Related
Media
Introdução
Se a queda do homem tivesse ocorrido em
nossos dias, seria difícil imaginar as consequências. Suponho que a União
Americana pelas Liberdades Civis imediatamente entraria com uma ação — contra
Deus, e em defesa de Eva e Adão, seu marido (a ordem dos dois não é acidental).
O processo provavelmente seria constituído com base na alegação de despejo
ilegal. “Afinal de contas”, diriam, “o suposto ato pecaminoso foi consumado na
privacidade do jardim, por duas pessoas adultas”. Mas, acima de tudo, diriam
que a punição era muito maior que o crime (se, de fato, houve algum). Estaria
Deus realmente falando sério? Só por causa de uma mordida num “fruto proibido”,
o homem e a mulher são despejados e sofrerão as consequências disso por toda a
vida? Mais ainda, só por causa desse único ato, o mundo inteiro e a humanidade toda
continuarão sofrendo esses males, até mesmo nós?
Aqueles que não levam a Bíblia a sério,
ou literalmente, têm um pouco de dificuldade com esta passagem. Eles
simplesmente tratam o terceiro capítulo de Gênesis como se fosse lenda. Para
eles, este capítulo é apenas uma história simbólica que tenta explicar as
coisas como elas são. Os detalhes da queda não apresentam nenhum problema, pois
não são fatos reais, são pura ficção.
Os evangélicos talvez busquem conforto
no fato de que isso aconteceu em algum lugar longínquo, há muito tempo. Já que
a queda ocorreu há tantos anos, a nossa tendência é não pensar muito nas coisas
que saltam aos olhos nesta passagem.
No entanto, muitas questões sérias
surgem em relação ao relato da queda do homem. Por que, por exemplo, Adão tem
de assumir a maior parte da responsabilidade, quando é Eva a personagem
principal da narrativa? Colocando a questão em termos mais contemporâneos, por
que Adão levou a culpa se foi Eva quem conversou com a serpente?
Além disso, precisamos pensar na
gravidade das consequências do homem ter partilhado o fruto proibido à luz do
que parece ser um fato tão insignificante. O que há de tão ruim nesse pecado
para provocar uma resposta tão drástica de Deus?
A estrutura dos primeiros capítulos de
Gênesis requer a descrição da queda do homem. Nos capítulos um e dois, lemos
sobre a criação perfeita que Deus avaliou como sendo “boa” (cf. 1:10, 12, 18,
21). No capítulo quatro nos deparamos com ciúme e assassinato. Nos capítulos
seguintes a raça humana vai de mal a pior. O que aconteceu? Gênesis três tem a
resposta a essa pergunta.
Por isso, esse capítulo é
importantíssimo, pois ele explica o mundo e a sociedade como os vemos
atualmente. Ele nos fala sobre as estratégias de Satanás para seduzir os
homens. Ele dá sentido às passagens do Novo Testamento que restringem as
mulheres de assumir cargos de liderança na igreja. Ele nos desafia a pensar se
ainda hoje “caímos”, ou não, à maneira de Adão e Eva.
Entretanto, este não é um capítulo que
vamos nos arrepender de estudar. Ele descreve a entrada do pecado na raça
humana e a gravidade das consequências da desobediência do homem. Contudo, além
da pecaminosidade do homem e da pena que ela merece, há também a revelação da
graça de Deus. Ele busca o pecador e providencia uma cobertura para o pecado.
Ele promete um Salvador por meio do qual todo esse trágico incidente se
transformará em triunfo e salvação.
De repente, sem mais nem menos, no
versículo um aparece a serpente. Só estávamos preparados para encontrar Adão,
Eva e o jardim, pois já os tínhamos visto antes. Sabemos que a serpente é uma
das criaturas de Deus, por isso, devemos pensar nessa criatura literalmente. No
entanto, mesmo sendo uma cobra da verdade, a revelação posterior nos diz que o
animal estava sendo usado por Satanás, o qual é descrito como dragão e serpente
(cf. 2 Coríntios 11:3 e Apocalipse 12:9, 20:2).
Embora tenhamos o desejo de saber as
respostas para as questões relacionadas à origem do mal, não era intenção de
Moisés falar sobre isso neste ponto. O que Deus quer nos mostrar é que somos
pecadores. Ir mais além só desvia a nossa atenção da nossa responsabilidade
pelo pecado.
Observe, em especial,
a abordagem de Satanás. Ele não chega como um ateu, ou como alguém que, logo de
cara, desafie a fé que Eva tem em Deus1. Às vezes, ele pode se
manifestar como uma Madalyn Murray O’Hair (ativista ateísta americana, mais
conhecida pela ação judicial que levou a um marco decisivo da Suprema Corte que
terminou com a leitura oficial da Bíblia nas escolas públicas americanas), mas,
o mais provável é que seja como um “anjo de luz” (2 Coríntios 11:14). Com
frequência, ele está atrás do púlpito, segurando uma Bíblia nas mãos.
A forma como Satanás faz as perguntas é
significativa. A palavra “assim” (versículo um) é cheia de insinuação. O efeito
é este: “Deus não disse isso mesmo, disse?” A palavra Deus (“Deus disse” —
versículo um) também é interessante. Até aqui Moisés vinha usando a expressão
“O Senhor Deus”, Yahweh Elohim: “Mas a serpente, mais sagaz que todos os
animais selváticos que o Senhor Deus tinha feito” (Gênesis 3:1). No entanto,
quando Satanás se refere ao Senhor Deus ele o faz só como Deus. Essa omissão é
indício da sua atitude rebelde diante do Deus todo-poderoso.
