Nota do editor: O que segue é uma
conversa por e-mail entre Sam Allberry, Rosaria Butterfield e
Christopher Yuan, com perguntas sobre atração homossexual, solteirice e a
igreja.
* * *
1) Suponha que você tenha dois
indivíduos solteiros, e um deles é solteiro porque ele ou ela
experimenta forte atração homossexual (AH) e presume, portanto, que o
casamento é impossível. Qual é a diferença entre pastorear e discipular
um e pastorear e discipular o outro?
Sam Allberry: Fico feliz em conversar
sobre isso com todos vocês. Achei que seria bom iniciarmos com algumas
respostas iniciais, e podemos construir a partir daí.
Em certo sentido, não há diferença:
nenhum de nós sabe o que Deus nos reserva para o futuro e se ele quer
que sejamos casados ??ou solteiros. Mas provavelmente há uma diferença
quanto à expectativa. As pessoas com AH podem achar que é menos realista
que se casem e, portanto, estarão considerando a solteirice de longo
prazo, enquanto a outra pessoa ainda pode estar presumindo ou esperando
que o casamento ocorra em seu futuro. De qualquer forma, cada um
precisará de confiança no que seu Pai celestial tem para ele(a), e que
tudo o que ocorrerá será uma expressão de sua bondade para com ele(a).
Ambos também precisarão se esforçar para
cultivar amizades. Um erro que às vezes cometemos no ministério
pastoral é assumir que aqueles que provavelmente são solteiros por muito
tempo precisarão se esforçar muito para estabelecer amizades, mas que
aqueles que são casados ??não. Quanto mais tempo estou no ministério
pastoral, mais vejo o dano causado por não investir em amizades ricas,
tanto para casados ??quanto para solteiros.
Christopher Yuan: Sam, obrigado por iniciar com um discernimento tão excelente! Aqui estão alguns dos meus pensamentos.
Sou grato pela ênfase aqui ser correta,
centrada no pastoreio e no discipulado. Muitas vezes, as pessoas que têm
atração homossexual (AH, estou usando esse termo como um adjetivo) que
buscam ajuda se fixam em suas tentações por pessoas do mesmo sexo (como
se essas tentações fossem seu único problema) e acabam com uma tentativa
antropocêntrica de erradicar o pecado interior por meio da metodologia
psicoterapêutica do desenvolvimento. Isso é errado, porque o objetivo de
qualquer luta contra o pecado é nos colocar no caminho da graça de Deus
através da Palavra, oração, comunhão, etc. Em meio a tudo isso, a
mentoria e o discipulado desempenham um papel fundamental enquanto
caminhamos e orientamos as pessoas através dos meios de graça.
Por um lado, devemos ajudar nosso amigo
solteiro que tem atração homossexual a saber que sua luta contra o
pecado pode parecer única, mas ela não é fundamentalmente diferente.
Cada indivíduo que pastoreamos ou discipulamos é um portador da imagem
que experimenta a consequência da queda: pecado original, pecado
interior e pecado atual. O pecado do comportamento homossexual ou os
desejos homossexuais pecaminosos não são os piores dentre os pecados.
Então, para mortificarem a carne diariamente, essas pessoas que têm AH
precisam da mesma graça que todas as demais pessoas. Infelizmente, os
indivíduos que têm AH muitas vezes se sentem e são tratados como se
fossem os piores dos pecadores. Para aliviar isso, eles devem ser
lembrados de que necessitam da mesma graça que todos os outros.
Por outro lado, os pastores muitas vezes
se preocupam com que os indivíduos que têm AH desenvolvam uma atração
em relação ao pastor/mentor. Quanto a essa questão, há algumas coisas a
serem ditas. Primeiro, devemos entender que somente o fato de que um
indivíduo pode experimentar atrações por pessoas do mesmo sexo não
significa que essa pessoa seja atraída por toda pessoa do mesmo sexo.
No seminário, busquei um colega de
classe que eu respeitava para começarmos a orar juntos semanalmente. Eu
sabia que ele estava ciente do meu passado, de que eu tinha vivido como
um homossexual. Na primeira manhã em que nos encontramos, ele me disse:
“Jamais quero ser uma pedra de tropeço para você. Por favor, deixe-me
saber se você estiver começando a sentir atração por mim”. Essa foi uma
das situações mais estranhas da minha vida. Os homens que têm AH
precisam ver como são amizades saudáveis ??e piedosas com pessoas do
mesmo sexo. Eu já amei homens da maneira errada (de modo sexual e
romântico) e eu precisava saber como os homens cristãos deveriam amar
uns aos outros de maneiras que honram a Deus que não fossem sexuais e
nem românticas, mas, ainda assim, íntimas.
