Vamos
iniciar perguntando o que é um “evangelho”. O termo é a tradução da
palavra grega euaggelion, “boas novas”, usada a princípio para se
referir ao conteúdo da mensagem de Jesus Cristo e dos seus apóstolos.
Posteriormente, a palavra veio se referir a um gênero literário
específico que nasceu com o Cristianismo no séc. I. Lembremos que o
Cristianismo, em termos culturais, ocasionou o surgimento, não somente
de novas músicas, mas também de gêneros literários como epístolas e
evangelhos.
Esse
novo gênero literário tinha algumas características distintas. Incluía
obras escritas entre o séc. I e o séc. IV por autores cristãos que
giravam em torno da pessoa de Cristo, sua obra e seus ensinamentos.
Essas obras reivindicam autoria apostólica ou de alguma outra personagem
conhecida da tradição cristã. Reivindicavam também que seu conteúdo
remontava ao próprio Jesus.
Existem centenas de “evangelhos” conhecidos.
Alguns são apenas mencionados na literatura dos Pais da Igreja e deles
não temos qualquer amostra do conteúdo. Outros sobreviveram em
fragmentos ou reproduzidos em parte em outras obras, como, por exemplo:
Evangelho dos Hebreus
Evangelho dos Ebionitas (ou dos Doze Apóstolos)
Evangelho dos Egípcios
Evangelho Desconhecido
Evangelho de Pedro, para mencionar alguns.
Já outros, sobreviveram em cópias completas ou quase, como:
Evangelho dos Ebionitas (ou dos Doze Apóstolos)
Evangelho dos Egípcios
Evangelho Desconhecido
Evangelho de Pedro, para mencionar alguns.
Já outros, sobreviveram em cópias completas ou quase, como:
Os Evangelhos canônicos de Mateus, de Marcos, Lucas e de João,
Evangelho de Tomé
Evangelho de Judas
Evangelho de Nicodemus
Proto-Evangelho de Tiago
Evangelho de Tomé o Israelita
Livro da Infância do Salvador
História de José, o Carpinteiro
Evangelho Árabe da Infância
História de José e Asenate
Evangelho Pseudo-Mateus da Infância
Descida de Cristo ao Inferno
Evangelho de Bartolomeu
Evangelho de Valentino, entre outros.
Esses evangelhos são tradicionalmente classificados em canônicos e apócrifos.
Evangelho de Tomé
Evangelho de Judas
Evangelho de Nicodemus
Proto-Evangelho de Tiago
Evangelho de Tomé o Israelita
Livro da Infância do Salvador
História de José, o Carpinteiro
Evangelho Árabe da Infância
História de José e Asenate
Evangelho Pseudo-Mateus da Infância
Descida de Cristo ao Inferno
Evangelho de Bartolomeu
Evangelho de Valentino, entre outros.
Esses evangelhos são tradicionalmente classificados em canônicos e apócrifos.
Evangelhos Canônicos
Nessa primeira categoria se enquadram somente 4
evangelhos, os Sinóticos e João. Conforme a tradição patrística e da
Igreja em geral, eles foram escritos no séc. I pelos apóstolos de Jesus
Cristo ou alguém do círculo apostólico. Marcos teria sido o primeiro a
ser escrito, no início da década de 60, por João Marcos, que segundo a
tradição, registrou o testemunho ocular de Simão Pedro. Ele escreveu
aos cristãos de Roma para ajudá-los e fortalecê-los diante das
perseguições.
Mateus teria sido escrito em meados da década de
60 por Mateus, o publicano apóstolo, para evangelizar os judeus, a
partir do seu testemunho ocular e usando talvez o Evangelho de Marcos
como base para a estrutura da narrativa.
Lucas, escrito pelo médico gentio Lucas,
convertido ao Cristianismo, que foi companheiro de viagem de Paulo e
que freqüentava o círculo apostólico, teria produzido esse evangelho
pelo final da década de 60, a partir de pesquisa que fez da tradição
oral e escrita que remontava aos próprios apóstolos. Seu objetivo,
conforme declaração no início da obra Lucas-Atos, era firmar na fé um
nobre romano chamado Teófilo.