A abordagem inicial de Satanás é para
enganar, não para negar; é para causar dúvida, não desobediência. Ele não chega
até Eva como um inquiridor. Ele deliberadamente distorce o mandamento de Deus,
mas de forma a sugerir: “Talvez eu esteja errado, por isso, corrija-me se me
enganei”.
Ora, Eva nunca teria começado essa
conversa. Era uma completa subversão da ordem de autoridade estabelecida por
Deus. A ordem era: Adão, Eva, criatura. Adão e Eva deviam expressar o domínio
de Deus sobre a Sua criação (1:26). Eva não teria hesitado em reprovar a
conversa, não fosse a maneira pela qual Satanás a iniciou.
Se Satanás tivesse começado por
desafiar o mandamento de Deus ou a fé que Eva tinha nEle, a escolha dela teria
sido muito fácil. Mas o que ele fez foi distorcer o mandamento de Deus. Ele
colocou a questão de forma a parecer estar mal informado e precisar de
correção. Poucos de nós conseguem evitar a tentação de dizer aos outros que
estão errados. E assim, por incrível que pareça, Eva começa a trilhar o caminho
da desobediência supondo estar defendendo a Deus contra a serpente.
Reparou que Satanás não menciona nem a
árvore da vida nem a árvore do conhecimento do bem e do mal? Que ataque sutil!
Sua pergunta leva a árvore proibida ao centro do pensamento de Eva, mas sem
qualquer menção a ela. Eva o faz. Com sua pergunta, Satanás não somente leva
Eva ao diálogo, mas também tira seus olhos da generosa provisão de Deus e a faz
pensar somente na Sua proibição. Satanás não quer que consideremos a graça de
Deus, só que pensemos com rancor nas Suas proibições.
E é exatamente isso o que,
imperceptivelmente, toma conta dos pensamentos de Eva. Ela mostra sua mudança
de atitude em muitas “escorregadelas freudianas”. Embora Deus tenha dito: “de
qualquer árvore do jardim comerás livremente” (2:16), ela diz: “do fruto das
árvores do jardim podemos comer” (3:2). Ela omite “qualquer” e “livremente”, as
duas palavras que ressaltam a generosidade de Deus.
Igualmente, ela tem uma impressão
distorcida da severidade de Deus na proibição do fruto da árvore do
conhecimento do bem e do mal. Ela repete Sua instrução com estas palavras:
“dele não comereis, nem tocareis nele, para que não morrais” (3:3). Só que Deus
tinha dito: “mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque
no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (2:17).
Enquanto exagera a proibição a ponto de
até mesmo tocar na árvore ser uma coisa ruim, inconscientemente Eva subestima o
julgamento de Deus omitindo a palavra “certamente” e deixando de dizer que a
morte viria no dia da transgressão. Em outras palavras, ela ressalta a
severidade de Deus, mas subestima o fato de que o julgamento vai ser executado
em breve e com certeza.
O primeiro ataque de Satanás à mulher
foi o de um observador religioso, tentando criar dúvidas sobre a bondade de
Deus e fixando a atenção dela na proibição, não no que era dado livremente. O
segundo ataque é ousado e descarado. Agora, em lugar da dúvida e logro há
negação, seguida de calúnia ao caráter de Deus: “Então, a serpente disse à
mulher: É certo que não morrereis” (3:4).
As palavras de advertência de Deus não
devem ser entendidas como promessa certa de punição, mas como simples ameaça de
uma divindade egocêntrica.
Talvez fiquemos admirados diante da
negação categórica de Satanás, mas, em minha opinião, é exatamente isso o que
enfraquece a oposição de Eva. Como alguém pode estar errado estando tão seguro?
Hoje, meu amigo, muitas pessoas são convencidas mais pelo tom categórico de um
professor do que pela fidelidade doutrinária do seu ensino. Dogmatismo não é
garantia de precisão doutrinária.
O golpe fatal de Satanás está
registrado no versículo cinco: “Porque Deus sabe que no dia em que dele
comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do
mal” (3:5).
Muitos têm tentado
determinar exatamente o que Satanás está oferecendo no versículo cinco. Ele
garante que “se vos abrirão os olhos”. Em outras palavras, Adão e Eva estão
vivendo num estado de incompletude, de inadequação. Mas, quando comerem o
fruto, eles vão entrar num novo e mais sublime nível de existência: eles vão
ser “como Deus”.2
Da forma como vejo a
declaração de Satanás, ela é deliberadamente vaga e evasiva. Isso deve ter
estimulado a curiosidade de Eva. Conhecer “o bem e o mal” talvez seja conhecer
tudo3. No entanto, como ela poderia
compreender os detalhes específicos da oferta se ainda nem sabia o que era o
“mal”?
Um amigo meu diz que as mulheres são,
por natureza, mais curiosas que os homens. Não sei se isso é verdade, mas sei
que também sou muito curioso. O mistério da possibilidade de conhecer mais e de
viver nalgum plano superior de vida com certeza é um convite à especulação e à
reflexão.
Encontrei no livro de Provérbios esta
ilustração sobre a curiosidade humana:
“A loucura é mulher apaixonada, é
ignorante, e não sabe cousa alguma. Assenta-se à porta de sua casa, nas alturas
da cidade, toma uma cadeira, para dizer aos que passam e seguem direito o seu
caminho: Quem é simples, volte-se para aqui. E aos faltos de senso diz: As
águas roubadas são doces, e o pão comido às ocultas é agradável”. (Provérbios
9:13-17)
A mulher tola é naturalmente ignorante
e não sabe de nada, mas atrai suas vítimas oferecendo-lhes uma experiência
nova, e o fato de isso ser ilícito só aumenta o poder de atração (versículos 16
e 17). Foi esse o tipo de oferta feita por Satanás a Eva.