Certamente, devemos reconhecer a
possibilidade de atração, mas isso geralmente começa ou acompanha a
codependência. Manter vigilância em relação à codependência deve ser
parte de qualquer relação de discipulado. Em particular, as relações
lésbicas raramente começam sexualmente, mas com ligações relacionais não
saudáveis. Devemos usar o discernimento piedoso enquanto estamos
pastoreando/discipulando, e devemos estar alertas quanto a uma
codependência não saudável, como faríamos com qualquer pessoa. Há uma
linha na qual devemos caminhar entre promover uma intimidade saudável e
evitar a codependência. No entanto, essa linha é ampla o suficiente para
desenvolvermos confortavelmente amizades piedosas. Creio que Rosaria
pode ser uma boa pessoa para comentar sobre a codependência.
Muitas vezes, as pessoas que têm AH
estão em um dos dois extremos. Ou acreditam que é impossível que se
casem, ou acreditam que o casamento com alguém do sexo oposto é a
solução. Em ambos os casos, busco afastá-los de uma fixação em suas
atrações sexuais e em seu status de relacionamento e, em vez disso,
focalizar nos meios de graça.
Contudo, também gostaria de dissipar
algumas ideias falsas. No primeiro caso, Deus é capaz de fazer qualquer
coisa, o que significa que ele pode dar a alguém que tem AH — mesmo a
uma pessoa com atrações fortes — o desejo por uma pessoa do sexo oposto.
Conheço várias pessoas com quem isso ocorreu, mesmo quando as tentações
homossexuais podem não ter desaparecido completamente (semelhante a
outras lutas contra o pecado). Também não creio que as atrações sexuais
precisam ser a base do casamento. O amor ágape deve ser a base
(autossacrifício, amor abnegado e amor santo). Atrações, paixão e desejo
devem estar presentes no casamento, mas isso não precisa ser
necessariamente uma paixão sexual impetuosa. Na verdade, os casamentos
baseados em paixões sexuais podem acabar por não honrar a Deus e
fracassar. Muitas vezes digo às pessoas que posso ter mais facilidade
para encontrar minha possível/potencial esposa porque consigo ver outras
mulheres como filhas do Deus altíssimo e não como um objeto para meu
prazer sexual. Posso perceber a sua maturidade espiritual, o amor pelo
Senhor e a atenção aos meios de graça, em vez de ficar obscurecido em
meu discernimento por paixões fortes.
Quanto ao segundo caso (o indivíduo que
acredita que o casamento é a resposta), digo a ele(a) que o casamento é
uma grande benção, mas não será a solução para seus desejos pecaminosos.
Eu diria a ele ou a ela para manter essa esperança, mas colocá-la em
segundo plano. E por enquanto, uma vez que ele ou ela é solteiro(a), eu
os encorajaria a se concentrarem em buscar a Cristo sem se descuidarem
como pessoas solteiras. Preparar-se para o casamento não é o objetivo de
um cristão solteiro, mas pode ser usado como um motivador saudável para
os fins adequados. E não há melhor maneira de se preparar para o
casamento do que ser fundamentado como mulher ou homem de Deus. Se
queremos amar alguém e ser amados, primeiro devemos amar a Deus. É por
isso que o maior mandamento vem antes do segundo mandamento. A única
maneira de amar bem os outros é amar primeiro a Deus. (Ok, talvez essa
resposta tenha sido um pouco longa!)
Rosaria Butterfield: Primeiro, agradeço
muito a Sam e Christopher por tratarem dessas questões. Irmãos, vocês
lidaram de forma muito rica sobre questões importantes aqui, e eu tenho
pouco a acrescentar. Vou concentrar minhas respostas mais em abordar o
discipulado de mulheres em ambos os exemplos acima.
Primeiramente, a diferença entre esses
dois indivíduos é que a pessoa que tem AH pode sentir uma solidão
opressiva e crônica, enquanto a outra pode sentir uma inveja amarga de
amigos que se casaram. É vital quando se está ao lado de uma cristã em
seu sofrimento — independentemente do fato de sentirmos que a tristeza é
devida ou não — tentar ver as coisas a partir do seu ponto de vista.
Produz pouco bem dizer: “Sua perna quebrada é como a de Roberto!”.
