(Leia a Parte 1)
Nota do editor: O que
segue é uma conversa por e-mail entre Sam Allberry, Rosaria Butterfield e
Christopher Yuan, com perguntas sobre atração homossexual, solteirice e
a igreja.
* * *
3) Como a legalização do casamento homossexual tornou mais difícil pastorear solteiros em geral?
Allberry: A legalização
reforçou ainda mais a ideia de que uma vida sem satisfação sexual não
vale a pena ser vivida. Muito da retórica por trás da defesa do
casamento homossexual tinha a ver com o quão injusto é que algumas
pessoas não possam chamar de “casamento” as suas formas escolhidas de
intimidade e como isso é um modo intolerável de eles viverem. Portanto, a
legalização do casamento homossexual aumentou ainda mais a distância
entre a forma como nossa cultura entende o sexo e o casamento — em
particular, a sua relação com o desenvolvimento humano e a cosmovisão
bíblica. Agora, os solteiros são levados a se sentirem ainda mais
estranhos em nossa cultura, pelo menos se eles permanecem celibatários.
Infelizmente, isso ressalta a ideia predominante de que a única
intimidade real que importa é, finalmente, a sexual.
Yuan: A legalização do
casamento homossexual tornou mais difícil o pastoreio de solteiros, na
medida em que normaliza, romantiza e até mesmo celebra algo que Deus não
trata assim, a saber, as relações entre pessoas do mesmo sexo. Tendo
dito isso, creio em um Deus que é completa e absolutamente soberano
sobre todas as coisas. O que Deus diz em sua Palavra é verdadeiro,
especificamente em Gênesis 50.20: “Vós, na verdade, intentastes o mal
contra mim; porém Deus o tornou em bem”. Mesmo no pecado, rebelião e
queda da humanidade, Deus ainda é soberano. Então, embora o mundo
normalize, romantize e mesmo celebre algo que Deus não o faz, as pessoas
estão mais dispostas a falar sobre as suas próprias lutas pessoais
contra o pecado sexual. E isso abre uma porta.
De que maneira? No
sentido de que os crentes não apenas falem sobre a sexualidade no
púlpito de forma pastoral e compassiva (ou seja, não apenas tratando
disso meramente como uma questão ética, porém, de modo mais importante,
como uma oportunidade pastoral) e uns com os outros cheios de graça e de
verdade (João 1.14), mas também falem sobre suas próprias lutas, seja
contra a pornografia, seja contra a cobiça por alguém que não seja o seu
cônjuge, seja uma tendência à idolatria relacional (o que eu chamo de
codependência) e/ou experiências de atrações homossexuais. Esta é uma
oportunidade para a igreja falar sobre esse assunto e poder começar a
orar uns pelos outros, se responsabilizando mutuamente e, portanto,
buscando uma vida santa em comunidade. Creio que o melhor lugar para
tratar de questões sobre sexualidade não é no mundo, mas no Corpo de
Cristo. A igreja deve ser o lugar mais seguro do mundo. Mas, estamos
seguros?
A legalização do
casamento homossexual elevou o casamento como um dos “maiores ideais do
amor”. Isso é exatamente o que você encontrará no último parágrafo da
opinião majoritária escrita pelo juiz da Suprema Corte, Anthony Kennedy.
Rosaria e eu escrevemos uma resposta chamada “Algo maior do que o
casamento”, na qual argumentamos que o casamento não é o mais elevado
ideal de amor. Deus o é. Precisamos ajudar as pessoas a não idolatrar a
boa dádiva do casamento, mas adorar somente a Deus. A principal fonte de
nosso contentamento e alegria não deve estar em outra pessoa, como
nosso cônjuge ou namorado(a). Deve estar somente em Jesus Cristo.
Butterfield: Sim, porque
a legalização do casamento homossexual tornou o conceito de orientação
sexual em um direito civil. A orientação sexual começou como uma
invenção categórica do século XIX que rejeitou a ideia de que as pessoas
são feitas à imagem de Deus e, em vez disso, categorizou as pessoas com
base em seus diferentes objetos de desejo sexual. Isso é importante
porque os cristãos precisam mortificar o pecado individual e, ao mesmo
tempo, permanecer conscientes de como o pecado está enraizado na
cultura.