Já o Evangelho de João teria sido escrito pelo
apóstolo amado por volta da década de 70 ou 80, com aparentemente
vários objetivos, entre eles combater o crescimento do gnosticismo.
João escreve a partir de seu testemunho ocular, a partir do seu
entendimento acerca da pessoa e da obra de Cristo.
Esses 4 evangelhos cedo foram reconhecidos pela
Igreja cristã nascente como inspirados por Deus e autoritativos, como
Escritura Sagrada, visto que seus autores foram apóstolos, a quem Jesus
havia prometido o Espírito Santo para os guiar em toda a verdade
(Mateus e João), ou alguém proximamente relacionado com eles (Lucas e
Marcos). Assim, eles aparecerem em listas importantes dos livros
recebidos como canônicos pela igreja, como o Cânon Muratório (170
d.C.), a lista de Eusébio de Cesareia (260-340) e a lista de Atanásio
(367).
Os demais evangelhos, chamados de apócrifos,
implicitamente reconhecem a validade do critério canônico da
apostolicidade, ao reivindicar para si também a autoria apostólica e o
conhecimento de segredos que não foram revelados aos apóstolos.
Evangelhos Apócrifos
O nome vem do grego apocryphon, “oculto”, “difícil
de entender”. Esses evangelhos são geralmente classificados em
narrativas da infância de Jesus, narrativas da vida e da paixão de
Jesus, coleção de ditos de Jesus e diálogos de Jesus.
As narrativas da infância mais conhecida são o
Proto-Evangelho de Tiago, Evangelho de Tomé o Israelita, o Livro da
Infância do Salvador, a História de José, o Carpinteiro, o Evangelho
Árabe da Infância, a história de José e Asenate e o Evangelho
Pseudo-Mateus da Infância. Entre as narrativas da vida ou paixão de
Cristo mais importantes se destacam o Evangelho de Pedro, o Evangelho
de Nicodemus, o Evangelho dos Nazarenos, o Evangelho dos Hebreus, o
Evangelho dos Ebionitas e o Evangelho de Gamaliel.
Existem apenas dois que se enquadram na categoria
de coleção de ditos de Jesus, o Evangelho de Tomé e o suposto documento
Q (quelle, “fonte” em alemão), do qual não se tem prova concreta da
existência. Na categoria de diálogos de Jesus com outras pessoas e
revelações que ele fez em secreto mencionamos o Diálogo com o Salvador e
o Evangelho de Bartolomeu.
Essas obras são chamadas de evangelhos apócrifos
por que não são considerados como obras genuínas, produzidas pelos
apóstolos ou pelos supostos autores. Além disso, pretendem transmitir
um conhecimento esotérico, oculto, além daquele conhecimento dos
apóstolos. Em grande parte, esses evangelhos foram escritos por autores
gnósticos com o propósito de difundirem as suas idéias no meio da
igreja, usando para isso a autoridade dos evangelhos canônicos e dos
apóstolos. Alguns deles foram encontrados século passado em Nag
Hammadi, norte do Egito.
O Proto-evangelho de Tiago, por exemplo, escrito
no século II, que descreve o nascimento e a infância de Jesus e a
juventude da Virgem Maria, é tipicamente uma tentativa de satisfazer à
curiosidade popular em torno de coisas não mencionadas nos evangelhos
canônicos. A teologia desse "evangelho" é a de um docetismo popular:
Jesus tem um corpo não sujeito às leis do espaço e do tempo. O escrito
não tem valor como fonte histórica sobre Jesus.
Outro exemplo é o Evangelho da Verdade. Esse não é
um evangelho no sentido costumeiro da palavra; é antes uma meditação,
uma espécie de sermão sobre a redenção pelo conhecimento (gnosis) de
Deus. É atribuído ao gnóstico Valentino, que viveu em meados do século
II e por conseguinte, não ajuda em nada a pesquisa sobre o Jesus
histórico. Na mesma linha vai o Evangelho de Filipe, escrito antes de
350. É, evidentemente, uma compilação de materiais mais antigos. O
texto causou certo sensacionalismo quando da sua publicação, porque
sugere uma relação amorosa entre Jesus e Maria Madalena. O Evangelho de
Pedro – um fragmento que se conservou – descreve o processo contra
Jesus, sua execução e sua ressurreição. Sua cristologia é a do
docetismo: aquele que sofre e morre é apenas uma aparição do verdadeiro
Jesus, que é divino e por isso não pode sofrer e morrer. Conforme esse
evangelho, o corpo de Jesus se volatiliza na cruz antes de subir ao
céu.