É neste ponto, creio eu, que ele deixa
Eva com seus pensamentos. Sua semente destrutiva já foi plantada. Embora ainda
não tenha comido do fruto, Eva já começou a cair. Ela conversou com Satanás e
agora está nutrindo pensamentos blasfemos sobre o caráter de Deus. Ela está
contemplando seriamente a desobediência. O pecado não é instantâneo, mas
sequencial (Tiago 1:13-15), e Eva está a caminho dele.
Observe que a árvore da vida nem mesmo
é mencionada ou considerada. As duas árvores estavam bem diante de Eva, a
árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Aparentemente, não
foi uma escolha entre uma e outra. Ela só viu o fruto proibido. Só ele pareceu
ser “bom para comer e agradável aos olhos” (versículo 6); no entanto, em 2:9 é
dito que todas as árvores tinham as mesmas características. Mas Eva tinha olhos
só para o que era proibido. Essa árvore ofereceu algum atrativo misterioso de
vida que atraiu a mulher.
Satanás mentiu
descaradamente ao garantir a Eva que ela não morreria, mas deixou de mencionar
as letras miúdas da promessa servida junto com o
fruto proibido. Tendo estudado a tal árvore durante algum tempo (imagino eu),
finalmente ela decide que os benefícios são bons demais e as consequências bem
pouco razoáveis e, portanto, improváveis. Nesse instante ela pega o fruto e
come.
Talvez algumas pessoas balancem a
cabeça diante da atitude de Eva, mas o estranho mesmo é que Adão, aparentemente
sem hesitação, sucumbe ao convite dela para também desobedecer. Moisés emprega
quase seis versículos (Gênesis 3:1-6a) para descrever a sedução e a
desobediência de Eva, mas apenas uma pequena parte de uma sentença para
registrar a queda de Adão (Gênesis 3:6-b). Por que será? Embora eu não seja tão
categórico quanto a isso como já fui, duas palavrinhas de Moisés poderiam nos
dar a resposta: “com ela” (versículo 6, NT: quase todas as versões em português
não trazem essas palavras):
Vendo a mulher que a árvore era boa
para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento,
tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido e ele comeu. (Gênesis 3:6)
Seria possível que
Eva não estivesse sozinha com a serpente?4 Será que Moisés, com
as palavras “com ela”, está dizendo que Adão presenciou tudo, mas não abriu a
boca? Se ele estava lá, ouvindo cada palavra, e assentindo com seu silêncio,
então não é de admirar que ele simplesmente tenha pego o fruto e comido quando
Eva lhe ofereceu.
Isso deve ser mais ou menos como quando
eu e minha esposa estamos na sala assistindo televisão. Quando a campainha
toca, ela se levanta para atender, enquanto continuo vendo meu programa
favorito. Posso ouvi-la deixando o vendedor de aspirador de pó entrar e
interessar-se cada vez mais pelo seu blá-blá-blá de vendedor. Não quero parar
de assistir ao meu programa, por isso, deixo a conversa continuar, até minha
esposa fazer um carnê de prestações. Se ela entrasse na sala e me dissesse
“assine aqui também, por favor”, não seria nenhuma surpresa se eu assinasse sem
protestar. A culpa seria minha por permitir que ela tomasse uma decisão e eu
resolvesse segui-la.
Mesmo se Adão não estivesse ali durante
a conversa entre a serpente e sua esposa, ainda podemos imaginar o que pode ter
acontecido. Eva, sozinha, teria comido o fruto e depois teria corrido para
contar ao marido o que achou daquilo. Dá bem para imaginar que ele ia querer
saber de duas coisas. Primeira, se ela se sentia melhor — ou seja, se o efeito
do fruto era bom. Segunda, se tinha acontecido alguma coisa ruim. Afinal de
contas, Deus tinha dito que eles morreriam naquele mesmo dia. Se ela tivesse
achado o fruto agradável e ainda não estivesse sentindo alguma coisa estranha,
com certeza ele seguiria seu exemplo. Que erro terrível!
Os versículos 7 e 8 são muito
instrutivos, pois nos ensinam que o pecado tem consequências, e castigo também.
Deus ainda não tinha prescrito nenhuma punição para o pecado de Adão e Eva, mas
as consequências já estavam irremediavelmente presentes. As consequências
mencionadas aqui são vergonha e separação.
A nudez antes partilhada sem culpa
agora era fonte de vergonha para Adão e Eva. A doce inocência se fora para
sempre. Lembre-se, não havia outra pessoa no jardim, só os dois. Mas eles
estavam com vergonha de encarar um ao outro sem roupa. Eles não só não
conseguiam se encarar como antes, como também estavam morrendo de medo de
encarar a Deus. Quando Ele veio ter a doce comunhão com eles, eles se esconderam
de medo.
Deus tinha dito que eles morreriam no
dia em que comessem do fruto proibido. Algumas pessoas ficam confusas com essa
promessa de julgamento. Embora o processo de morte física tenha começado
naquele dia fatídico, eles não morreram fisicamente. Precisamos nos lembrar de
que a morte espiritual é a separação de Deus.
Estes sofrerão penalidade de eterna
destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder. (2
Tessalonicenses 1:9)
É incrível, mas a morte espiritual de
Adão e Eva ocorreu naquela mesma hora — ou seja, agora havia a separação de
Deus. E essa separação não foi imposta por Ele, foi causada pelo próprio homem.
Preciso me desviar um pouco do assunto
para dizer que a morte espiritual experimentada por Adão e sua esposa é a mesma
de nossos dias. É a alienação de Deus. E é escolha do próprio homem. É o seu
desejo. Inferno é Deus dar aos homens as duas coisas — o que eles querem e o
que merecem (cf. Apocalipse 16:5-6).
