A compreensão de como Deus trabalha na vida de
seus filhos não somente nos ajuda a saber como amar os outros, mas também nos
ensina a vermos a nós mesmos com mais exatidão, quando estamos presos a padrões
de pecado dos quais sabemos que devemos nos livrar mas não conseguimos. Deus
planeja algo bom até por meio de nossos piores pecados – de fato, especialmente
por meio deles. Quando compreendemos e experimentamos nossa profunda
incapacidade de obedecer ou de arrepender-nos, podemos nos tornar pessoas mais
pacientes e meigas e, por fim, vemos as traves, em nossos próprios olhos, mais
claramente do que vemos o argueiro nos olhos dos outros (Mateus 7.3-4). Nosso
pecado pode nos moldar em pessoas que exortam amorosamente os outros ao
arrependimento, sem um espírito de superioridade e julgamento, mas com tremendo
amor e gentileza (Gálatas 6.1).
Existem várias áreas de minha vida em que
gostaria de mudar; e tenho pedido a Deus que me transforme, mas eu mesma ainda
não cresci. Por exemplo, luto para ser uma amável esposa de pastor para as
mulheres em nossa igreja. Tenho uma amiga estimada que é o tipo de esposa de
pastor que eu gostaria de ser: ela é amorosamente interessada na vida das
pessoas em sua igreja, preocupa-se com elas e as serve com paciência; lembra-se
de todos os aniversários e dos detalhes importantes e menos importantes da vida
das pessoas e de seus filhos; planeja estrategicamente receber em sua casa
pessoas para uma refeição e tem comunhão fiel com as mulheres de sua igreja,
por meio de estudos bíblicos e eventos sociais. Esse é o tipo de esposa de
pastor que eu gostaria de ser, mas Deus não me escolheu para me tornar no
docinho de coco que eu gostaria de ser, que transborda amor para todos ao seu
redor.
Em vez disso, sou inclinada a avaliar as pessoas
com base no que elas fazem ou deixam de fazer pela igreja (e numa igreja sempre
há muito a ser feito!). Favoreço pessoas que valorizo, mas sou igualmente
propensa a julgar e a não favorecer outras pessoas, bem como a ter um coração
que se ira facilmente se acho que elas têm expectativas injustas a meu
respeito. Neste exato momento, há uma pessoa em minha vida a quem deveria
perdoar por uma ofensa seríssima, e não quero fazê-lo. Na verdade, mal posso
olhar para essa mulher. Sei que não tenho motivo algum para guardar tamanho
rancor. Deveria perdoá-la livremente, assim como fui perdoada, mas não quero
fazer isso. O que devo fazer comigo mesma? De certo modo, esta frieza em meu
coração se opõe a cada coisa que escrevi neste livro sobre as maravilhas do
evangelho. Ainda assim, acho que não consigo amolecer o coração nem renuir
desejo necessário para que ele seja amolecido.
Estou presa, mas, ao mesmo tempo, posso estar em
paz com minha incapacidade de fazer como deveria. Entendo que nunca serei capaz
de querer perdoar sem um ato de Deus em meu coração. Na verdade, em outro
sentido, tudo que sinto em meu coração neste momento confirma tudo que aprendi.
Não existe um interruptor que eu possa ligar para me fazer querer amar esta
senhora, nenhuma disciplina espiritual que eu possa exercer para colocar meu
coração rebelde em ordem. Ao lutar, sem sucesso, com meu coração, Satanás zomba
de mim regularmente com e Evangelho, dizendo: “Como você ousa ensinar outros
sobre a graça e o perdão de Deus quando não consegue nem mesmo olhar para esta
senhora sem desprezá-la!” De fato, ele está certo; eu não tenho direito nenhum
de abrir minha boca, mas, antes de tudo, o evangelho não se focaliza em mim;
pelo contrário, o evangelho diz respeito à maravilhosa graça de Deus que se
manifestou em Jesus — a boa-nova que agora é declarada por meio de mensageiros
imperfeitos, que precisam desesperadamente da mesma graça sobre a qual falamos
aos outros.
Portanto, assim como posso ter compaixão dos
outras pessoas quando seus pecados tornam sua vida tremendamente difícil, posso
confiar que Deus usará o pecado delas, que ele odeia, para realizar coisas boas
que ele ama na vida delas. Posso ter compaixão de mim mesma — confiando que
Deus usará meu próprio pecado para sua glória e para meu benefício. Afinal, mesmo
agora, Jesus olha para o meu coração imperdoável e manchado de pecado e declara
“nenhuma condenação” (Romanos 8.1). Eu não deveria concordar com a avaliação de
Deus quanto ao meu status diante dele mesmo, em vez de concordar com a
avaliação de Satanás?