É preciso dizer que existem vários destes
evangelhos apócrifos que foram compostos por autores cristãos
desconhecidos, não gnósticos, e que aparentam refletir um tipo de
cristianismo popular marginal. A maior parte deles pretende suprir a
falta de informação histórica nos evangelhos canônicos, fornecendo
detalhes sobre a infância de Jesus, diálogos dele com os apóstolos,
informações sobre Maria e demais personagens que aparecem nos
evangelhos tradicionais. Em alguns casos, parece que foram escritos
para defender doutrinas não apostólicas e que estavam começando a
ganhar corpo dentro do Cristianismo, como por exemplo, o conceito de
que Maria é mãe de Deus e medianeira. O Proto-Evangelho de Tiago, já do
séc. III, explica porque Maria foi a escolhida: por sua virgindade e
santidade, e a defende como mãe de Deus e medianeira.
Alguns contém exemplos morais não recomendáveis.
Por exemplo, o Evangelho de Tomé, o Israelita, narra diversos episódios
em que o menino Jesus amaldiçoa e mata quem fica em seu caminho. Quase
todos são recheados de histórias lendárias e bobas, como o Evangelho
de Nicodemus, que narra como José de Arimatéia, Nicodemus e os guardas
do sepulcro se tornaram testemunhas da ressurreição de Jesus. É um
livro cheio de lendas, fantasias e histórias fantásticas.
Os evangelhos apócrifos usaram diversas fontes em
sua composição: o Antigo Testamento, os próprios evangelhos canônicos e
as cartas de Paulo. Usaram também tradições cristãs extra-canônicas,
de origem desconhecida e suas próprias idéias e conceitos.
A Atitude da Igreja para com os Evangelhos Apócrifos
No período pós-apostólico alguns desses Evangelhos
chegaram a ser recebidos por um tempo, como leitura proveitosa, como o
Evangelho de Pedro, a princípio recomendado por Serapião, bispo de
Antioquia em 191 d.C., mas depois, ele mesmo reconhece que ele tem
elementos estranhos e o desrecomenda. Assim, nenhum deles jamais foi
reconhecido como autêntico e apostólico.
Desde cedo a Igreja Cristã rejeitou estas obras,
pois não preenchiam o critério de canonicidade: não foram escritas
pelos apóstolos ou por alguém ligado a eles, contradiziam a doutrina
cristã, tinham exemplos e recomendações morais e éticas pouco
recomendáveis, e seus autores falsamente atribuíram a autoria aos
apóstolos, como por exemplo, o Evangelho de Tomé, de Pedro, de
Bartolomeu, de Filipe. Além do mais, suas histórias fantásticas acerca
de Cristo claramente revelavam seu caráter especulativo e
supersticioso, ao contrário da sobriedade e da seriedade dos evangelhos
bíblicos. Não é de admirar, portanto, que eles não aparecem em nenhuma
das listas canônicas, onde os 4 evangelhos canônicos aparecem.
Aqui cabe-nos mencionar o testemunho de Eusébio em sua História Eclesiástica, ao falar do Evangelho de Pedro, Tomé e Matias:
"Nenhum desses livros tem sido considerado digno
de menção em qualquer obra de membros de gerações sucessivas de homens
da Igreja. A fraseologia deles difere daquela dos apóstolos; e opinião e
a tendência de seu conteúdo são muito dissonantes da verdadeira
ortodoxia e claramente mostram que são falsificações de heréticos. Por
essa razão, esse grupo de escritos não deve ser considerado entre os
livros classificados como não autênticos, mas deveriam ser totalmente
rejeitados como obras ímpias".