A separação ocasionada por Adão e Eva é
a mesma que Deus busca restaurar. Ele busca o homem no jardim. Enquanto a
pergunta de Satanás tinha intenção de causar a queda do homem, as perguntas de
Deus buscam sua reconciliação e restauração.
Observe que não são feitas perguntas à serpente.
Não há intenção de restauração para Satanás. Sua condenação está selada.
Observe também que aqui existe uma ordem ou sequência. A queda do homem ocorre
nesta ordem: serpente, Eva, Adão. Isso é exatamente o oposto da cadeia de
comando dada por Deus. Embora Deus faça o questionamento por ordem de
autoridade (Adão, Eva, cobra), Ele sentencia pela ordem da queda (cobra, Eva,
Adão). A queda, em parte, foi consequência da reversão da ordem de Deus.
Adão é o primeiro a ser procurado por
Deus com a pergunta: “Onde estás?” (versículo 9). Com relutância, ele admite
seu medo e sua vergonha, provavelmente esperando que Deus não o pressione
muito. No entanto, Deus vai fundo em Sua sondagem, buscando uma confissão do
pecado: “Quem te fez saber que estavas nu? Comeste da árvore que te ordenei que
não comesses?” (versículo 11).
Jogando pelo menos uma parte da
responsabilidade sobre o Criador, Adão desembucha: “A mulher que me deste por
esposa, ela me deu da árvore, e eu comi” (verso 12).
Adão deixa implícito que tanto Eva
quanto Deus devem dividir a responsabilidade pela queda. Sua própria
participação é mencionada por último, com um mínimo de detalhes. E sempre será
assim com quem é culpado. Sempre procuramos atenuar as circunstâncias.
Todos os caminhos do homem são puros
aos seus olhos, mas o Senhor pesa o seu espírito. (Provérbios 16:2)
A seguir, Eva é inquirida: “Que é isso
que fizeste?” (verso 13)
A resposta dela é um pouco diferente
(em essência) da resposta do marido: “A serpente me enganou e eu comi” (verso 13).
É óbvio que isso é
verdade. A serpente realmente a enganou (1 Timóteo 2:14) e ela, de fato, comeu.
A culpa de ambos — Adão e Eva, apesar da débil
tentativa de justificação, ou pelo menos de diminuição, da responsabilidade
humana, foi claramente estabelecida.
Creio que sempre deve ser assim. Antes
de se aplicar a punição, a transgressão precisa ser comprovada e reconhecida.
De outra forma, o castigo não terá efeito corretivo sobre o culpado. As
penalidades, então, são prescritas por Deus, pela ordem dos acontecimentos da
queda.
A Condenação da
Serpente (versículos 14-15)
A serpente é a primeira a quem Deus Se
dirige e estabelece o castigo. A criatura, como o instrumento de Satanás, é
amaldiçoada e sujeita a uma existência de humilhação, rastejando-se no pó
(versículo 14).
O versículo 15 é
dirigido à serpente por detrás da serpente, Satanás, o dragão mortífero: “E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e
Satanás, o sedutor de todo o mundo...” (Apocalipse 12:9).
Em primeiro lugar, vai haver uma
hostilidade pessoal entre Eva e a serpente: “Porei inimizade entre ti e a
mulher” (versículo 15).
Essa inimizade é fácil de entender. No
entanto, a oposição será ampliada: “entre a sua descendência e o seu
descendente” (versículo 15).
Aqui, creio que Deus esteja se
referindo à luta através dos séculos entre o povo de Deus e os seguidores do
diabo (cf. João 8:44 e ss).
Finalmente, haverá o confronto pessoal entre o descendente de Eva5, o Messias, e Satanás. “Este
te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (versículo 15).
Nesse confronto, Satanás será ferido
mortalmente, enquanto o Messias receberá um golpe terrível, mas não fatal.
Essa profecia é uma belíssima descrição
da vinda do Salvador, que reverterá os eventos da queda. É sobre isso que Paulo
escreve em retrospecto no capítulo cinco de Romanos:
Entretanto, reinou a morte desde Adão
até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de
Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir. Todavia, não é assim o dom
gratuito como a ofensa; porque, se, pela ofensa de um só, morreram muitos,
muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo,
foram abundantes sobre muitos. O dom, entretanto, não é como no caso em que
somente um pecou; porque o julgamento derivou de uma só ofensa, para a
condenação; mas a graça transcorre de muitas ofensas, para a justificação. Se,
pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que
recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de
um só, a saber, Jesus Cristo. (Romanos 5:14-17)
Muito embora a
profecia do versículo 15 seja meio velada, ela se torna cada vez mais evidente
à luz da revelação subsequente. É um tanto surpreendente, então, saber que os
judeus, de acordo com o Targum, considerem esta passagem como Messiânica.6
O Castigo da Mulher
(versículo 16)
Já que Satanás atacou a raça humana por
intermédio da mulher, nada mais justo do que Deus providenciar a salvação do
homem, e sua destruição de Satanás, também por meio da mulher. Isso já foi dito
a Satanás no versículo 15. Cada criança nascida da mulher deve ter sido um
tormento para ele.
Embora a salvação viesse pelo
nascimento de uma criança, este não seria um processo indolor. A sentença da
mulher atinge o centro da sua existência. Trata-se do nascimento de seus
filhos. No entanto, mesmo em meio às dores do parto ela poderia saber que o
propósito de Deus para ela estava sendo cumprido e que o Messias, talvez,
pudesse nascer por meio dela.
Além das dores do parto, o
relacionamento entre a mulher e seu marido também foi prescrito. Antes, Adão
devia exercer a liderança e Eva devia segui-lo. Mas não foi isso o que ocorreu
na queda. Por isso, daquele momento em diante as mulheres deviam ser governadas
pelos homens: “o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará”
(versículo 16).
