4º Capitulo do livro “O Aposento Alto” De J.C.Ryle 1º Bispo da Diocese da Igreja da Inglaterra em Liverpool
“Pois o que primeiramente
lhes transmiti foi o que recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados,
segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou no terceiro dia,
segundo as Escrituras” (1Co 15.3,4).
O Apóstolo Paulo relembra aos coríntios
que, entre as coisas que “primeiramente” lhes havia ensinado havia dois
grandes fatos sobre Cristo: um era a Sua morte e o outro era a Sua ressurreição. Creio que a passagem nos introduz a dois assuntos extremamente relevantes:
I. Por um lado, precisamos prestar atenção às verdades primordiais que Paulo transmitiu aos coríntios.
II. Por outro lado, precisamos entender as razões que levaram Paulo a colocar essas verdades numa posição tão singularmente proeminente.
E por fim, iremos concluir com algumas aplicações dessas verdades
I. O que exatamente,
então, o que o Apóstolo PRIMEIRAMENTE PREGOU em Corinto? Antes de
responder a essa pergunta, devemos compreender a situação de Paulo
quando saiu de Atenas e entrou em Corinto.
Estamos diante de um judeu solitário que
visita uma grande cidade pagã pela primeira vez, a fim de pregar uma
religião inteiramente nova e iniciar uma agressiva missão
evangelizadora. É membro de um povo desprezado tanto por gregos quanto
por romanos, isolado e afastado de outras nações – em seu pequeno canto
da Terra – pelos seus peculiares hábitos e leis, e sem nenhum renome
entre os gentios, nem por sua literatura, nem por suas armas, artes ou
ciência. “Pessoalmente” esse valente judeu “não impressiona” e sua
“palavra”, em comparação com a dos retóricos gregos, é “desprezível” (2
Coríntios 10.10). Encontra-se quase sozinho numa cidade famosa em todo o
mundo, mesmo aos olhos pagãos, pelo seu luxo, imoralidade e idolatria.
Esse era o lugar e esse era o homem! Difícil imaginar uma situação mais
extraordinária.
E o que esse judeu solitário disse aos
coríntios? O que disse a respeito do Fundador da nova fé que ele
desejava que aceitassem no lugar de sua antiga religião? Começou
dizendo-lhes como Cristo havia vivido e como havia ensinado, operado
milagres e falado “como jamais homem algum falou”? Disse-lhes que Cristo
havia sido rico como Salomão, vitorioso como Josué ou erudito como
Moisés? Nada disso. O primeiro fato que Paulo proclamou a respeito de
Cristo foi que Ele tinha morrido, e que Sua morte havia sido do tipo
mais desonroso: a morte de um malfeitor, a morte de cruz.
E por que Paulo fez questão de falar primeiramente da morte de Cristo e não de Sua vida? Porque morreu pelos nossos pecados,
como Paulo disse aos coríntios. Uma profunda e maravilhosa verdade, uma
verdade que se encontra na base da religião que o Apóstolo havia ido
pregar! Porque a morte de Cristo não foi a morte de um mártir ou um mero
exemplo de abnegação. Foi a morte voluntária de um Substituto divino
dos culpados filhos de Adão, por meio da qual Ele fez expiação pelo
“pecado do mundo”. Foi uma morte de tão extraordinária importância para a
situação do pecador diante de Deus, que proporcionou uma redenção
completa das consequências da Queda. Em poucas palavras, Paulo disse aos
coríntios que, quando Cristo morreu, o fez como representante – e
substituto – do pecador, expiando nosso pecado pelo sacrifício de Si
mesmo e suportando o castigo que merecíamos: “Pois também Cristo
sofreu pelos pecados de uma vez por todas, o justo pelos injustos, para
conduzir-nos a Deus” (1 Pedro 3.18); “Deus tornou pecado por nós aquele
que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus”
(2 Coríntios 5.21). Um mistério grande e maravilhoso, sem dúvida! Mas
um mistério para o qual cada sacrifício havia sinalizado, desde a época
de Abel. Cristo morreu “segundo as Escrituras“.
Outro grande fato com respeito a Cristo que Paulo inseriu em seu ensino foi a ressurreição dentre os mortos.
