Por Davi Lago
Desde criança fui
ensinado que existem três respostas de Deus às nossas orações de
súplica. A primeira é “sim”, e Deus atende nosso pedido. A segunda é
“espere”, e Deus não nos responde imediatamente. A terceira é “não”, e
Deus nega nosso pedido. Ocorre que em Mateus 20.20-22 encontramos outra
resposta: “Você não tem a menor noção do que está pedindo”. O texto
narra: “Então, aproximou-se de Jesus a mãe dos filhos de Zebedeu com
seus filhos e, prostrando-se, fez-lhe um pedido. ‘O que você quer?’,
perguntou ele. Ela respondeu: ‘Declara que no teu Reino estes meus dois
filhos se assentarão um à tua direita e o outro à tua esquerda’.
Disse-lhes Jesus: “Vocês não sabem o que estão pedindo. Podem vocês
beber o cálice que eu vou beber?”.
A oração daquela mulher
apresenta várias virtudes. Primeiro: o simples fato de ser uma oração!
Há muitas pessoas que só reclamam e praguejam diante de Deus. Mas essa
mulher estava fazendo uma oração! Segundo: era a oração de uma mãe!
Oração de mãe é sempre oração de mãe! Mãe é a obra-prima de Deus.
Terceiro: foi uma oração reverente, porque ela se prostrou na frente de
Jesus. Quarto: foi uma oração direcionada a Jesus. Ela não apelou para
homens, mas para o Filho de Deus. Do mesmo modo, devemos orar a Deus
sempre em nome de Jesus. Quinto: era uma oração intercessora bem
intencionada. Ela não pediu algo para ela própria, mas para seus filhos.
E pediu com a sinceridade de uma mãe que quer o melhor para seus
filhos.
Contudo, apesar de a
oração daquela mãe apresentar várias virtudes, ainda assim foi uma
oração completamente equivocada, uma oração nonsense. A resposta de
Jesus foi: “Vocês não sabem o que estão pedindo”. Por que Jesus recusou
de pronto a petição? A resposta é simples: aquela mulher fez um pedido
equivocado. O texto de Tiago 4.3 afirma: “Quando pedem, não recebem,
pois pedem por motivos errados, para gastar em seus prazeres”. Nossas
orações precisam ser cheias de fé, sinceras, reverentes, em nome de
Jesus, mas também de acordo com a vontade de Deus. Nossas orações
precisam ser saturadas com a lógica do Reino de Deus.
Certa vez um jovem
jornalista entrevistou o maior oceanógrafo do século 20, Jacques
Costeau. O jornalista perguntou qual a chance de um ser humano escapar
de uma luta direta com um tubarão. Costeau respondeu que não havia
chance alguma. O jornalista começou a retrucar perguntando se o tubarão
já estivesse alimentado, se o homem estivesse com um arpão, uma roupa de
mergulho, etc., se assim haveria alguma chance. Costeau respondia
sempre que não haveria chances. O jornalista então disse: “Mas isso não
tem lógica!”. Costeau respondeu: “Claro que tem lógica! Mas a lógica do
tubarão”.
Existe um descompasso
entre o modo que pensamos e o instinto dos animais. De modo ainda mais
incisivo, existe uma extrema oposição entre os valores do Reino de Deus e
os valores do mundo, o sistema de pensamento alienado de Deus. Quem é
“amigo do mundo” é “inimigo de Deus” (Tiago 4.4). A lógica do mundo não
tem nada a ver com a lógica do Reino de Deus. De acordo com a lógica do
mundo o que mais importa é o poder, o domínio, a opulência. Mas de
acordo com a lógica do Reino, o que importa é o serviço, o amor e a
alteridade.
Como foi a reação dos
outros discípulos diante do pedido de Tiago, João e sua mãe? Está
escrito que “quando os outros dez ouviram isso, ficaram indignados com
os dois irmãos. Jesus os chamou e disse: ‘Vocês sabem que os governantes
das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre
elas. Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se
importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro
deverá ser escravo; como o Filho do homem, que não veio para ser
servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mateus
20.24-28).
Os outros discípulos
ficaram irritadinhos com Tiago e João, não porque reprovaram a atitude
deles, mas porque eles também queriam lugares de proeminência. É mais ou
menos como o menino que diz para o colega: “Me empresta seu telefone?”.