Essa postura prevaleceu até a Reforma Protestante e o período posterior chamado de ortodoxia protestante. Com a chegada do método histórico-crítico, filho do Iluminismo e do racionalismo, passou-se a negar a autoria apostólica e a inspiração divina dos Evangelhos canônicos. Os mesmos passaram a ser vistos como produção da fé da Igreja, sem valor real para a reconstrução do Jesus histórico. Dessa perspectiva, os evangelhos apócrifos chegaram então a ser considerados como literatura tão válida como os canônicos para nos dar informações sobre o Cristianismo nascente, embora não sobre o Jesus histórico.
Essa postura prevaleceu até a Reforma Protestante e o período posterior chamado de ortodoxia protestante. Com a chegada do método histórico-crítico, filho do Iluminismo e do racionalismo, passou-se a negar a autoria apostólica e a inspiração divina dos Evangelhos canônicos. Os mesmos passaram a ser vistos como produção da fé da Igreja, sem valor real para a reconstrução do Jesus histórico. Dessa perspectiva, os evangelhos apócrifos chegaram então a ser considerados como literatura tão válida como os canônicos para nos dar informações sobre o Cristianismo nascente, embora não sobre o Jesus histórico.
O renascimento do interesse pelos evangelhos apócrifos, em particular, os gnósticos.
A partir da visão crítica defendida pelo
liberalismo teológico e pelo método histórico-crítico, em anos recentes
os evangelhos escritos pelos gnósticos passaram a receber grande
atenção e importância nos estudos neotestamentários das origens do
Cristianismo e na chamada busca do Jesus histórico.
Vários fatos têm contribuído para isso. Primeiro, o
surgimento do Jesus Seminar nos Estados Unidos, considerada a 3ª.
etapa da busca do Jesus histórico iniciada pelos liberais do século
XVIII. Um de seus membros mais conhecidos, cujas obras têm sido
traduzidas e publicadas no Brasil é John Dominic Crossan. Em sua obra O
Jesus Histórico: A vida de um camponês judeu do mediterrâneo de 1991,
ele emprega os apócrifos Evangelho de Pedro e especialmente o Evangelho
de Tomé para a reconstrução do Jesus histórico. Segundo Crossan, essas
duas obras são mais antigas que os Evangelhos canônicos e contém
informações importantes que não foram incluídas em Mateus, Marcos,
Lucas e João. Essa atitude de Crossan é característica dos demais
membros do Jesus Seminar e de muitos outros eruditos neotestamentários,
que aceitam a autoridade dos evangelhos apócrifos, especialmente os
gnósticos, acima daquela dos canônicos. Aqui podemos mencionar Elaine
Pagels, cuja obra Os Evangelhos Gnósticos, recentemente traduzida e
publicada em português, vai nessa mesma direção.
Segundo, a publicidade e o sensacionalismo da
grande mídia em torno da descoberta e publicação dos textos dos
evangelhos gnósticos, como o Evangelho de Judas e de Tomé. A mídia tem
difundido a teoria de que a Igreja cristã teria ocultado e guarda até
hoje outros evangelhos que remontam à época de Jesus e que contradiriam
e refutariam totalmente o Cristianismo tradicional e ortodoxo. A
veiculação pela mídia vai na mesma linha de propaganda e especulações
anticristãs voltadas mais diretamente contra a Igreja Católica Romana e
que acaba respingando nos protestantes, especialmente as igrejas
históricas. Em 2004 foi o Evangelho de Tomé. Em 2006 foi a vez do
Evangelho de Judas ganhar a capa de revistas populares pretensamente
científicas. A ignorância dos articulistas, o preconceito anticristão, a
busca do sensacionalismo, tudo isso contribuiu para que a publicação
do manuscrito copta do Evangelho de Judas recebesse uma atenção muito
maior do que a devida. Em 2007 foi a suposta sepultura de Jesus, uma
inscrição antiga contendo o nome de Tiago, irmão de Jesus, e outras
“descobertas” arqueológicas, fizeram a festa da mídia em anos mais
recentes.