Corajosamente disse aos coríntios que o mesmo Jesus que morreu e foi
sepultado saiu vivo da sepultura no terceiro dia, e que muitas
testemunhas O viram, tocaram n’Ele, falaram com Ele em pessoa. Por meio
desse assombroso milagre demonstrou, como frequentemente havia dito que
faria, que era o prometido e há tanto tempo esperado Salvador, que Deus o
Pai havia aceitado a satisfação pelos pecados por meio de Sua morte,
que tinha completado a obra da nossa redenção e que a morte, assim como o
pecado, era um inimigo vencido. Em resumo, o Apóstolo ensinou que havia
ocorrido o maior dos milagres, e que, com semelhante Fundador da nova
fé que tinha vindo proclamar, primeiro morrendo pelos nossos pecados e
depois ressuscitando para nossa justificação, não havia nada impossível
nem faltava coisa alguma para a salvação do homem.
Essas eram as duas grandes verdades que Paulo disse com prioridade quando iniciou sua campanha como mestre cristão em Corinto: a morte substitutiva de Cristo pelos nossos pecados e Sua ressurreição do sepulcro.
Duas verdades incomparáveis. Sem dúvida, adotar essa tática seria uma
dura prova para a fé e para a coragem de um homem culto e erudito como
Paulo. A carne e o sangue resistem a isso. Ele mesmo disse: “Pois
decidi nada saber entre vocês, a não ser Jesus Cristo, e este,
crucificado. E foi com fraqueza, temor e muito tremor que estive entre
vocês” (2 Coríntios 2.2,3). Pela graça de Deus, ele não desistiu.
O caso de Corinto não foi único. Onde
quer que fosse o Apóstolo dos gentios, pregava a mesma doutrina com
prioridade. Dirigiu-se a ouvintes heterogêneos, a pessoas com
mentalidades muito diferentes. Mas sempre valia-se do mesmo remédio,
seja em Jerusalém, seja em Antioquia, seja na Pisídia ou em Icônio, em
Listra, Filipos ou em Tessalônica, seja Beréia, Atenas, Éfeso ou em
Roma. Esse remédio era a história da Cruz e da Ressurreição. Permeia
todos os seus sermões e epístolas. Mesmo Festo, o governador romano,
quando conversa com Agripa sobre o caso de Paulo, descreve o Apóstolo
falando de “um certo Jesus, já morto, o qual Paulo insiste que está vivo” (Atos 25.19).
a) Vejamos agora quais eram os princípios essenciais dessa
“religião” que saiu há tantos séculos da Palestina e que mudou o mundo.
O maior dos descrentes não pode negar o efeito que o Cristianismo
produziu no gênero humano. O mundo antes e o mundo depois do
Cristianismo são tão diferentes como a luz da escuridão, como a noite e o
dia. Foi o Cristianismo que arruinou a idolatria pagã e esvaziou seus
templos, que deteve os combates dos gladiadores, elevou a posição da
mulher e melhorou as condições das crianças e dos pobres. Esses são
fatos que com certeza podem desafiar os inimigos da fé cristã. São fatos
que constituem uma dificuldade enorme para a filosofia ateísta. E o que
possibilitou todas essas conquistas? Não foi – como dizem alguns – a
mera difusão de um código moral elevado, uma espécie de platonismo
melhorado. Não! Foi a simples história da Cruz do Calvário e do sepulcro
vazio no jardim, a maravilhosa morte de Alguém “contado entre os
transgressores” (Is 53.12) e o assombroso milagre da Sua ressurreição.
Foi relatando fielmente como o Filho de Deus morreu pelos nossos pecados
e ressuscitou para a nossa justificação que os Apóstolos mudaram a face
do mundo, fundaram igrejas e transformaram um incontável número de
pecadores em santos.
