comum aceitar-se que estes “profissionais” sabem o que nós
precisamos. Da mesma maneira, muitas plantações de igrejas, igrejas
estabelecidas e ministérios evangélicos podem ser acusados das mesmas
atitudes. Por exemplo, uma equipe pode mudar-se para uma periferia com
um plano bem elaborado e mesmo assim sua estratégia ter pouquíssimo
impacto no local, devido à falta de pesquisa e de compreensão da
cultura. Para igrejas estabelecidas e organizações para-eclesiásticas,
pode parecer que muito “ministério” está sendo realizado, para todos os
efeitos, enquanto há pouquíssimo fruto de longo prazo. Aqueles que
pesquisam, obtém sua informação de páginas da internet ou de agências
governamentais. Ou ainda, de forma inacreditável, obtém suai informação
sobre uma localidade de “ouvir dizer” e opiniões baseadas na “reputação”
ou suposições. Um grande perigo de pesquisar os fatos e informações
sobre uma área somente em páginas governamentais é que nossa compreensão
é distorcida sobre o que uma comunidade precisa a fim de mudar.
Um bom plantador de igreja, por outro
lado, deve não só pesquisar e observar. Ele deve ouvir. Existem
perguntas que precisam ser feitas. Por exemplo, quem são os principais
líderes na comunidade? Quais grupos comunitários existem na localidade?
Quais contêm pessoas do local e quais contêm pessoas de fora? O que as
pessoas do lugar acreditam serem as maiores necessidades da comunidade?
Como eu afirmei, é fácil pensar “periferia” e então chegar com um
conjunto de suposições que por muitas vezes podem ter pouca conexão com a
vida aqui dentro. Com o que as pessoas sonham? Qual são as ambições
delas (aqueles que ainda as têm)? O que eles pensam que a comunidade
precisa para poder melhorar? Por onde elas começariam? Eis aqui uma das
mais importantes. Robert Lupton destaca:
“Isto é comumente referido como o
conceito das necessidades sentidas. Ouvir é o mais importante, pois as
pessoas da comunidade são os tesouros ocultos do futuro. É importante
não focar nas fraquezas ou necessidades da comunidade.”
Nem a Igreja da Comunidade Niddrie, nem a
20schemes, existem para suprir as necessidades sentidas na periferia.
Se assim fosse, então não estaríamos plantando igrejas, uma vez que esta
não estaria nem entre as “top mil” necessidades sentidas por qualquer
pessoa! Contudo, esta última sentença é interessante. Por que ele
enfatiza isso? Bem, ele defende uma abordagem de desenvolvimento
comunitário que nos ajuda a tentar focar nos desejos dos moradores da
comunidade, que habilidades eles têm e então pensar nestes indivíduos
como “bens da comunidade” sobre os quais podemos focar nossas energias.
Obviamente, seu contexto se refere a desenvolvimento comunitário, mas eu
penso que podemos usar este princípio na plantação de igrejas.
Como um plantador, a pergunta se torna
sobre como podemos fortalecer alguns dos talentos dos cristãos locais em
harmonia com a Grande Comissão. Novamente, é fácil olhar para uma
periferia como Niddrie e apontar 10 coisas que precisam ser consertadas.
Mas o que nós pensamos precisar ser consertado olhando de fora pode nem
ser um interesse de alguém do local. O que eles pensam? Certamente, a
igreja pode ajudar em aliviar algumas das grandes necessidades da
comunidade, mas prestamos um desserviço se assumirmos toda a
responsabilidade (e esta nem é nossa principal responsabilidade). Na
verdade, podemos ser acusados de enfraquecer a comunidade se tentarmos
resolver todos os problemas por eles.
Nas últimas décadas, em meu ministério
pastoral, muitas vezes tive que lidar com pessoas desapontadas com a
“igreja institucional”. Pessoas querendo sair e se mudar para outro
lugar, algum lugar “melhor”. Minha resposta para estes indivíduos tem
sido sempre a mesma.
“Você não pode mudar alguma coisa se
afastando dela. Você só pode causar mudanças efetivas e duradouras
estando dentro. Agora, o que você pensa que deveria acontecer e como
você vai me ajudar para fazer acontecer?”
Eu sei que não é o argumento mais
poderoso, mas se vamos permanecer e ouvir uma comunidade, nós precisamos
estar preparados para ouvir conversas derrotistas sobre “nada mudar
nunca”. Nós precisamos ajudar cristãos da localidade a ver que eles, sob
o Senhorio de Cristo, são a reposta para os problemas de sua
comunidade, não meramente agências externas ou mesmo a igreja.
É claro que a regeneração espiritual é o
alvo final, mas nós precisamos desenvolver nossas habilidades de ouvir
para fortalecer nosso evangelismo, juntamente com nosso método de
discipulado, para que capacitemos as pessoas não só para assumir
responsabilidade por si mesmas e por suas comunidades, mas capacitá-las a
se envolver. Nós devemos constantemente avaliar o que estamos fazendo e
questionar se estamos aproximando ou afastando as pessoas de depender
de qualquer coisa que não seja Jesus Cristo.
Se vamos causar mudanças duradouras na
periferia, então tudo o que fazemos precisa ser sustentável. Por esta
razão, enquanto ouvimos, devemos desenvolver ministérios que vão
fortalecer as pessoas em suas habilidades e encorajá-las a permanecerem
na localidade para benefício de todos. Isto é algo extremamente difícil
numa sociedade individualista. Por isso, deve começar dentro do corpo de
Cristo. Se estivermos nos mudando para a comunidade, usando nossos
dons, servindo uns aos outros para benefício do todo e ao mesmo tempo
ouvindo, então este é um ótimo modelo de vida para as pessoas da
localidade.
Ouvir as pessoas. Não é tão fácil como parece, não é?
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