No século XX, a
orientação sexual se tornou um ídolo da autonomia sexual. Neste século,
ela se tornou um direito civil. O evangelho está em um curso de colisão
com a orientação sexual como uma categoria da personalidade; é
exatamente por isso que a categoria “cristianismo gay”, celibatário ou
não, é antibíblica e inútil. Não há como “buscar ser mais agradável”
neste contexto sem falsificar uma ética sexual bíblica.
Mas o amor de Cristo que
a igreja deve ensinar hoje é o amor verdadeiro — amor expiatório, o
amor sangrento de Jesus, que conhece melhor e ama mais o seu povo.
Devemos proclamar que o arrependimento do pecado é o limiar para Deus;
que o arrependimento do pecado traz glória a Deus; que o arrependimento
do pecado refrigera e restaura o crente.
A cultura do casamento
homossexual torna a orientação sexual uma cláusula de desculpa para o
pecado, um convite para ignorar o sangue de Cristo. Para enfrentar isso,
a igreja deve mostrar que não há vergonha no arrependimento, e que,
antes, uma vida de arrependimento e humilde submissão a Deus é, de fato,
a melhor barreira para a vergonha, pois todos os que se arrependem e
creem recebem vestes de justiça, permanecem no sangue de Cristo e são
chamados filhos e filhas do Rei. Isso é verdade mesmo quando lutamos
contra o pecado. A marca de nós crentes é a união com Cristo enquanto
lutamos contra o pecado, incluindo o pecado que nunca escolhemos, a
princípio.
4) Em seu discipulado,
você encoraja os cristãos que vivem com forte atração homossexual a
buscarem o casamento (definido biblicamente)? Caso sim, o que você diz? O
quanto você incentiva, etc.?
Butterfield: Não. Os
cristãos são chamados a valorizar o casamento bíblico, pois ele reflete
Cristo e a igreja. O casamento bíblico existe pelo desígnio de Deus, mas
Deus não designou todos os cristãos para o casamento. E o casamento
bíblico não deve ser visto como um fim em si mesmo. Manipular as pessoas
para um chamado que Deus não deu é cruel, esmagador e perigoso.
Devemos buscar a
santidade. Tendo dito tudo isso, se estou discipulando uma mulher que
luta contra a AH e deseja se casar biblicamente, então precisamos
começar com disciplinas cristãs que a preparem para ser uma esposa
bíblica. Nenhum cristão deve começar a buscar um cônjuge bíblico olhando
para fora, para alguém por vir. Você deve olhar primeiro para dentro;
deve virar as páginas do seu coração com a Bíblia em mãos. Para muitas
pessoas que têm AH, o amor sexual que Deus celebra no casamento bíblico
cresce a partir de um forte vínculo bíblico com seu cônjuge, por meio de
uma amizade confiável e profunda, pelo reconhecimento de que marido e
mulher são parceiros de oração para a vida, pelo desejo de servir,
agradar e ajudar seu marido, através de uma disposição confiável para
compartilhar, através de uma vulnerabilidade aberta. Se os cristãos
solteiros que lutam contra a AH são incentivados (manipulados, na
realidade) para o casamento bíblico pela igreja, a igreja precisa
considerar o que isso implica. Essa manipulação implica que a igreja vê a
solteirice como uma cidadania evangélica de menor valor. E se a
solteirice é uma cidadania evangélica de menor valor, então estamos
servindo um Rei de menor valor. Deus nos guarde disso.
Yuan: Ótima pergunta.
Quando estava ensinando no Moody Bible Institute, muitas vezes
discipulei jovens estudantes do sexo masculino. Havia alguns que
experimentavam atrações homossexuais e havia alguns que não. Minha
resposta seria essencialmente a mesma: encorajo-os a buscar a santidade.
Em meu primeiro livro, introduzi um conceito chamado de sexualidade
santa, que estou desenvolvendo no meu próximo livro, intitulado Holy
Sexuality and the Gospel: Re-centering the Sexual Identity Conversation
around Biblical, Systematic, and Practical Theology [Sexualidade Santa e
o Evangelho: Recentralizando o Debate sobre a Identidade Sexual em
torno da Teologia Bíblica, Sistemática e Prática.