b) Por outro lado, devemos aprender qual deve ser o fundamento de nossa própria religião pessoal se
verdadeiramente queremos ter vida espiritual saudável. Que os cristãos
primitivos possuíam essa qualidade de vida espiritual saudável é algo
claro como o Sol do meio-dia. No Novo Testamento lemos continuamente
sobre a alegria, a paz, a paciência e o contentamento. Lemos na história
eclesiástica sobre a coragem e firmeza dos cristãos diante da mais
feroz perseguição, de como suportaram o sofrimento e morreram de modo
triunfante. E qual foi a origem dessas características peculiares, que
despertaram a admiração até mesmo de seus piores inimigos e a
perplexidade de filósofos pagãos, como Plínio? Só pode haver uma
resposta. Esses homens haviam abraçado firmemente os dois grandes fatos
que Paulo proclamou “primeiramente” aos coríntios: a morte e a ressurreição de Jesus Cristo,
o Senhor. Jamais nos envergonhemos de seguir seus passos! É fácil
zombar da “teologia sistemática”, de credos, confissões doutrinárias e
declarações de fé como se fossem coisas antigas e ultrapassadas,
impróprias para o nosso tempo. Mas, afinal de contas, quais são os
frutos da filosofia moderna e do ensino frio e insípido do humanismo em
comparação com os desprezados dogmas do Cristianismo bíblico? Se alguém
quiser ter paz nesta vida, esperança na morte e experimentar conforto e
consolação no sofrimento, jamais encontrará tais bênçãos, exceto entre
aqueles que descansam nos dois grandes fatos de nosso texto, e que podem
dizer: “A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no Filho de
Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2.20). Sim, o coração
humano somente encontra repouso nos “dogmas” tão desprezados pelos
filósofos humanistas!
II. Permitam-me passar
agora a outra ideia a respeito do tema que estamos tratando. Vimos quais
foram as verdades que Paulo proclamou “primeiramente” aos coríntios e
quais foram os efeitos que produziram. Tentaremos agora compreender e
examinar AS RAZÕES que o levaram a colocá-las numa posição tão
preeminente.
Essa questão é muito interessante. Não
posso sustentar, como fazem alguns, que Paulo adotou tal procedimento
somente porque assim lhe foi ordenado pelo Senhor. Creio que as razões
são muito mais profundas. Essas razões devem ser procuradas nas necessidades humanas e no estado decaído da natureza humana.
Creio que as carências humanas jamais seriam satisfeitas por uma
mensagem diferente daquela pregada pelo Apóstolo Paulo em Corinto; e se
não tivesse procedido desse modo, seu trabalho ali teria sido em vão.
Porque há três coisas óbvias a respeito
de todo homem, quando examinamos sua natureza, sua posição e sua
constituição. O homem é uma criatura com um sentimento de pecado e de
responsabilidade no mais íntimo de seu coração; uma criatura que
experimenta a dor e o sofrimento desde o berço até a sepultura; e uma
criatura que tem diante de si a certeza da morte e de um estado futuro
final. Esses são três grandes fatos com os quais nos enfrentamos
inexoravelmente em todo o mundo, em todas as culturas. Percorra todo o
planeta e você encontrará esses fatos tanto nos cristãos mais educados
quanto nos pagãos mais incultos. Percorra seu próprio país, e você os
encontrará tanto no camponês quanto no filósofo. Em todos os lugares, em
todas as classes sociais, você encontrará o mesmo. E a tese que defendo
é a seguinte: que não é possível imaginar ou conceber nada mais
admiravelmente adequado para satisfazer a necessidade da natureza humana
do que a mesma doutrina que Paulo pregou em Corinto: a doutrina da
morte de Cristo pelos nossos pecados e Sua ressurreição do sepulcro por
nós. Tal doutrina ajusta-se perfeitamente à necessidade humana, tal como
a chave correta se encaixa em sua fechadura.
Permitam-me expor brevemente as três
coisas que acabo de mencionar e tentarei mostrar a intensa luz que
lançam sobre a escolha que Paulo fez daquilo que deveria pregar em
Corinto.
a) Consideremos, em primeiro lugar, o sentimento interior de pecado e imperfeição que
existe, em maior ou menor grau, em cada membro da família humana.
Admito abertamente que difere grandemente entre diferentes pessoas. Em
milhares de indivíduos parece como que houvesse desaparecido por
completo. A falta de educação, o pecado constante, a rejeição contínua
da fé cristã, a indulgência habitual em todos os desejos da carne: tudo
isso tem a capacidade fantástica de cegar os olhos e cauterizar a
consciência. Mas onde você encontrará um homem – exceto entre os
brâmanes de castas altas ou entre cristãos lunáticos – que se atreva a
afirmar que é perfeito e que não confesse, se seriamente questionado,
que não é exatamente quem deveria ser e que sabe que deve fazer o bem,
mas não o faz? Oh, não! A grande maioria dos seres humanos tem uma
consciência de pecado que de vez em quando os faz sentir-se em completa
desgraça. A austeridade auto-imposta dos hindus ou o temor de
governantes como Herodes e Félix são provas do que quero dizer. Onde
quer que haja um filho de Adão, há uma criatura consciente, no mais
íntimo de seu coração, da culpa, de seus defeitos e de sua necessidade.