Não se deve pensar que essa atitude é um fenômeno
atual. Desde os primórdios do Cristianismo, escritores pagãos como
Celso e Amiano Marcelino publicam material atacando as Escrituras e o
Cristianismo. Estou acostumado a assistir, anos a fio, a exploração
sensacionalista dessas descobertas. Quando da descoberta dos
Manuscritos do Mar Morto e das polêmicas e questões inclusive legais
que envolveram a tradução e a publicação dos primeiros rolos, a
imprensa da época especulava que os Manuscritos representariam o fim do
Cristianismo, pois traria informações que contradiriam completamente o
Evangelho. Os anos se passaram e verificou-se a precipitação da
imprensa. Os rolos na verdade tiveram o efeito contrário, confirmando a
integridade e autenticidade do texto massorético do Antigo Testamento.
Terceiro, produções de Hollywood como “O Código da
Vinci”, “O Corpo”, “Estigmata”, “A última Ceia de Cristo” que se
baseiam nesses evangelhos gnósticos têm servido para difundi-los
popularmente.
O Evangelho de Judas
Examinemos mais de perto os dois evangelhos
gnósticos que têm atraído recentemente a atenção da academia e do
público em geral, que são os evangelhos de Judas e de Tomé.
O Evangelho de Judas preservou-se em um manuscrito
copta do século IV, que supostamente conteria uma tradução do
evangelho apócrifo grego de Judas, cuja origem é estimada em meados do
século II. A restauração e a tradução do manuscrito copta foram
anunciados em 6 de abril de 2006, pela National Geographic Society em
Washington.
Não se trata da descoberta do Evangelho de Judas. O
mesmo já é um velho conhecido da Igreja cristã. Elaborado em meados do
século II, provavelmente na língua grega, era conhecido de Irineu, um
dos pais apostólicos. Na sua obra Contra as Heresias, Irineu o menciona
explicitamente, como sendo uma obra espúria produzida pelos gnósticos
da seita dos Cainitas. No século V o bispo Epifânio critica o Evangelho
de Judas por tornar o traidor em um feitor de boas obras.
Não se trata também da descoberta de um manuscrito
antes desconhecido contendo essa obra. Acredita-se que o único
manuscrito conhecido, escrito em copta, foi descoberto em meados da
década de 1950 e depois de uma longa peregrinação nas mãos de
colecionadores, bibliotecas, comerciantes de antiguidades e peritos,
chegou às mãos das autoridades. Sua existência foi anunciada ao mundo
em 2004. Trata-se de um códice com 25 páginas de papiro, envoltas em
couro, das 62 páginas do códice original. Somente essas 25 páginas
foram resgatadas pelos especialistas. A tradução que veio a lume em
2006 é dessas páginas.
O que é de fato novo é a tradução do texto desse
apócrifo, texto até então desconhecido. Contudo, o ponto central que a
mídia tem destacado com sensacionalismo, já era conhecido mediante as
citações de Irineu e Epifânio, ou seja, que esse evangelho procura
reabilitar Judas da pecha de traidor, transformando-o em vítima e
herói.
Várias matérias publicadas na mídia diziam que
Judas Iscariotes é o autor desse evangelho. Contudo, não existe prova
alguma disso. Segundo o relato dos quatro Evangelhos canônicos, Judas
suicidou-se após a traição. Como poderia ser o autor dessa obra?
Irineu, no século II, atribuía a autoria do evangelho de Judas aos
Cainitas, uma seita gnóstica. No códice descoberto e agora publicado,
não consta somente o evangelho atribuído a Judas, mas duas obras a
mais: a “Carta a Filipe” atribuída ao apóstolo Pedro e “Revelação de
Jacó”, relacionado com o patriarca hebreu. A presença do evangelho de
Judas em meio a essas duas obras apócrifas é mais uma prova da autoria
espúria desse evangelho. Chega a ser irritante o preconceito da mídia,
que sempre veicula matérias que negam a autoria tradicional dos
Evangelhos canônicos, mas que rapidamente atribui a Judas Iscariotes a
autoria desse apócrifo.