“Não”, o colega responde. E o primeiro grita: “Professora!!! Pode usar
telefone em sala de aula???”.
O problema é que somos
demasiadamente hipócritas. Vejo pastores falarem contra “megaigrejas”,
mas que está óbvio que desejam ardentemente ter uma “megaigreja”. Vejo
gente desdenhar de cantores gospel milionários que esbanjam uma vida
capitalista fútil, mas que está na cara que desejavam estar no lugar
desses cantores. Não adianta ficar apenas falando contra as tolices de
Tiago e João se nós mesmos desejamos a mesma coisa.
Precisamos de uma
absoluta transformação de mentalidade. Jesus Cristo traçou de modo bem
claro a diferença entre os valores do Reino e os valores do mundo. A mãe
de Tiago e João compreendia o Reino de Deus em termos políticos. Ela,
como todos os outros discípulos, pensava que Jesus derrotaria os romanos
e assumiria o controle político da sociedade. Do modo mais interesseiro
possível, ela pede um “favor político” para Jesus. Mas Jesus não era um
revolucionário social. Ele não iria fazer promessas de campanha futuras
ou imaginárias, como muitos candidatos fazem. Jesus é o Salvador do
mundo, ele veio com uma missão espiritual: resgatar seus escolhidos.
Jesus é mais que um
mártir, ele é o Redentor da humanidade. O termo “resgate” está
relacionado com a alforria de um escravo. Jesus nos resgatou das trevas
para sua maravilhosa luz. O discípulo de Jesus não é mais um escravo do
sistema de pensamento mundano. O Reino de Deus não repete a
estratificação do arranjo social excludente do mundo em que vivemos.
Jesus anuncia
outra dimensão, outra proposta de autoridade. No Reino de Deus, o maior
é o menor. Isso significa que enquanto no mundo o que vale é arrancar e
acumular, no Reino dos céus, o que vale é sacrificar e doar. É melhor
dar do que receber.
outra dimensão, outra proposta de autoridade. No Reino de Deus, o maior
é o menor. Isso significa que enquanto no mundo o que vale é arrancar e
acumular, no Reino dos céus, o que vale é sacrificar e doar. É melhor
dar do que receber.
A aplicação dessa
narrativa é direta: quais são suas motivações? O que você está pedindo a
Deus? Qual lógica domina sua vida: a lógica do Reino ou a lógica do
mundo? Precisamos abandonar nossos pedidos provincianos e
umbigocentristas e começar a orar como homens e mulheres de Deus de
verdade. Precisamos de discernimento espiritual. Precisamos abandonar o
orgulho e egoísmo de nossas orações. John Ryle disse que o orgulho é
nossa vestimenta mais íntima, mas devemos nos livrar dela resolutamente.
Devemos seguir os passos de Jesus para a cruz. Mas o problema como
afirmou Lutero é que “a carne sempre procura ser glorificada antes de
ser crucificada”.
Que tipo de coisas você
pede a Deus? Você pede o seu pão, ou o “pão nosso”? Você quer seu carro
de milhares de reais, mas será que você tem um mínimo de disposição para
ajudar uma família que está na miséria? Você pede por sua família?
Dizia-se nos casamentos antigamente: “o que é seu é meu, e o que é meu é
seu”. Hoje mudou: “o que é seu é meu, e o que é meu é meu”. Tudo é para
você mesmo? Você luta o tempo todo pelos seus próprios caprichos?
Jovem, você tem honrado seus pais? Maridos, em pleno século 21 e se
julgando discípulos de Jesus, vocês ainda regulam dinheiro
para suas respectivas esposas? Você ora pelos perdidos? Você pede pelos
enlutados? Você chora com os que choram? Você pede pelos missionários?
Você ora pela expansão do Reino de Deus? Você ora pelos tradutores da
Bíblia? Você dá ofertas expressivas para a obra missionária, ou apenas
num “desafio financeiro” para você próprio prosperar? Até quando seremos
crianças espirituais? Até quando insistiremos em não entender as
Escrituras? Até quando o mundo dominará nosso coração e não o amor,
singeleza e pureza de Jesus Cristo? Chega de “orações contrárias”, de
barganhas, de feitiços ridículos travestidos de espiritualidade. Até
quando ficaremos falando sobre santidade sem a vivermos? Até quando
ficaremos falando que “não importa a placa da igreja, somos todos um
só”, mas na prática ficarmos falando mal uns dos outros? Até quando
pediremos a Deus para gastarmos em nossos próprios prazeres?
para suas respectivas esposas? Você ora pelos perdidos? Você pede pelos
enlutados? Você chora com os que choram? Você pede pelos missionários?