E quando esse sentimento de pecado
desperta e nos atormenta, quem pode curá-lo? Alguns falam vagamente da
“misericórdia” e da “bondade” de Deus, mesmo sendo completamente
incapazes de explicar seu significado ou de explicar que direito tem o
homem a elas. Outros se convencem a si mesmos de que seu próprio
arrependimento, suas lágrimas e orações, e a prática ativa e diligente
de ritos religiosos lhes trará paz. Mas que filho de Adão obteve paz
dessa maneira? Jamais coisa alguma fez bem à alma humana exceto a visão
do divino Mediador entre Deus e os homens, a Pessoa real e viva,
onipotente e cheia de misericórdia de Jesus Cristo, que suportou nossos
pecados, sofreu em nosso lugar, e levou sobre si o fardo de nossa
redenção. Enquanto o homem olhar somente para si mesmo e buscar
limpar-se do sentimento de pecado pelas suas próprias forças, conseguirá
apenas sentir-se mais e mais perdido e condenado. Mas quando olhar para
fora, para “Jesus Cristo, homem” morrendo por seus pecados, e
descansar sua alma n’Ele, encontrará, como encontraram milhões através
dos séculos, exatamente o que necessita a sua alma ferida. Em suma, a fé
na morte de Cristo pelos nossos pecados é o remédio que Deus
providenciou para a necessidade espiritual do homem. É a cura divina
para essa praga letal que infecta toda a humanidade e que faz com que
todos os homens sintam-se condenados. Se Paulo não tivesse proclamado
essa cura em Corinto, teria demonstrado uma grande ignorância sobre a
natureza humana e teria sido um médico sem valor. E se nós, ministros do
evangelho, não a proclamamos é porque nossos olhos estão fechados e não
temos luz.
b) Consideremos agora a tendência universal do homem ao sofrimento. As Escrituras dizem que “o homem nasce para as dificuldades”
(Jó 5.7) e tal afirmação é continuamente experimentada por milhões que
nunca conheceram a Palavra de Deus. Todos concordam que o mundo está
cheio de problemas. É um ditado correto que chegamos a esta vida
chorando, passamos por ela reclamando e a abandonamos decepcionados. De
todas as criaturas de Deus, nenhuma é tão vulnerável quando o homem. O
corpo, a mente, os sentimentos, a família e a propriedade, são todos
suscetíveis de transformar-se em fontes de dor e agonia. E não há classe
social ou hierarquia que seja imune a essas coisas. Tanto ricos quanto
pobres experimentam a dor, os eruditos e os incultos, os jovens e os
velhos; a dor está presente no castelo e no casebre, e nem a riqueza,
nem a ciência, nem a posição social elevada podem evitar que a dor
invada nossas casas e nos assalte sem prévio aviso, como um homem
armado. Essas são questões antigas, eu sei; os poetas e filósofos da
antiga Grécia e mais tarde de Roma as conheciam tão bem quanto nós. Mas
devemos sempre manter esses fatos em nossas mentes.
O que nos ajudará a resistir e suportar a
dor? Se nosso estado é tal, desde a Queda, que simplesmente não podemos
fugir à dor e ao sofrimento, como poderemos torná-los mais suportáveis?
As frias lições do estoicismo carecem de poder para isso. É fácil
teorizar sobre resignação e submissão à vontade de Deus quando tudo está
bem. Mas quando a tempestade chega e os corações desfalecem, fluem as
lágrimas e surgem brechas em nosso círculo familiar, quando o dinheiro
se evapora e chega até nós a doença, simplesmente queremos algo mais do
que princípios filosóficos abstratos e lições de moral. Queremos um
Amigo pessoal e vivo, um Amigo a quem possamos nos dirigir com plena
confiança, sabendo que Ele pode nos ajudar eficazmente.
