Meu pai me ensinou como morrer
R. C. Sproul 22 de Dezembro de 2017 - Vida CristãO texto abaixo foi extraído do livro Antes de Partir, de Nancy Guthrie, da Editora Fiel
Será que nos atreveríamos a pensar na morte como uma vocação? O autor de Eclesiastes fez esta declaração:
Tudo tem o seu tempo determinado, e há
tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de
morrer. (Ec. 3: 1-2a)
Da mesma forma, o escritor de Hebreus diz:
E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo. (Hb. 9:27)
A Escritura fala da morte em termos de
um “propósito debaixo do céu” e de “ordenamento”. A morte é um
ordenamento divino. É parte do propósito de Deus em nossas vidas. Deus
chama cada pessoa para morrer. Ele é soberano sobre tudo da vida,
incluindo a experiência final da vida.
Estou ciente de que há professores nos
dizendo que Deus não tem nada a ver com a morte. A morte é vista
estritamente como um dispositivo demoníaco do Diabo. Toda dor, doença,
sofrimento e tragédia são atribuídos ao Maligno. Deus é absolvido de
qualquer responsabilidade. Essa visão é formulada para se certificar de
que Deus seja absolvido da culpa por qualquer coisa que dê errado nesse
mundo. “Deus sempre deseja curar”, nos é dito. Se essa cura não
acontece, então a culpa recai sobre Satanás – ou nós mesmos. A morte,
eles dizem, não é o plano de Deus. Ela representa a vitória de Satanás
sobre o reino de Deus. Tais visões podem trazer alívio temporário para o
aflito. Mas elas não são verdadeiras. Elas não têm nada a ver com o
cristianismo bíblico. Em um esforço para absolver Deus de qualquer
culpa, eles fazem isso à custa da soberania de Deus.
Sim, existe um Diabo. Ele é o nosso
arqui-inimigo. Ele fará qualquer coisa ao seu alcance para trazer
miséria para as nossas vidas. Mas Satanás não é soberano. Satanás não
guarda as chaves da morte.
Quando Jesus apareceu em uma visão a João na Ilha de Patmos, ele se identificou com estas palavras:
Não temas; eu sou o primeiro e o último e
aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos
séculos e tenho as chaves da morte e do inferno. (Ap. 1:17-18)
Jesus segura as chaves da morte. Satanás
não pode apanhar essas chaves de suas mãos. O pulso de Cristo é firme.
Ele segura as chaves, porque são propriedade dele. Toda a autoridade no
céu e na terra foi dada a ele. Essa autoridade inclui toda a autoridade
sobre a vida e toda a autoridade sobre a morte. O anjo da morte está à
disposição e chamado dele.
Acima de todo sofrimento e da morte está
o Senhor crucificado e ressurreto. Ele derrotou o último inimigo da
vida. Ele venceu o poder da morte. Ele nos chama para morrer, mas esse
chamado é um chamado à obediência para a transição final da vida. Por
causa de Cristo, a morte não é o final. É uma passagem de um mundo para o
outro.
Eu nunca esquecerei as últimas palavras
que o meu pai disse para mim. Estávamos sentados juntos no sofá da sala.
O seu corpo havia sido arruinado por três derrames. Um lado do seu
rosto estava distorcido pela paralisia. Seu olho e lábio do lado
esquerdo pendiam de maneira incontrolável. Ele falou comigo com uma
pronúncia pesada. Suas palavras eram difíceis de entender, mas o seu
significado estava muito claro. Ele proferiu estas palavras: “Combati o
bom combate, completei a carreira, guardei a fé”.
Essas foram as últimas palavras que ele
me falou. Horas mais tarde, ele sofreu a sua quarta e última hemorragia
cerebral. Encontrei-o caído no chão, um fio de sangue escorrendo do
canto da sua boca. Ele estava em coma. Misericordiosamente, ele morreu
um dia e meio depois, sem recuperar a consciência.
Enquanto as suas últimas palavras para
mim foram heroicas, minhas últimas palavras para ele foram covardes. Eu
protestei suas palavras premonitórias. Eu disse de forma rude, “Não diga
isso, Pai”.
Há várias coisas que eu disse em minha
vida que desejo desesperadamente que não tivesse dito. Nenhuma das
minhas palavras é mais vergonhosa para mim do que essas. Mas as palavras
não podem mais ser trazidas de volta, assim como uma flecha acelerando
após a corda do arco ter vibrado em lançamento pleno.
Minhas palavras foram uma repreensão a
ele. Eu me recusei a lhe permitir a dignidade de um último testemunho
para mim. Ele sabia que estava morrendo. Eu me recusei a aceitar o que
ele já havia aceitado graciosamente.
Eu tinha 17 anos. Não sabia nada sobre a
morte. Não foi um ano muito bom. Eu vi meu pai morrer um pouco de cada
vez durante um período de três anos. Eu nunca o ouvi reclamar. Nunca o
ouvi protestar. Ele sentava na mesma cadeira dia após dia, semana após
semana, ano após ano. Ele lia a bíblia com uma lupa enorme. Eu estava
cego para as ansiedades que devem tê-lo atormentado. Ele não podia
trabalhar. Não havia renda nenhuma. Nenhum seguro por invalidez. Ele
sentava lá, esperando morrer, observando as suas economias da vida
esvaírem-se juntamente com a sua própria vida.
Eu estava zangado com Deus. Meu pai não
estava zangado com ninguém. Ele viveu os seus últimos dias fiel à sua
vocação. Ele combateu o bom combate. Um bom combate é um combate travado
sem hostilidade, sem amargura, sem autopiedade. Eu nunca havia estado
em um combate assim.
Quando meu pai morreu, eu não era um
cristão. A fé era algo além da minha experiência e além da minha
compreensão. Quando ele disse, “Guardei a fé”, não me dei conta do peso
de suas palavras. Eu me fechei para elas. Eu não tinha ideia de que ele
estava citando a última mensagem do apóstolo Paulo para o seu discípulo
amado, Timóteo. O seu testemunho eloquente foi desperdiçado comigo
naquele momento. Mas não agora. Agora eu compreendo. Agora eu quero
perseverar como ele perseverou. Quero completar a carreira e terminar o
percurso como ele fez antes de mim. Não tenho nenhum desejo de sofrer
como ele sofreu. Mas quero guardar a fé como ele guardou.
Se meu pai me ensinou alguma coisa, foi a
como morrer. Meu pai completou a carreira porque Deus o chamou a
completá-la. Ele terminou o percurso porque Deus estava com ele ao
passar por cada obstáculo. Ele guardou a fé porque a fé o guardou.
Adaptado de Surpreendido pelo
Sofrimento, por R. C. Sproul, ©1998, editora Cultura Cristã. Usado do
original em inglês com permissão da Reformation Trust.
O leitor tem permissão para divulgar e distribuir esse texto, desde que não altere seu formato, conteúdo e / ou tradução e que informe os créditos tanto de autoria, como de tradução e copyright. Em caso de dúvidas, faça contato com a Editora Fiel.
Nenhum comentário:
Postar um comentário