Muitas coisas podem ser ditas a
respeito dessa maldição. Em primeiro lugar, isso é para todas as mulheres, não
só para Eva. Assim como todas as mulheres devem ter dores de parto, elas também
devem se sujeitar à autoridade dos maridos. Isso não implica, de forma alguma,
em inferioridade da sua parte. Nem justifica a restrição ao direito de voto, à
equivalência salarial, etc.
Para aqueles que não querem se submeter
ao ensinamento bíblico a respeito do papel da mulher na igreja — que elas não
devem exercer cargos de liderança ou ensinar aos homens, nem falar em público
(1 Coríntios 14:33b-36; 1 Timóteo 2:9-15) — deixe-me dizer o seguinte: o papel
da mulher na igreja e no casamento não é só ensinamento de Paulo, nem deve ser
visto apenas em relação ao contexto imoral da igreja de Corinto. Essa doutrina
é bíblica, com origem no terceiro capítulo de Gênesis. Por isso, Paulo escreve:
... conservem-se as mulheres caladas
na igreja, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também
a lei o determina (1 Coríntios 14:34).
Para homens e mulheres com intenção de
desconsiderar a instrução de Deus, devo dizer que esta é exatamente a vontade
de Satanás. Assim como ele levou Eva a pensar na restrição daquela única
árvore, ele também quer que as mulheres atuais só pensem nas restrições
impostas a elas — “livre-se de suas algemas”, diz ele, “realize-se como
mulher”; “Deus está privando você das melhores coisas da vida”, ele sussurra.
Tudo isso é mentira! Os mandamentos de Deus têm razão de ser, quer os
compreendamos ou não.
Para os homens, vou logo dizendo que
este versículo (e o ensinamento bíblico sobre o papel das mulheres) não é texto
de prova da superioridade masculina ou de alguma espécie de ditadura no
casamento. Devemos exercer a liderança com amor. Ela precisa ser praticada com
sacrifício pessoal, procurando aquilo que é melhor para a nossa esposa (Efésios
5:25 e ss). Liderança bíblica é aquela pautada no exemplo de nosso Senhor (cf.
Filipenses 2:1-8).
O Castigo do Homem
(versículos 17 a 20)
Assim como o castigo de Eva está
relacionado ao ponto central da sua vida, o mesmo acontece com Adão. Antes ele
foi colocado no jardim, agora terá de obter o seu sustento do solo “pelo suor
de sua fronte” (versículos 17 a 19).
Você vai notar que, embora a serpente
tenha sido amaldiçoada, aqui só a terra é amaldiçoada, não Adão e Eva. Deus
amaldiçoou Satanás porque não tinha intenção de reabilitá-lo ou de redimi-lo.
Mas o propósito de Deus de salvar o homem já foi revelado (versículo 15).
Adão não só terá de lutar com o solo
para obter seu sustento, mas, no fim, ele retornará ao pó. A morte espiritual
já ocorreu (cf. versículos 7 e 8). E a morte física vai começar. Longe da vida
dada por Deus, o homem simplesmente (embora lentamente) volta ao seu estado
original — pó (cf. 2:7).
A reação de Adão ao castigo e à
promessa de Deus é revelada no versículo 20: “E deu o nome de Eva a sua mulher,
por ser a mãe de todos os seres humanos”.
Creio que essa atitude evidencia uma fé
singela por parte de Adão. Ele reconheceu sua culpa e aceitou seu castigo, mas
se concentrou na promessa de Deus de que por meio da descendência da mulher
viria o Salvador. A salvação de Eva (e a nossa também!) viria pela sua
submissão ao marido e pelo nascimento de filhos. O nome dado por Adão à mulher,
Eva, que significa “viva” ou “vida”, mostra que a vida viria por meio dela.
Deus não é apenas um Deus de castigo,
mas também de graciosa provisão. Por isso, Ele faz para Adão e sua esposa
vestimentas de peles de animais para cobrir sua nudez. A profecia de redenção
pelo derramamento de sangue implícita neste versículo, em minha opinião, não é
nenhum exagero.
De maneira estranha, a promessa feita
por Satanás acaba se tornando realidade. Adão e Eva, em certo sentido, passam a
ser como Deus no conhecimento do bem e do mal (versículo 22). No entanto, há
uma grande diferença, e também uma certa similaridade. Tanto o homem como Deus
conhecem o bem e o mal, mas de formas totalmente diferentes.
Talvez essa diferença possa ser mais
bem explicada com uma ilustração. Um médico pode saber o que é câncer em
virtude de seus estudos e da sua experiência como médico. Isto é, ele lê
matérias sobre o assunto, ouve palestras e vê a doença em seus pacientes. Um
paciente, também, pode saber o que é câncer, mas como vítima. Embora ambos
saibam o que é, o paciente gostaria de nunca ter ouvido falar em câncer. Tal é
o conhecimento que Adão e Eva passaram a ter.
Deus tinha prometido que a salvação
viria com o nascimento do Messias, O qual destruiria Satanás. Talvez Adão e Eva
ficassem tentados a alcançar a vida eterna comendo o fruto da árvore da vida.
Antes, eles escolheram o conhecimento em lugar da vida. Agora, assim como os
israelitas tentaram tardiamente tomar posse de Canaã (Números 14:39-45), o homem
caído também poderia tentar alcançar a vida por meio da árvore no meio do
jardim.