A sexualidade santa diz
respeito a como os cristãos devem viver o cotidiano à luz de suas
atrações sexuais. Escolhi esse termo para justapor e, em última
instância, auxiliar-nos a afastar a orientação heterossexual/homossexual
como paradigma de identidade pessoal. A Escritura é clara quanto à
existência de apenas duas opções sobre como viver o cotidiano à luz de
nossas atrações sexuais. A primeira opção, se você é casado (definido
biblicamente), é fidelidade total ao seu cônjuge. A segunda opção, se
você é solteiro, é fidelidade total através da castidade ou abstinência
sexual. Portanto, a sexualidade santa é a fidelidade no casamento ou a
castidade na solteirice.
Quando os alunos
perguntam: “Como posso saber se eu sou chamado para ser casado ou
solteiro?”, eu lhes digo que não posso prever o futuro; contudo, posso
ver o presente. E seja qual for a situação em que estejam agora (casados
??ou solteiros), que vivam tudo para a glória de Deus (1Co 7.17-24).
Sei que os pastores muitas vezes lamentam que os jovens em suas
congregações estão se esquivando da responsabilidade e compromisso e não
querem se casar. Acho que essa é uma preocupação. Porém, o problema é
que esses homens são espiritualmente imaturos. Eles não precisam ser
estimulados a buscarem o casamento. Eles precisam ser estimulados a
buscarem a Cristo e se colocarem no caminho da graça de Deus através dos
meios da graça de Deus. O melhor modo de buscar o casamento é crescer
na graça de Deus.
A partir da minha
experiência na igreja e em instituições cristãs de ensino superior, o
problema não é que as pessoas estejam evitando o casamento. O problema é
que elas quase idolatram o casamento (daí o Moody Bridal Institute
[Instituto Nupcial Moody]). Conhecemos todos os clichês: “anel de
primavera”#1, “grau de senhora”#2, etc. Mas, como povo da nova aliança,
sabemos que o casamento não é “melhor” do que a solteirice.
Novamente, desejo
apontar as pessoas para a excelente obra de Barry Danylak, A Biblical
Theology of Singleness [Uma Teologia Bíblica da Solteirice]. O casamento
entre um marido e uma mulher é temporário (Mateus 22.29-30). É apenas
uma sombra/mistério da realidade eterna do casamento escatológico entre
Cristo e a Igreja (Efésios 5.32). E quando a realidade escatológica do
nosso casamento final for cumprida, não haverá mais razão para a sombra
(do casamento entre marido e mulher). Portanto, a solteirice não é um
estado temporário antes do casamento. O casamento (entre um marido e uma
mulher) é um estado temporário antes da eternidade.
Também digo a jovens
homens solteiros que estou discipulando que um chamado para a solteirice
não significa que o chamado seja vitalício ou imutável. O chamado de
Deus pode mudar ao longo do tempo. Ele pode chamar alguém para fazer
algo durante um momento de sua vida e depois Deus pode chamar essa
pessoa para algo diferente. Devemos estar abertos e dispostos. Se Deus —
que é soberano — não forneceu uma auxiliadora, então viva plenamente no
chamado de um homem solteiro, de forma alegre, consistente e
persistente colocando-se no caminho da graça de Deus. Se Deus
providenciou alguém que poderia potencialmente ser uma auxiliadora,
inicie esse relacionamento com cautela e em comunidade — assegurando-se
de buscar a sabedoria de amigos, mentores, pastores e pais que sejam
cristãos firmes.
#1 “Anel de primavera” é uma frase associada com jovens cristãos
solteiros que buscam ansiosamente um cônjuge em universidades cristãs. O
objetivo especialmente das jovens mulheres é ganhar um anel de noivado
ao final da primavera, razão do uso do termo – N.R.
#2 “Grau de senhora” é
um termo usado para descrever a situação de uma jovem que vai à
universidade com a intenção de encontrar um esposo – N.R.
Tradução: Camila Rebeca Teixeira
Revisão: André Aloísio Oliveira da Silva
O leitor tem permissão para divulgar e distribuir esse texto, desde que não altere seu formato, conteúdo e / ou tradução e que informe os créditos tanto de autoria, como de tradução e copyright. Em caso de dúvidas, faça contato com a Editora Fiel.
http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/1255/Uma_conversa_sobre_atracao_homossexual_solteirice_e_a_igreja_Parte_2

Nenhum comentário:
Postar um comentário