Dito isso, minha opinião é que
exatamente aqui resplandece com tremendo poder a doutrina que Paulo
pregou aos coríntios, sobre Cristo ressuscitado. Esse Cristo satisfaz
exatamente as nossas necessidades! Temos Alguém assentado à direita de
Deus como nosso Amigo, e Ele tem poder para nos ajudar. Jesus, o Filho
de Deus, se compadece de nossas fraquezas, conhece o coração do homem e
toda a sua situação, porque Ele mesmo nasceu de uma mulher e participou
da carne e do sangue. Sabe o que é dor, porque Ele mesmo chorou, gemeu e
sofreu nos dias da Sua carne. Demonstrou Seu amor por nós – nos
“aturou” (At 13.18) – durante trinta e três anos, por meio de inúmeros
atos de bondade e incontáveis palavras de consolação. E morreu
finalmente por nós na cruz. E antes de abandonar este mundo disse
palavras como estas: “Não se turbe o coração de vocês. Creiam em Deus; creiam também em mim” (João 14.1). “Não os deixarei órfãos; voltarei para vocês” (João 14.18). “Peçam e receberão, para que a alegria de vocês seja completa”
(João 16.24). Não posso imaginar uma verdade que melhor se ajuste às
necessidades do homem como esta. As regras, princípios e prescrições em
tempos de dor têm a sua utilidade; mas o que o coração humano anela é um
Amigo pessoal para apoiar-se e com o qual possa ter comunhão. O Cristo
ressuscitado e vivo que intercede por nós à destra de Deus é
precisamente o Amigo que necessitamos. Se Paulo não tivesse proclamado
isso aos coríntios, teria deixado de satisfazer uma das maiores
necessidades do ser humano. O homem não encontrará satisfação em nenhuma
religião ou espiritualidade que não preencha as maiores carências da
natureza humana. Os mestres que não cedem espaço ao Cristo ressuscitado e
vivo em seus sistemas teológicos não deveriam ficar surpresos se os
seus cansados ouvintes porventura busquem refúgio aos pés de religiões
humanas ou mesmo do catolicismo romano.
c) Consideremos, em último lugar, a certeza da morte e de suas consequências que todo filho de Adão sabe que enfrentará um dia.
Dizer que a morte é algo grave é
expressar o óbvio. O fim de cada indivíduo continua sendo uma
circunstância transcendental em sua história e a maioria dos homens
honrados assim o confessam. Abandonar o mundo e fechar os olhos para
tudo aquilo com o que nos relacionamos, entregar nossos corpos à
humilhação da fraqueza, da decadência e do sepulcro; sermos obrigados a
abandonar todos os nossos planos e propósitos; tudo isso é bastante
grave. Mas quando acrescentamos o perturbador pensamento de que há algo
além, algum tipo de prestação de contas pela nossa vida na Terra, a
morte de qualquer homem ou mulher transforma-se num acontecimento muito
mais do que grave. Bem falou Shakespeare, nosso grande poeta, do “pavor de algo além da morte“.
É um temor que muitos sentem bem mais do que gostariam de admitir.
Poucos encontram paz no fatalismo maometano, e menos ainda na doutrina
da aniquilação.
De fato, não há nenhuma questão na qual
as religiões não inspiradas da Antiguidade ou os sistemas filosóficos
modernos sejam derrubados de tal forma como diante da questão da morte.
Morar para sempre nos Campos Elíseos[1],
entre fantasmas espectrais, era um fim não desejado nem mesmo pelos
heróis homéricos. A teoria vaga e infundada de um estado de repouso
depois da morte onde, de algum modo, as almas dos bons e justos,
separadas de seus corpos, passam uma existência infindável sem propósito
ou atividade é realmente um triste consolo. Homero, Platão,
Bolingbroke, Voltaire e Paine ficam mudos e estarrecidos diante da visão
de um sepulcro aberto.
Mas exatamente no ponto onde todos os
sistemas criados pelos homens são mais fracos e incapazes de satisfazer
as necessidades da natureza humana, é justamente onde o Evangelho
proclamado por Paulo em Corinto é mais forte. Porque ele nos revela um
Salvador Todo-Poderoso que não somente morreu pelos nossos pecados e
descendeu ao sepulcro, mas que também ressuscitou corporalmente e
demonstrou Sua vitória sobre a morte: “Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dentre aqueles que dormiram”
(1 Coríntios 15.20); “Ele tornou inoperante a morte e trouxe à luz a
vida e a imortalidade por meio do evangelho” (2Tm 1.10); “E libertasse
aqueles que durante toda a vida estiveram escravizados pelo medo da
morte” (Hb 2.15).