Ao que parece, se Adão e Eva comessem
da árvore da vida eles viveriam para sempre (versículo 22). Essa é a razão pela
qual Deus os lançou fora do jardim (versículo 23). No versículo 24, o “lançar
fora” dos dois é chamado mais dramaticamente de “expulsão”. Fixados na entrada
do jardim estão querubins e uma espada flamejante.
Alguns talvez tenham vontade de dizer:
“Mas quanta crueldade e intolerância!” Num jargão jurídico atual, é provável
que isso fosse chamado de “castigo cruel e desumano”. No entanto, pense por um
instante antes de falar. O que teria acontecido se Deus não tivesse expulsado
os dois do jardim e proibido seu retorno? Posso dar a resposta com uma só
palavra — INFERNO. Inferno é dar aos homens tanto o que eles querem quanto o
que merecem (Apocalipse 16:6), para sempre. Inferno é passar a eternidade em
pecado, separado de Deus:
Estes sofrerão penalidade eterna de
destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder. (2
Tessalonicenses 1:9)
Deus foi misericordioso e gracioso
colocando Adão e Eva para fora do jardim. Ele os preservou do castigo eterno.
Sua salvação não viria num piscar de olhos, mas no tempo certo; não com
facilidade, mas com dor — mas viria. Eles precisavam confiar nEle para
alcançá-la.
Quando leio este capítulo, não posso
deixar de pensar palavras do apóstolo Paulo: “Considerai, pois, a bondade e a
severidade de Deus”. (Romanos 11:22)
Há pecado e há julgamento. Mas o
capítulo é entrelaçado com a graça. Deus buscou os pecadores. Ele também os
sentenciou, mas com a promessa de salvação futura. E Ele os preservou do
inferno na terra; e lhes deu uma cobertura para o tempo e completa redenção no
devido tempo. Que Salvador!
Antes de voltar nossa atenção para a
aplicação deste capítulo à nossa própria vida, vamos considerar por um momento
o que esta passagem significou para o povo dos dias de Moisés. Eles já tinham
sido libertos do Egito e a Lei já tinha sido dada. Mas eles ainda não tinham
entrado na terra prometida.
O propósito dos livros de Moisés (incluindo Gênesis) está no capítulo 31 de
Deuteronômio:
Tendo Moisés acabado de escrever,
integralmente, as palavras desta lei num livro, deu ordem aos levitas que
levavam a Arca da Aliança do Senhor, dizendo: tomai este livro da lei e ponde-o
ao lado da Arca da Aliança do Senhor, vosso Deus, para que ali esteja por
testemunho contra ti. Porque conheço a tua rebeldia e a tua dura cerviz. Pois,
se vivendo eu, ainda hoje, convosco, sois rebeldes contra o Senhor, quanto mais
depois da minha morte? Ajuntai perante mim todos os anciãos das vossas tribos e
vossos oficiais, para que eu fale aos seus ouvidos estas palavras, e contra
eles, por testemunhas, tomarei os céus e a terra. Porque sei que, depois da
minha morte, por certo, procedereis corruptamente e vos desviareis do caminho
que vos tenho ordenado; então, este mal vos alcançará nos últimos dias, porque
fareis mal perante o Senhor, provocando-o à ira com as obras das vossas mãos.
(Deuteronômio 31:24-29)
Em muitos aspectos, o Éden foi um tipo
da terra prometida, e Canaã um antítipo. Canaã, como o Paraíso, era um lugar de
beleza e abundância, uma “terra que mana leite e mel” (cf. Deuteronômio 31:20).
Israel teria bênção e prosperidade enquanto fosse obediente à Palavra de Deus
(Deuteronômio 28:1-14). Se a lei de Deus fosse deixada de lado, eles teriam
sofrimento, derrota e pobreza, e seriam expulsos da terra (28:15-68). Na
verdade, Canaã era uma oportunidade para Israel experimentar, até certo ponto,
as bênçãos do Éden. Lá, como no Éden, o povo de Deus tinha de tomar uma
decisão: “Vê que proponho, hoje, a vida e o bem, a morte e o mal.”
(Deuteronômio. 30:15).
Gênesis capítulo três está longe de ser
apenas teoria ou simples história. O capítulo foi uma palavra de advertência. O
que aconteceu no Éden aconteceria de novo em Canaã (cf. Deuteronômio 31:16 e
ss). Eles seriam tentados a desobedecer, assim como foram Adão e Eva.
Considerações importantes sobre este capítulo e suas implicações eram essenciais
para o futuro de Israel.
O capítulo é também claramente
profético, pois Israel desobedeceu e escolheu o caminho da morte, exatamente
como o primeiro casal lá no jardim. Tal como Adão e Eva foram lançados fora do
jardim, Israel foi levado da terra prometida. Contudo, há também esperança,
pois Deus prometeu um Redentor, que nasceria da mulher (Gênesis 3:15). Deus
castigaria Israel e o traria de volta à terra (Deuteronômio 30:1 e ss). Mesmo
assim, Israel ainda não seria fiel ao seu Deus. Eles precisavam olhar para o
Messias de Gênesis 3:15 para lhes dar restauração plena e permanente. A
história de Israel, portanto, está resumida em Gênesis 3.
Há muitas aplicações para nós também.
Não podemos ignorar as estratégias de Satanás (2 Coríntios 2:11). A maneira
como ele tenta foi repetida no testemunho de nosso Senhor no deserto (Mateus
4:1-11; Lucas 4:1-2). E ele continua a nos tentar da mesma forma ainda hoje.
Gênesis três é vital para os cristãos
de nossos dias porque o capítulo sozinho explica as coisas como elas realmente
são. Nosso mundo é uma mistura de beleza e de crueldade, de encanto e de
horror. A beleza que ainda resta é evidência da bondade e da grandeza do Deus
que criou todas as coisas (cf. Romanos 1:18 e ss). As coisas horríveis são
evidência da pecaminosidade do homem (Romanos 8:18-25).
