O texto abaixo foi extraído do livro Igreja em Lugares Difíceis, Mez McConnell e Mike McKinley, da Editora Fiel.
De certa maneira, o que estamos dizendo
vai contra uma abordagem popular de ensino da Palavra de Deus a pessoas
com pouca educação ou conteúdo bíblico. Essa abordagem busca engajar as
pessoas no fluxo narrativo da Bíblia, usando as histórias nas Escrituras
para engajar a imaginação do ouvinte e modificar a compreensão que da
história na qual ele vive. O raciocínio é que as pessoas são
naturalmente cativadas por histórias e, sendo assim, a melhor forma de
explicar a mensagem da Bíblia é contando histórias curtas que formam a
história completa da criação, da queda, da redenção e da consumação.
Acredita-se que esse método é particularmente útil para pessoas não
acostumadas a sentarem em silêncio e a ouvirem sermões didáticos com
várias proposições.
Quando a abordagem é bem-feita, pode ser
uma ferramenta poderosa para partilhar o evangelho e deixar clara a
necessidade que as pessoas têm de colocar a fé em Cristo. Quando é
malfeita (como normalmente é), edita a mensagem bíblica e acaba
obscurecendo todo o evangelho e o seu poder. Mas algo que o “contar o
evangelho através de histórias” é incapaz de ser (e, sinceramente, seus
proponentes mais responsáveis não buscam que seja) é um substituto para a
mensagem completa da Bíblia. A Palavra de Deus não é nada mais que uma
história, embora não seja meramente uma história.
Deus escolheu revelar-se através de
diferentes formas literárias. A Bíblia contém, sim, várias histórias,
mas também apresenta leis, sermões, cartas, genealogias, poemas,
provérbios, reflexões filosóficas, profecias e literatura apocalíptica.
Se você deseja ministrar a comunidades carentes, precisará decidir se
acha que elas precisam conhecer a Bíblia toda ou apenas as histórias.
Será que as pessoas que vivem nos abrigos da minha comunidade precisam
dos Salmos? Será que os filhos de imigrantes na escola local precisam do
livro de Eclesiastes? Será que os detentos da prisão local precisam
conhecer o conteúdo de 1 Pedro? Sabemos qual seria a resposta do
apóstolo Paulo, pois ele defendeu seu ministério em Éfeso dizendo:
“Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou limpo do sangue de
todos; porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus”
(Atos 20.26,27).
Se você é uma pessoa educada, precisa
ter o cuidado de não presumir que uma pessoa iletrada é tola demais para
compreender a Bíblia. Na minha experiência, a falta de educação
normalmente tem menos a ver com inteligência do que com fatores do meio,
uma falta genuína de oportunidades e escolhas pessoais (ruins). Mas a
Bíblia não foi escrita para a faculdade de Harvard; foi escrita para as
“humildes do mundo, e as desprezadas” (1 Coríntios 1.28). Enquanto
devemos certamente usar de sabedoria sobre como ensinamos a Bíblia
inteira (provavelmente é muito melhor começar com um Evangelho do que
com o livro de Levítico), precisamos do compromisso de ensinar a
mensagem completa das Escrituras (incluindo Levítico). Não podemos
editar ou selecionar a Bíblia ensinando apenas as partes que nós achamos
úteis para as pessoas pobres.
Pregue bem a Bíblia inteira
As pessoas promovem vários modelos de
comunicação da Bíblia. Alguns advogam a ideia de engajar a congregação
num diálogo ou em contar narrativas que comunicam uma ideia. Mas estou
convencido de que a dieta bíblica da igreja deve ser a Palavra de Deus
proclamada pelo pregador. Vivemos num mundo onde a autoridade
encontra-se desacreditada e denegrida; num mundo onde o que o pecador
mais precisa não é de um bate-papo amigável entre pessoas, mas de uma
declaração da verdade de Deus em monólogo.
Certamente deve haver oportunidades para
diálogo e perguntas e o partilhar de perspectivas na vida geral da
igreja. Ainda assim, devemos reconhecer que a pregação reflete a forma
como Deus normalmente fala com o seu povo. Moisés declarou a Lei de Deus
aos israelitas. Os profetas do Antigo Testamento declararam: “Assim diz
o Senhor”. Jesus disse: “Em verdade, em verdade vos digo”. Pedro estava
no pórtico de Salomão e confrontou seus ouvintes com as exigências de
Deus. Em nenhum desses lugares você vê Deus pedindo por um diálogo com o
seu povo. As pessoas são chamadas a louvar a Deus em resposta à sua
Palavra e a obedecer a sua Palavra, mas não são chamados a acrescentar
algo à Palavra de Deus ou a oferecer sua perspectiva pessoal acerca da
sua Palavra, como se essa perspectiva tivesse alguma autoridade em si.
Quando um pregador se coloca para
pregar, fala com a autoridade de Deus na medida em que expõe, explica e
aplica a Bíblia fielmente. Não porque ele mesmo seja inerrante ou tenha
autoridade, mas porque a Bíblia é e tem. Enquanto o pregador declara
precisamente a Palavra de Deus, suas palavras são as palavras de Deus, e
as pessoas deveriam fechar a boca e prestar atenção. Ele não precisa
ser constrangido com aquela autoridade ou evitá-la, uma vez que esta é a
forma de Deus comunicar e dar vida às pessoas. É possível que pessoas
se sintam ofendidas e achem que a proclamação unilateral da Palavra de
Deus é um sinal de arrogância, mas é exatamente o contrário: ouvir Deus
requer humildade. O Espírito Santo falará de forma que o povo de Deus
ouvirá sua voz na pregação da sua Palavra ( João 18.37).
Observe a seriedade do apóstolo Paulo
quando ele comissiona Timóteo a pregar a Palavra de Deus: Conjuro-te,
perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua
manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja
oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e
doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo
contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças,
como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à
verdade, entregando-se às fábulas (2 Timóteo 4.1–4).
Paulo ordena que Timóteo “pregue” à luz
da volta iminente de Cristo e do destino eterno dos ouvintes de Timóteo.
O imperativo grego que Paulo usa dá o sentido de um arauto proclamando a
vontade de seu soberano. Não se trata de uma sugestão, mas de uma
declaração do que Deus fez. Acrescente à pregação a ordem para reprovar,
repreender e exortar, e você terá o retrato de uma atividade que não
tem o objetivo de incluir os pensamentos e comentários dos outros.
O leitor tem permissão para divulgar e distribuir esse texto, desde que não altere seu formato, conteúdo e / ou tradução e que informe os créditos tanto de autoria, como de tradução e copyright. Em caso de dúvidas, faça contato com a Editora Fiel.
É pastor sênior da Niddrie Community Church, Edimburgo, Escócia. É fundador do 20schemes, um ministério voltado
http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/1232/Pregue_a_Biblia_Inteira

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