Um
dos grandes princípios da Reforma foi o princípio que a Escritura é
auto-interpretativa. Embora isso possa parecer estranho para nós, deve
ser assim, pois somente o próprio autor, o Espírito Santo de Deus, tem o
direito e o poder de nos comunicar o que ele quis dizer. Minha
interpretação não significa nada. Somente a de Deus importa.
Isso
é ensinado em 2 Pedro 1:20, 21, que declara claramente que nenhuma
Escritura é de interpretação particular. Essa declaração parece um pouco
inapropriada, pois a ênfase não é sobre a interpretação, mas sobre a
inspiração. Todavia, a doutrina da inspiração, como ensinada nesses
versículos, tem o seguinte como sua aplicação: ninguém senão Deus mesmo,
que inspirou a Palavra, tem o direito de interpretá-la.
O
Espírito Santo interpreta a Escritura, mas não de uma forma mística –
não revelando misteriosa e secretamente o significado da Escritura para
nós mediante algumas revelações privadas. É errado dizer, “Deus me
mostrou”, “Deus me disse”, ou “Deus me revelou isso”. Isso, também, é
uma negação da Escritura, não somente de sua suficiência, como temos
visto, mas da inspiração da Escritura. A pessoa que diz essas coisas
está alegando ter uma interpretação da Escritura que Deus lhe deu
privadamente, à parte da própria Escritura. A interpretação apropriada
da Escritura é dada quando a Escritura é comparada com a Escritura.
Por
exemplo, se desejamos determinar o significado de uma palavra na
Escritura, talvez a palavra batismo, devemos analisar diferentes
passagens nas quais a palavra é usada e o contexto de cada passagem,
para então determinar o que ela significa na Escritura e como é usada
por esta. A interpretação apropriada da Escritura, portanto, requer
estudo cuidadoso para que possamos aprender da própria Escritura o que
ela quer dizer. A pessoa que pensa poder voltar-se para uma passagem da
Escritura e entendê-la sem estudo é muito tola e arrogante.
Devemos
ser cuidadosos, portanto, para não impor nossas idéias sobre a
Escritura, mas humildemente e em oração receber o que ela diz. Aprender a
interpretação apropriada da Escritura requer graça, submissão e oração.
Não existe ninguém, nem mesmo ministros do evangelho, que possa alegar
estar acima da Palavra de Deus. Toda interpretação, credo e sermão pode e
deve ser submetido ao escrutínio rígido à luz do que a Palavra de Deus
diz, exatamente porque ninguém tem o direito privado de interpretar a
Escritura. Por essa razão, mesmo a pregação dos apóstolos era sujeita ao
exame e crítica cuidadosa (Atos 17:10, 11). Mesmo aquela pregação, como
qualquer outra, tinha que se conformar à interpretação do Espírito de
sua própria Palavra.
Possa
Deus nos dar a graça necessária – muita graça – para buscarmos e
encontrarmos a interpretação correta e prestarmos atenção a ela (Hb.
2:1).
Fonte (original): Doctrine according to Godliness,
Ronald Hanko, Reformed Free Publishing
Association, p. 22-23.
Fonte Monergismo
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