E demos graças a Deus porque Cristo não
obteve essa vitória sobre a morte e o sepulcro unicamente para Si mesmo.
Desde então Ele tem capacitado a milhões de homens e mulheres cristãos,
que têm crido n’Ele e têm confiado n’Ele, para afrontar o rei dos
terrores sem temor e descer ao vale da sombra da morte com a esperança
firme e segura de que sairão vitoriosos e verão, em sua carne, a Deus.
Leia a história das mortes dos cristãos primitivos sob a perseguição
pagã. Considere como morreram os que sofreram pelo protestantismo em
Oxford e Smithfield sob a rainha Maria. Encontre, se puder, entre todas
as biografias, leitos de morte de não convertidos que possam comparar-se
aos de cristãos em questão de paz, esperança e grande consolação. Você
poderá buscar eternamente, sem encontrá-los. Você chegará à conclusão de
que a velha verdade escriturística da morte e da ressurreição de Cristo
é exatamente a verdade que se ajusta perfeitamente à natureza humana e,
como tal, somente pode ter vindo de Deus. Isto, e somente isto, pode
capacitar o homem para enfrentar o último inimigo sem temor e proclamar:
“Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão?” (1 Coríntio 15.55).
Que diremos de todas essas coisas? Sei
muito bem que o coração humano e suas carências são questões profundas e
complexas. Mas depois de estudar atentamente os corações dos homens
durante muitos anos, tenho chegado a uma firme convicção. Essa convicção
é que a verdadeira razão pela qual Paulo pregou, em primeiro lugar e
antes de mais nada, aquilo que ele pregou em Corinto, encontra-se em seu correto entendimento da natureza, do estado moral e da posição do homem.
O Espírito Santo de Deus ensinou Paulo que esse era o único remédio
adequado para semelhante enfermidade. A natureza humana precisa de uma
religião para os pecadores, um remédio e um Redentor pessoal; e a Pessoa
e a obra de Cristo ajustam-se maravilhosamente a esses requisitos.
Estamos doentes de uma doença mortal e nossa principal necessidade é de
um Médico vivo.
Teria sido completamente inútil que
Paulo começasse sua obra em Corinto dizendo aos homens que fossem
virtuosos e moralistas, sem falar-lhes primeiramente de Cristo. É
igualmente inútil hoje em dia. É até claramente maléfico. Clamar à
natureza humana sem mostrar-lhe logo o remédio de Deus pode levar a
consequências atrozes. Não conheço caso mais lamentável do que o de um
homem que vê claramente o pecado, o sofrimento e a morte por um lado,
mas que não vê claramente a Cristo morrendo pelos seus pecados e
ressuscitando de outro lado. Desse modo o indivíduo cai em desespero,
tornando-se presa fácil de teologias espúrias, como a enganosa teologia
do catolicismo romano. Sem dúvida podemos dormir o sono dos descrentes
durante muitos anos e não sentir medo ou dúvidas espirituais. Mas uma
vez que a consciência do homem desperta e começa a desejar a Paz, não
conheço remédio que possa curar-lhe e proteger-lhe do erro que destrói
as almas, exceto o que Paulo transmitiu “primeiramente” em Corinto: as
doutrinas da morte expiatória e da ressurreição de Cristo.
III. E agora
permitam-me CONCLUIR esta reflexão com alguns conselhos. Conselhos que,
creio, são adequados aos nossos tempos. Quem sabe se estas palavras
possam ser de grande auxílio para muitos!
a) Permita-me, pois,
aconselhá-lo encarecidamente que você não se envergonhe de sustentar
ideias firmes a respeito das coisas mais importantes, isto é, as verdades fundamentais do Cristianismo.
Sua sorte está lançada numa época de livre pensamento, de liberalismo,
em que tudo é questionado. Existe uma ampla rejeição à firmeza
doutrinária e tudo o que se denomina dogmatismo, e talvez não há ninguém
mais exposto a essa mentalidade do que o jovem. A generosidade, a
candidez e o desejo de agradar dos jovens fazem com que muitos abandonem
ideias teológicas muito “categóricas”. A tentação da atualidade é
contentar-se com um vago “fervor” espiritual, e abster-se de qualquer
ideia preciosa e distintiva; a ser “membro honorário” de todas as
escolas de pensamento e sustentar que nenhum homem pode estar certo da
verdade.