O livro de Jeremiah Burroughs The Rare Jewel of Christian Contentment [A
Joia Rara do Contentamento Cristão]#1 é um ótimo recurso para usar ao
discipular qualquer um desses dois indivíduos. Além disso, gostaria de
saber o que cada pessoa está experimentando na cultura da igreja. Uma
pessoa que experimenta a AH lida de forma diferente com muitas culturas
de igreja voltadas para a formação de casais. Isso pode parecer
ameaçador e também disparar um pensamento perigoso: “Essas pessoas não
me entendem e nunca me entenderão”. Produzimos pouco benefício no
sentido de discipular e pastorear bem as pessoas se a cultura da nossa
igreja é tóxica — e, muitas vezes, esse é o caso.
Em segundo lugar, embora seja verdade
que, para muitas pessoas, a sexualidade e a atração sexual sejam fluídas
e mudem ao longo do tempo, e também que os melhores casamentos sejam
entre pessoas compatíveis espiritual e afetuosamente, dizer isso a
alguém que tem AH soa como se você estivesse lhe repreendendo, como se
estivesse dizendo que ela apenas precisa se encaixar nisso. Tenho
discipulado mulheres que têm respostas complexas e dolorosas até mesmo
ao pensamento das relações sexuais heterossexuais. Para as mulheres, a
AH pode ser motivada por uma forte atração que se torna sexual ao longo
do tempo, ou por uma forte oposição a qualquer expressão sexual que
envolva penetração.
Em terceiro lugar, para a mulher que
está buscando o casamento bíblico. Precisamos estar cientes de que, para
muitas mulheres, o compromisso também requer uma perda por vezes
dolorosa. A maioria das mulheres evangélicas que frequentam a faculdade
começam a desejar mudar o mundo, com sonhos e planos grandiosos e
fantásticos. De um modo geral, esses desejos de mudança do mundo são os
desejos de indivíduos; eles são paralelos a outros desejos — casamento,
família, etc. -, mas eles raramente interagem. Porém, com a perspectiva
do compromisso vem a promessa da liderança — e a perda de um certo tipo
de independência. Não estou dizendo isso para criticar ou condenar esse
fato. A liderança bíblica do marido sobre a esposa é uma bela imagem de
Cristo e da igreja. Mas ao discipular mulheres, faríamos bem em saber
que as mulheres que desejam ser esposas piedosas também devem orar por
um coração manso para se submeterem ao marido. No casamento, marido e
mulher aprendem pela fé e discipulam a liderança e a submissão; essas
coisas não ocorrem naturalmente com nenhum de nós. As mulheres solteiras
precisam saber que, enquanto essa “mudança” nos papéis (de uma
independente agente de mudança do mundo para esposa fiel e, se Deus
assim prover, mãe) é uma bênção ordenada por Deus, também vem com uma
sensação de perda de quem você já foi.
2) Como as igrejas podem fazer um bom
trabalho ao integrar na vida e corpo da igreja pessoas que experimentam
uma forte atração por pessoas do mesmo sexo?
Allberry: É perfeitamente adequado viver
sem sexo — o próprio Jesus viveu assim — mas nenhum de nós é feito para
viver sem intimidade. Tragicamente, vivemos em um momento cultural no
Ocidente onde canalizamos todo o nosso pensamento sobre a intimidade em
uma expressão dela: o relacionamento romântico ou sexual. Agora, esse é
praticamente o único lugar onde as pessoas acreditam que podem encontrar
e expressar intimidade.
Enquanto esse for o caso culturalmente, e
enquanto isso for refletido em nossas igrejas, será muito difícil para
qualquer pessoa sentir que a ética sexual cristã seja plausível. Então,
precisamos nos certificar de que nossa família da igreja realmente seja
uma família. Jesus promete que “ninguém há que tenha deixado casa, ou
irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e
por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de
casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no
mundo por vir, a vida eterna”. Assim, aqueles que têm se unido às nossas
igrejas devem poder dizer que têm experimentado um aumento na
intimidade e na comunhão. Em outras palavras, uma das maneiras mais
prementes de pastorear solteiros, que tenham AH ou não, é pastorear o
restante da igreja sobre como sermos uma família.
E isso precisa ser bidirecional. Acho
que muitas vezes pode ser um erro unir todos os solteiros em um
“ministério de solteiros”. As pessoas casadas muitas vezes têm
dificuldade por falta de amizades profundas fora do casamento e as
crianças precisam da contribuição e do exemplo de outras tias e tios
honorários da igreja. Os solteiros podem ser abençoados enormemente por
se envolverem na vida familiar. Portanto, precisamos encorajar amizades
que ultrapassem divisões geracionais e maritais.