Pelo que sei, o presente estado da
criação de Deus foi um dos elementos cruciais na mudança de Darwin da ortodoxia
para a dúvida e negação. Ele não viu a ordem da criação e disse para si mesmo:
“Nossa, isso deve ter ocorrido por acaso”. Pelo contrário, ele viu a crueldade
e a fealdade e concluiu: “Como um Deus amoroso e todo-poderoso poderia ser
responsável por isso?” A resposta, é claro, se encontra no texto de Gênesis
capítulo três: o pecado do homem virou a criação de Deus de ponta-cabeça.
A única solução é Deus fazer alguma
coisa para trazer redenção e restauração. Isso já foi realizado em Jesus
Cristo. O castigo pelos pecados do homem foi suportado por Ele. As
consequências do pecado de Adão não precisam nos destruir. A escolha que está
diante de nós é esta: Queremos estar unidos com o primeiro Adão ou com o
último? No primeiro, fomos feitos pecadores e estamos sujeitos à morte física e
espiritual. No último, nós nos tornamos novas criaturas, com vida eterna
(física e espiritual). Deus não colocou duas árvores diante de nós, mas dois
homens: Adão e Cristo. Precisamos decidir com qual deles vamos nos identificar.
Em um dos dois repousa o nosso futuro eterno.
Há também muito a aprender sobre o
pecado. Em essência, pecado é desobediência. Observe que o primeiro pecado não
parecia muito sério. Poderíamos pensar nele como uma coisa trivial. Sua
gravidade, no entanto, pode ser vista em dois fatos importantes, os quais são
muito claros no nosso texto.
Primeiro, o pecado é sério por causa
das suas raízes. Comer o fruto proibido não foi a essência do pecado, só sua
manifestação. Não foi a origem dele, só seu símbolo. Partilhar aquele fruto é
semelhante a compartilhar os elementos, pão e vinho, da mesa do Senhor, ou
seja, é um ato que expressa algo muito mais intenso e profundo. Assim, a raiz
do pecado de Adão e Eva foi sua rebelião, incredulidade e ingratidão. Sua
atitude foi uma escolha deliberada de desobedecer a uma instrução clara de
Deus. Eles não quiseram aceitar com gratidão as coisas boas como provenientes
de Deus, e Sua única proibição também como uma coisa boa. Pior ainda, eles
viram Deus como alguém perverso, miserável e ameaçador, exatamente como Satanás
O retratou.
Segundo, o pecado é sério por causa dos
seus frutos. Adão e Eva não experimentaram um nível superior de existência, mas
vergonha e culpa. O pecado não lhes deu mais prazer, mas estragou o que antes
eles tinham sem sentir vergonha. Pior ainda, o pecado causou a queda de toda a
raça humana. Os efeitos da queda são vistos no restante da Bíblia. Vemos as
consequências desse pecado ainda hoje, na nossa vida e na nossa sociedade. A
consequência do pecado é julgamento. Esse julgamento é tanto presente como
futuro (cf. Romanos 1:26-27).
Eu lhe digo, meu amigo, Satanás sempre
ressalta os prazeres do pecado enquanto mantém a nossa mente longe das suas
consequências. O pecado nunca vale seu preço. Ele é como andar pela Feira
Estadual do Texas: o trajeto é curto, mas o preço é alto — extremamente alto.
Mas, vamos deixar os pecados de Adão e
Eva de lado. Não seria surpresa alguma saber que as tentações de hoje são as
mesmas do jardim. Nem os pecados.
A Avenida Madison, em Nova York, tem
sido a causa de um grande mal. Os anúncios nos fazem esquecer das muitas
bênçãos que possuímos e nos levam a pensar só naquilo que não temos. Eles
sugerem que a vida só pode ser bem vivida se tivermos determinadas coisas. Por
exemplo, dizem que “Coca-Cola é vida”. Não, não é, ela simplesmente estraga
seus dentes. E, assim, somos levados a não considerar o custo ou as
consequências de satisfazer a nós mesmos com mais uma coisa que queremos. A
gente “põe com cartão”.
Creio que um sorrisinho esteja se
formando no seu rosto. Talvez você ache que estou indo longe demais. Mas pense
no que o Apóstolo Paulo diz sobre o significado das verdades do Antigo
Testamento para a nossa época:
Ora, irmãos, não quero que ignoreis
que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo
sido todos batizados, assim na nuvem, como no mar, com respeito a Moisés. Todos
eles comeram de um só manjar espiritual, e beberam da mesma fonte espiritual,
porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo.
Entretanto, Deus não se agradou da maioria deles, razão porque ficaram
prostrados no deserto. Ora, estas coisas se tornaram exemplos para nós, a fim
de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. (1 Coríntios 10:1-6)
O que afastou Adão e Eva da bênção
eterna foi seu desejo de ter prazer às custas de incredulidade e desobediência.
Foi assim também, Paulo escreve, com Israel (1 Coríntios. 10:1-5). Hoje, nós
enfrentamos as mesmas tentações, mas Deus nos dá meios suficientes para
alcançarmos a vitória. Que meios são esses?
(1) Precisamos
entender que as negativas (não faça, não pode) vêm das mãos de um Deus bondoso
e amoroso.
Nenhum bem sonega aos que andam
retamente. (Salmo 84:11)
(2) Precisamos
perceber que as negativas são um teste para a nossa fé e obediência:
Recordar-te-ás de todo o caminho,
pelo qual o Senhor teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te
humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias
ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te
sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram, para
te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede
da boca do Senhor, disso viverá o homem. Nunca envelheceu a tua veste sobre ti,
nem se inchou o teu pé nestes quarenta anos. Sabe, pois, no teu coração que,
como um homem disciplina a seu filho, assim te disciplina o Senhor teu Deus.