Você ora pela expansão do Reino de Deus? Você ora pelos tradutores da
Bíblia? Você dá ofertas expressivas para a obra missionária, ou apenas
num “desafio financeiro” para você próprio prosperar? Até quando seremos
crianças espirituais? Até quando insistiremos em não entender as
Escrituras? Até quando o mundo dominará nosso coração e não o amor,
singeleza e pureza de Jesus Cristo? Chega de “orações contrárias”, de
barganhas, de feitiços ridículos travestidos de espiritualidade. Até
quando ficaremos falando sobre santidade sem a vivermos? Até quando
ficaremos falando que “não importa a placa da igreja, somos todos um
só”, mas na prática ficarmos falando mal uns dos outros? Até quando
pediremos a Deus para gastarmos em nossos próprios prazeres?
Nossos pedidos são
exageradamente mesquinhos. E não são mesquinhos por causa do tamanho do
que pedimos. Jesus ensinou a pedirmos o “pão”. Nossos pedidos são
mesquinhos porque não são para a glória de Deus. Queremos a nossa
vontade feita no céu e não a vontade do Pai feita assim na terra como no
céu. Pedimos com motivações equivocadas.
Por que será que
inúmeras “megaigrejas” frequentadas por gente de muitas posses, e que
arrecadam muito dinheiro, não fazem o mínimo, eu friso: O MÍNIMO esforço
para combater as mazelas sociais DOS BAIRROS AO LADO DE ONDE ESTÃO
SITUADAS? Jesus disse que os discípulos deveriam ir aos confins da
terra, mas deveriam começar por Jerusalém, o local onde estavam. Por que
pedimos respostas de Deus e coisas para nós mesmos e não pedimos para
SERMOS a resposta de Deus para os marginalizados ao nosso redor?
Recentemente fiquei
profundamente triste ao ver uma criancinha do tamanho da minha filha
brincando com um ursinho de pelúcia debaixo de uma ponte. A menina
estava descalça, imunda, com o cabelo sujo, o rosto sujo, roupa rasgada.
O ursinho estava estragado, rasgado, imundo. Ela brincava na frente de
uma casa de plástico e madeira, toda suja. Na mesma hora eu me lembrei
da minha filha e de todo esforço que faço para dar o melhor para ela.
Não é possível que professaremos seguir Jesus e não lutaremos para
ajudar os pobres, o doentes, os inválidos, os dependentes químicos, os
miseráveis, os excluídos, os soropositivos, os abandonados, os sem-teto e
as menininhas que brincam e moram debaixo de uma ponte. Diante deste
mundo sem alma, até quando pediremos coisas inúteis a Deus?
É óbvio que devemos ser
felizes. Alias, mais do que felizes, devemos ser bem-aventurados.
Contudo, a beatitude vem através de outros valores: pobreza de espirito,
quebrantamento, mansidão, fome e sede de justiça, misericórdia. Nossos
valores são outros. Jesus foi enfático: “Não será assim entre vocês”.
Entre os discípulos de Jesus as coisas devem ser diferentes. Em 1Pedro
3.15 está escrito que devemos estar prontos para responder a qualquer
pessoa que pedir a razão da esperança que há em nós. Mas as pessoas de
fato estão perguntando isso para nós? John Piper disse que se ninguém
pergunta qual a razão de sua esperança é porque provavelmente sua
esperança não é diferente da esperança do mundo.
Quer ser importante? Então sirva seu próximo.
O ensinamento de Jesus
precisa dominar nosso coração. Graças a Deus, Tiago, João e a mãe deles
entenderam e viveram o que Jesus disse. Tiago foi decapitado por amor a
Cristo (Atos 12.2). João sofreu na ilha de Patmos por amor a Cristo
(Apocalipse 1.9). Conforme Mateus 27.56, a mãe de Tiago e João estava
aos pés da cruz onde Jesus Cristo nos salvou.
Fonte: NAPEC
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