O manuscrito que agora foi traduzido não data do
século II, mas do século IV. Especula-se que é uma tradução para o
copta de uma obra mais antiga escrita em grego, que por sua vez dataria
de meados do século II. Daí a inferir a autoria de Judas Iscariotes,
que morreu na primeira parte do século I, vai uma grande distância. A
seita dos Cainitas, segundo Irineu em Contra as Heresias, era
especialista em reabilitar personagens bíblicas malignas, como Caim, os
sodomitas e Judas. A produção de um evangelho reabilitando o traidor
se encaixa perfeitamente no perfil da seita.
Ao final, pesando todos os fatos e filtrando o
sensacionalismo e o preconceito anticristão, a publicação do evangelho
de Judas em nada contribuirá para nosso conhecimento do Judas
Iscariotes histórico e muito menos do Jesus histórico – servirá apenas
para nosso maior conhecimento das crenças gnósticas do século II. Não
representa qualquer questionamento sério do relato dos Evangelhos
canônicos, cuja autoria e autenticidade são muito mais bem atestadas,
datam do século I e receberam reconhecimento e aceitação universal
pelos cristãos dos primeiros séculos.
O Evangelho de Tomé
Esse Evangelho consiste numa coleção de 114 ditos
que Jesus supostamente teria ditado a seu irmão gêmeo, Tomé. Ele faz
parte da livraria gnóstica descoberta em Nag Hammadi em meados do
século passado. O que temos é um manuscrito copta, tradução de uma
versão em grego desse Evangelho, datada do séc. III. Calcula-se que o
evangelho original deve ter sido escrito no séc. II.
Não se trata de um evangelho no sentido usual do
termo, visto que não contém qualquer narrativa sobre o nascimento,
ministério ou paixão de Cristo. Trata-se de uma coleção de ditos de
Jesus sem qualquer moldura geográfica, temporal ou histórica que nos
permita localizar quando, onde e em que contexto Jesus os teria
pronunciado. Calcula-se que foi escrito na região da Síria, onde
existem tradições sobre o apóstolo Tomé e onde se sediava a seita dos
encratitas, ascéticos que defendiam uma forma heterodoxa de
Cristianismo.
Apesar de trazer muitas citações dos evangelhos
canônicos, a teologia do Evangelho de Tomé é abertamente gnóstica.
Defende a salvação através do conhecimento secreto e esotérico que
Jesus revelou a seu discípulo Tomé. Está eivado das dicotomias e
dualismos característicos do pensamento gnóstico mais evoluído do séc.
II. Trata-se claramente de uma produção dos mestres gnósticos, que se
valeram dos evangelhos canônicos e do nome do apóstolo Tomé para
divulgar e espalhar suas crenças.
Como reagimos a tudo isso?
Apesar de todos os esforços da mídia e dos
liberais, não se consegue provar que os evangelhos gnósticos foram
escritos no primeiro século. Eles são produções posteriores aos
canônicos e que se valeram dos canônicos como fontes. O maior argumento
dos liberais para provar que o Evangelho de Tomé, contendo ditos de
Jesus, foi escrito no séc. I antes dos canônicos depende da existência
do suposto proto-Evangelho “Q”, a qual nunca foi provada.
O testemunho dos pais apostólicos é unânime em
rejeitar esses evangelhos e atribuí-los a falsificações feitas pelos
gnósticos com o propósito de espalhar suas ideais e ensinamentos. O
conteúdo deles é distintamente diferente dos evangelhos canônicos e da
religião ensinada no Antigo Testamento.
As reconstruções do Jesus histórico feitas pelos
que dão prioridades aos apócrifos, especialmente os evangelhos
gnósticos, deixam sem explicação o surgimento das tradições
escatológicas a respeito dele que hoje encontramos nos Evangelhos
canônicos. Nem mesmo a tese da “imaginação criativa da comunidade”
defendida pela crítica da forma pode explicar satisfatoriamente como um
camponês judeu, com idéias e estilo de vida de um filósofo cínico,
praticando o curandeirismo entre o povo simples, cheio de idéias
gnósticas, acabou por ser transformado no Cristo que temos nos
Evangelhos em tão curto espaço de tempo, e ainda com as testemunhas
oculares dos eventos ainda vivas.
Por Augustus Nicodemus Lopes
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