A igreja local e o pobre
Mark Dever publicou o seguinte no blog The Gospel Coalition:
Desde a Queda, a trajetória da história
humana não redimida – a cidade do homem – está sempre na Bíblia ligada a
julgamento (o Dilúvio, Babel, Canaã, Egito, Jerusalém, Babilônia, Roma e
então Apocalipse 19). (Não tão universal quanto a gravidade, mas
aparentemente tão inevitável quanto em sua tendência geral.)
Muitas igrejas, da mesma forma,
acreditam que o mundo está indo para o inferno a passos largos e, por
esta razão, é nosso papel pregar Cristo, salvar alguns e deixar os
outros a sua própria sorte. Outros, acreditam que nós teremos um papel a
desempenhar quando Deus consumar a renovação de todas as coisas no fim
dos tempos. O resultado para o primeiro grupo é cair em uma abordagem
separatista de evangelismo. Para o último, é cair em uma acomodação
cultural.
Agora, eu consigo ver como certas
posições escatológicas podem nos levar por um destes dois caminhos
quanto a relação entre a igreja e sua cultura imediata. Na verdade, eu
vejo o legado deles em periferias de norte a sul do país. Aparece de
duas formas principais.
1. Aqueles que historicamente lutaram
por pureza doutrinária e teológica às custas do engajamento cultural
(temendo diluir o evangelho) se encontram à margem da periferia, com
congregações envelhecidas e morrendo. Eles têm um evangelho sem ninguém
para quem pregar. Isto se enquadra em sua cosmovisão de “eles contra o
mundo” e está deixando gerações sem nenhuma noção sobre as boas notícias
de Jesus. Do outro lado, aqueles que escolherem se adaptar e se engajar
culturalmente às custas de verdades bíblicas tendem a estar atentos a
necessidades sociais, mas têm as mesmas congregações envelhecidas e
morrendo. Eles são vistos como um pouco mais do que uma agência de
trabalho social e as pessoas não se chegam quando evangelismo não é
praticado. Ambos os lados estão sofrendo com os verdadeiros perdedores
sendo exatamente as pessoas que deveriam estar sendo alcançadas com a
boa notícia de Jesus Cristo. Enquanto o mundo cristão tem desenhado
fronteiras teológicas, almas reais têm perecido por falta de testemunho.
Nas palavras de alguém velho e já morto: “Uma praga em ambas ascasas”.
2. Devido a esta situação, muito do
trabalho de evangelismo desenvolvido está sendo conduzido nas periferias
por uma combinação de agências governamentais e organizações
para-eclesiásticas. Grupos têm visitado escolas e conduzido aulas de
Educação Religiosa, dirigido clubes e tentado alcançar jovens para
Cristo, mas em sua maioria desassociados de uma congregação local e sem
nenhuma meta real de longo prazo e objetivos para combater a “crise
congregacional” que nós enfrentamos. Por um lado, como podemos culpá-los
quando a igreja local está (a) morta ou (b) inoperante quanto a sua
tarefa (seja por falta de coração ou porque é simplesmente incapaz)?
A única maneira de reverter essa
tendência é plantar igrejas novas e/ou revitalizar igrejas que já
existem. Revitalização espiritual da comunidade e desenvolvimento não
acontecerão de forma radical se a igreja local não for central em nossos
planos. No Brasil, quando fundamos nosso projeto com crianças de rua,
fizemos com uma plantação de igreja como fundamento. Por que? Por uma
série de razões:
1. Uma congregação local serve de impulso sólido e consistente para esforços evangelísticos.
2. Oferece um lugar para prestação de
contas em termos espirituais para aqueles trabalhando no campo. Muitos
que servem em organizações para-eclesiástica que encontrei
(especialmente jovens) têm pouco ou nenhuma prestação de contas e estão
exaustos ou em perigo de ficarem exaustos por tentarem lidar com as
dificuldades de estar na linha de frente de um ministério como o nosso.
3. Oferece um ambiente no qual novos
convertidos e outros cristãos podem crescer juntos em discipulado e em
comunidade. Então, evita o problema de pessoas caindo de paraquedas na
comunidade, tentando alcançar alguém e então deixando as pessoas à
deriva até que outros de fora da comunidade venham novamente.
A igreja local tem a responsabilidade de
evangelizar, discipular, cuidar e preparar as pessoas para louvar e
servir o Deus Vivo em suas respectivas comunidades. Obviamente, a tarefa
de amar nossos vizinhos não deveria ser deixada para aqueles de fora da
comunidade, certo? Estamos amando nossas comunidades? Estamos servindo
nossas comunidades? Se amamos uma comunidade e buscamos conhecê-la,
então ideias para evangelismo, missões e desenvolvimento fluirão
naturalmente. Eu acredito que muitas igrejas têm dificuldades de causar
impacto na periferia porque elas não amam suas comunidades o suficiente
para realmente conhecê-las em um nível profundo e íntimo. Nós não
podemos amar o Senhor e o evangelho se nós não amamos as pessoas. O
evangelho precisa de um meio condutor para que possa realizar sua obra
poderosa e transformadora. Muitas igrejas estão enterrando seu tesouro
no campo, esperando até que o Senhor volte.
Nós recentemente recebemos notícias de
nossa plantação de uma igreja no Brasil – a Igreja Boas Novas – que é
uma comunidade que funciona na região mais pobre no estado mais pobre do
Brasil. São bem pobres! A igreja é pequena (umas 50 pessoas) e mesmo
assim recentemente eles se uniram para construir 6 casas na comunidade
para famílias desabrigadas! Isto é desenvolvimento comunitário guiado
pelo evangelho em ação. Apesar do receio de alguns, a Palavra não é
diluída, mas, ao contrário, é oferecido um exemplo vivo da realidade da
mensagem que a congregação está tentando trazer para a comunidade.
Eu aprecio as nuanças deste debate,
realmente aprecio. Cristo acima de tudo, evangelho antes de tudo, mas
quando o discipulado não pode ser distinguido de ajudar pessoas a
lidarem com alguns de seus problemas pessoais, então temos o dever de
cuidar. Não vamos proteger o evangelho até matá-lo. Isto seria um crime.
Eu tenho certeza que revisitaremos este tema em algum momento.
Revisão: Yago Martins
O leitor tem permissão para divulgar e distribuir esse texto, desde que não altere seu formato, conteúdo e / ou tradução e que informe os créditos tanto de autoria, como de tradução e copyright. Em caso de dúvidas, faça contato com a Editora Fiel.
http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/921/Avancando_a_Causa_do_Evangelho_na_Periferia_7_8
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