Paciência com o pecado dos outros
Em seus escritos, John Newton expressou tremenda
compaixão para com os pecadores fracos e reincidentes. Ele argumenta desta
maneira:
Um grupo de viajantes cai num fosso: um deles
pega o outro a fim de puxá-lo para fora. Agora, este não deve ficar irritado
com os demais por haverem caído no fosso, nem por não terem saído, como ele.
Ele não puxou a si mesmo para fora. Portanto, em vez de reprová-los, deve
mostrar-lhes compaixão… Um homem verdadeiramente iluminado não desprezará os
outros, assim como Bartimeu, depois de abertos seus próprios olhos, não pegaria
uma vara e agrediria todos os cegos que encontrasse.
William Cowper, poeta e compositor de hinos, foi
originalmente educado para ser um advogado, mas teve de desistir dessa ambição
por causa de sua depressão. Ele tentou o suicídio três vezes e foi internado
por um tempo numa clínica psiquiátrica, devido à depressão severa. Foi nessa
clínica que, por meio da influência de um médico evangélico, sua fé em Cristo
teve início. Cowper começou a frequentar a igreja de Newton quando se mudou
para Olney e logo se tornaram amigos íntimos, colaborando nos projetos de
composição de hinos. Entretanto, suas lutas com a depressão retornaram ao ponto
em que Cowper já não era nem mais capaz de ir à igreja. Newton continuou a
cuidar de Cowper e a encorajá-lo, fazendo grandes caminhadas com ele e
ajudando-o em meio ao terrível desespero.
Que maravilhosa providência de Deus levou esses
dois homens a serem ricamente abençoados um pelo outro! Newton viu a glória de
Deus em Cowper e, com grande gentileza e paciência, procurou aliviar seu
sofrimento e fazer com que seus dons estivessem à disposição do corpo de
Cristo. Ele não repreendeu Cowper por sua fé fraca ou por sua luta contínua com
a depressão, mas caminhou amorosamente com ele. Embora nunca tenha sido curado,
Cowper viveu a restauração de sua depressão por cerca de nove anos, que
coincidiram com sua descoberta da doutrina da graça. Esse fato aliviou sua
consciência e o convenceu, em seus melhores momentos, de que sua segurança
repousava nas mãos de Deus e não na força de sua própria fé. A compreensão de
Newton quanto ao sofrimento que o pecado e a fraqueza causam fez com que ele se
tornasse um homem cheio de misericórdia e graça para com os que permaneciam
incapazes de prosperar emocionalmente sob os fardos que Deus os chamou a
carregar.
A análise cuidadosa de Newton sobre o estado do
crente o fez, como o cristão maduro que ele descreveu em suas cartas, a levar
em contra as falhas de outros crentes. Sua resposta àqueles que lhe escreviam
em estado de desespero, devido a seus pecados recorrentes, nunca teve o tom de
“Como você pôde fazer isso?” Ao contrário, sua resposta habitual era: “Mas é
claro que você fez isso; você é um pecador, e é isso que os pecadores fazem”.
Ele ponderava que existem tantas coisas agindo contra os pecadores neste mundo,
que nunca devemos ficar chocados quando eles caem. Pelo contrário, devemos
ficar constantemente admirados quando não o fazem!
O primeiro desses enormes obstáculos que se
colocam entre os crentes e a vida santificada é a realidade poderosa da
corrupção ainda existente em nós. É algo triste e desagradável conhecer o
evangelho, experimentar a incrível e poderosa graça de Deus e, ainda assim,
pecar e querer pecar novamente contra ela. Pecar contra a lei de Deus é
bastante desagradável, porém, muito pior é pecar contra Deus em face de seu
amor excepcional e de sua provisão sacrificial em favor de todo o nosso pecado.
No entanto, apesar disso, pecamos repetidamente.
Graça
Extravagante: A Glória de Deus revelada em nossa fraqueza
Nesse livro, Barbara Duguid nos ensina, a partir
dos escritos de John Newton, sobre o propósito de Deus para as nossas falhas e
culpa. Sua abordagem franca e cheia de empatia, com ilustrações de suas
próprias lutas, eleva o nosso foco, de nossos próprios esforços, para um Deus
que é maior que as nossas falhas e que as usa para a sua glória.
http://voltemosaoevangelho.com/blog/2017/05/paciencia-com-o-pecado-dos-outros/

Nenhum comentário:
Postar um comentário