b) No entanto, a sua fé deve ter raízes para
conseguir viver e se desenvolver neste mundo. Flores, por mais belas
que sejam, não têm capacidade de perdurar se não tiverem raízes
profundas. Admitindo plenamente que no Cristianismo existem coisas
secundárias sobre as quais os jovens podem abster-se corretamente de
julgar até obterem mais luz, eu lhe peço que se lembre que existem
coisas prioritárias sobre as quais você deve, sim, ter uma
opinião. Afirmo que você deve fazê-lo se quiser ter paz interior e ser
útil para a sociedade. E entre essas coisas prioritárias destacam-se
como montanhas numa planície as duas grandes verdades que Paulo pregou
aos coríntios: a morte de Cristo pelos nossos pecados e a Sua
ressurreição. Apegue-se firmemente a essas duas grandes verdades. Firme
sua vida sobre elas. Alimente sua alma com elas. Viva delas. Morra com
elas. Não se separe jamais delas: “Eu sei em quem tenho crido”. Não em que, mas em quem.
Vivo pela fé n’Aquele que morreu e ressuscitou por mim. Tenha isso
claro, não importa o preço a pagar. E em seu devido tempo todas as
outras verdades das Escrituras serão acrescentadas.
c) Talvez alguns que leiam esta reflexão estejam passando da tranquilidade de um lar feliz para o campo de batalha da dor e do sofrimento.
Mas onde quer que você esteja agora, seja na cidade ou no campo, seja
entre os ricos ou entre os pobres, espero que você faça sempre o bem. E
lembre-se que um grande problema que você terá que resolver
constantemente é como ajudar as almas que se encontram sob o fardo do
pecado, esmagadas pelo peso da dor e oprimidas pelo terror da morte. E
quando chegar esse momento, lembre-se das palavras que lhe digo hoje: A
única forma de fazer o bem é seguir os passos de Paulo e dizer aos
homens, em primeiro lugar e antes de qualquer outra coisa, constante e
publicamente, de porta em porta, que Jesus Cristo morreu pelos nossos
pecados e ressuscitou para a nossa justificação, que vive à direita de
Deus para interceder, perdoar e preservar; e que logo voltará para nos
proporcionar uma ressurreição gloriosa. Estas são as verdades que o
Espírito Santo tem abençoado sempre, está abençoando e sempre abençoará
até que o Senhor venha. Essas foram as coisas que Paulo ensinou
“primeiramente”. Decida e determine que essas também serão verdades
prioritárias para você.
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ORE PARA QUE O ESPIRITO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA EDIFICAÇÃO DE MUITOS E SALVAÇÃO DE PECADORES.
FONTE
Fonte: RYLE, J. C. El Aposento Alto. Moral de Calatrava (Ciudad Real): Peregrino, 2005, pp. 50-65. Traduzido e adaptado de um sermão pregado por Ryle na Universidade de Oxford, no ano 1880
Tradução do blog “Calvinismo Hoje”,
Por Fábio Vaz dos Santos
Divulgação e formatação
Projeto Ryle – Anunciando a verdade Evangélica.
Capa: Victor Silva
| Você tem permissão de livre uso desse material, e é incentivado a distribuí-lo, desde que sem alteração do conteúdo, em parte ou em todo, em qualquer formato: em blogs e sites, ou distribuidores, pede-se somente que cite o site “Projeto Ryle” como fonte, bem como o link do site http://www.projetoryle.com.br/ Caso você tenha encontrado esse arquivo em sites de downloads de livros, não se preocupe se é legal ou ilegal, nosso material é para livre uso para divulgação de Cristo e do Evangelho, por qualquer meio adquirido, exceto por venda. É vedada a venda desse material. |
O texto acima foi traduzido e adaptado por F.V.S. de um sermão pregado por Ryle na Universidade de Oxford, no ano 1880.
Fonte: RYLE, J. C. El Aposento Alto. Moral de Calatrava (Ciudad Real): Peregrino, 2005, pp. 50-65.
[1] Na
mitologia grega, os Campos Elísios é o paraíso, um lugar do mundo dos
mortos governado por Hades, oposto ao Tártaro (lugar de eterno tormento e
sofrimento). Nos Campos Elísios os homens virtuosos repousavam
dignamente após a morte, rodeados por paisagens verdes e floridas,
dançando e se divertindo noite e dia (Wikipédia)