Yuan: Concordo com Sam. Integração é a
chave. Como a maioria das igrejas pode atestar, a “Universidade e Grupo
Vocacional” — o que costumo chamar de gueto de solteiros — nem sempre é o
lugar onde o discipulado vibrante e regular ocorre. Com frequência,
isso se torna algo parecido com um açougue cristão. Tenho aprendido
muito com Barry Danylak que tem escrito sobre uma teologia bíblica da
solteirice. Precisamos perceber que a família nuclear é temporária,
enquanto a igreja — a família de Deus — é eterna. Sob a antiga aliança, a
família de Deus crescia pela procriação, enquanto sob a nova aliança, a
família de Deus cresce por meio da regeneração.
A responsabilidade da integração recai
sobre as pessoas que não são solteiras (ou seja, as casadas).
Normalmente, não é apropriado que um solteiro se integre e se convide
para a casa de uma família. Contudo, é mais do que apropriado — é uma
obrigação — que as famílias e casais convidem irmãos e irmãs solteiros
para sua casa. Os cristãos solteiros são nossas irmãs e irmãos, nossas
filhas e filhos, nossas tias e tios — não vinculados pelo sangue humano,
mas pelo sangue de Cristo que foi derramado.
Butterfield: As igrejas evangélicas têm
perdido a arte de integrar as pessoas na família cristã e viverem em
comunidade como uma família de Deus. A arte perdida da hospitalidade
cristã tem colocado fardos indevidos sobre pessoas solteiras e
expectativas indevidas sobre o que a igreja deveria fazer.
Meu marido Kent, eu e alguns de nossos
filhos são os únicos crentes em nossa família. Se não tivéssemos outros
crentes assumindo os seus papéis em nosso lar, não teríamos irmãos e
irmãs, e nossos filhos não teriam tias e tios e avós. Esse entendimento
de que os crentes em todo o mundo são a família de Deus se estende para
além do lar, é claro, mas isso não minimiza a importância de viver
juntos no lar.
Kent e eu vemos a aliança do casamento
como uma plataforma para esse tipo de vida. Em nossa casa, quase todas
as noites envolvem o jantar com nossos membros da família estendida na
igreja e pessoas do nosso bairro. Demoramos muito tempo em nossa
refeição, trazemos as Bíblias e os Saltérios enquanto os pratos ainda
estão na mesa e as pessoas ainda estão pegando seus alimentos. Isso é
bom. Jesus também comeu e bebeu.
Após as devoções, Kent pega as lanternas
e leva as crianças que moram em outra casa, e o restante de nós lava a
louça. Enquanto as crianças tomam banho, os adultos conversam. Quase
todas as noites são assim em nossa casa, porque nossos filhos são
crescidos e nossa casa é relativamente estável. Também usamos nosso
quarto de hóspedes quase constantemente, especialmente durante os
feriados, quando as pessoas sentem a aproximação da solidão.
Muitas vezes, os cristãos que lutam
contra a AH são levados a se sentir como os marginalizados da igreja.
Mas sabemos que as pessoas que se esforçam no caminho de Deus —
mortificando os desejos pecaminosos, usando de modo profundo os meios da
graça, sendo membros fiéis de uma igreja que crê na Bíblia,
arrependendo-se do pecado e aplicando a fé nas circunstâncias de nossa
perda e dor — são realmente heróis da fé. Quando as pessoas sabem que
elas fazem parte e são amadas, isso muda tudo.
Essa realidade deve ser manifestada a
partir do lar cristão, não a partir do pequeno grupo promovido pela
igreja. Você consegue imaginar que diferença faria se todos os lares
cristãos em todas as nossas igrejas realmente fizessem isso? Claro, há
momentos da vida quando não conseguimos fazê-lo; por exemplo, quando
minha mãe estava morrendo, ou quando havíamos acabado de adotar nossos
adolescentes que viviam em um abrigo. Precisa haver fluidez quanto a
essa questão. Porém, se nenhum lar em nossa igreja está praticando
hospitalidade radical, então isso aponta para um problema, um problema
cultural interno.
(Continua na parte 2)
#1 Em português, uma versão condensada
dessa obra está disponível com o título “Aprendendo a Estar Contente”,
pela Editora PES – N.T.
Revisão: André Aloísio Oliveira da Silva
Original: Singleness, Same-Sex Attraction, and the Church: A Conversation with Sam Allberry, Rosaria Butterfield, and Christopher Yuan.
O leitor tem permissão para divulgar e distribuir esse texto, desde que não altere seu formato, conteúdo e / ou tradução e que informe os créditos tanto de autoria, como de tradução e copyright. Em caso de dúvidas, faça contato com a Editora Fiel.
Sam Allberry é editor do The Gospel Coalition, um dos pastores da Igreja Anglicana St Mary, Maidenhead, Reino Unido. Ele também é autor do livro.
http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/1250/Uma_conversa_sobre_atracao_homossexual_solteirice_e_a_igreja_Parte_1

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