(Deuteronômio 8:2-5)
Não fazer não significa que Deus esteja
nos privando da bênção, mas que está nos preparando para ela:
Pela fé Moisés, quando já homem
feito, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, preferindo ser maltratado
junto com o povo de Deus, a usufruir prazeres transitórios do pecado; porquanto
considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do
Egito, porque contemplava o galardão. (Hebreus 11:24-26, cf. Deuteronômio 8:6 e
ss).
(3) Quando somos
privados das coisas que pensamos desejar, é preciso ter cuidado para não pensar
naquilo que é negado e sim naquilo que nos é dado graciosamente, e por Quem. E,
então, é preciso fazer o que sabemos ser a vontade de Deus.
Antes, como te ordenou o Senhor teu
Deus, destrui-las-á totalmente: aos heteus, aos amorreus, Aos cananeus, aos
ferezeus, aos heveus, e aos jebuseus, para que não vos ensinem a fazer segundo
todas as suas abominações, que fizeram a seus deuses, pois pecaríeis contra o
Senhor vosso Deus. (Deuteronômio 20:17-18)
Não andeis ansiosos de coisa alguma;
em tudo, porém, sejam conhecidas diante de Deus as vossas petições, pela oração
e pela súplica, com ações de graça. E a paz de Deus, que excede todo o
entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus.
Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o
que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama,
se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso
pensamento. O que aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso
praticai; e o Deus da paz será convosco. (Filipenses 4:6-9)
Quase todos os dias nos encontramos
repetindo os pecados de Adão e Eva. Ficamos pensando naquilo que não podemos
ter. Começamos a desconfiar da bondade de Deus e da Sua graça para conosco.
Ficamos preocupados com coisas realmente sem importância. E, com frequência,
cheios de incredulidade, acabamos fazendo as coisas do nosso jeito.
Muitas vezes, vejo
alguns cristãos flertando com o pecado, sabendo que é errado e cientes das suas
consequências, mas tendo a falsa impressão de que o prazer é maior que seu
preço. Ledo engano! Foi exatamente esse o erro
de Adão e Eva.
Que Deus nos capacite a louvá-lO pelas
coisas que Ele nos nega, e a confiar nEle para as coisas realmente necessárias,
as quais Ele promete suprir.
Tradução e Revisão Mariza Regina de
Souza
“A abertura deste
diálogo é profundamente piedosa e a serpente se apresenta como um animal muito
sério e religioso. Ela não diz: “Sou um monstro ateu e agora vou tirar seu paraíso,
sua inocência e sua lealdade e vou virar tudo de cabeça pra baixo”. Pelo
contrário, ela diz: “Crianças, hoje vamos falar de religião, vamos discutir
sobre assuntos atuais”. How the World Began (Philadelphia: Fortress Press, 1961), p. 124.
2 Alguns apontam que
“Deus” (“como Deus”), no versículo 5, é o nome Elohim, o qual é plural. Eles
dizem que deveríamos traduzi-lo por “serão como deuses”. Essa possibilidade, embora
gramaticalmente permissível, não parece digna de consideração. A mesma palavra
(Elohim) é encontrada na primeira parte do versículo 5, onde Deus é mencionado.
3 No que diz respeito
ao conhecimento do bem e do mal, é preciso lembrar que o hebraico yd’(conhecer) não
significa simplesmente conhecimento intelectual, mas, num sentido mais amplo,
“ter experiência”, “tornar-se íntimo de”, ou mesmo “ter habilidade”. “Conhecer,
no mundo antigo, é também sempre ser capaz de” (Wellhausen). Em segundo lugar,
“bem e mal” não se restringem apenas ao campo moral. “Falar nem bem nem mal”
significa não dizer nada (Gn. 31:24, 29; 2 Sm. 13:22); fazer nem bem nem mal
significa não fazer nada (Sf. 1:12); conhecer nem bem nem mal (dito de crianças
ou idosos) significa não entender nada (ainda) ou (mais nada) (Dt. 1:39; 2 Sm.
19:35). “Bem e mal” é, portanto, uma maneira formal de se dizer o que queremos
dizer com o nosso sem graça “tudo”; e aqui também é preciso entender seu
significado em todos os sentidos”. Gehard Von Rad, Genesis (Philadelphia: Westminster Press, 1961), pp. 86-87.
4 “Ela partiu o fruto,
deu a seu marido e ele também comeu. Alguém poderia perguntar: Onde estava Adão
esse tempo todo? A Bíblia não nos diz. Presumo que ele estivesse lá, pois ela
lhe deu o fruto: “seu marido estava com ela”. Nada mais podemos dizer pela
simples razão de que a Bíblia não fala mais nada.” E. J. Young, In
the Beginning (Carlisle, Pennsylvania: The Banner of
Truth Trust, 1976), p. 102
5 A palavra descendente
(zera) pode ser usada tanto coletiva quanto
individualmente (cf. Gn. 4:25, 1 Sm. 1:11, 2 Sm. 7:12). Aqui em Gn. 3:15 é
usada em ambos os sentidos, creio eu. Kidner afirma: “os últimos, como a
descendência de Abraão, é coletivo (cf. Rm. 6:20) e, na batalha crucial,
individual (cf. Gl. 3:16), já que Jesus, como o último Adão, resume toda a raça
humana em Si mesmo”. Derek Kidner, Genesis (Chicago: Inter-Varsity Press, 1967), p. 71.
Related Topics: Hamartiology (Sin), Man (Anthropology)

Nenhum comentário:
Postar um comentário