Uma breve investigação sobre o
enigmático vidente Balaão (Nm 22-24), abordando os seguintes aspectos:
procedência, participação no drama de Números, as ironias existentes no
drama, aspectos teológicos e éticos, e ainda porque o autor inclui esta
historieta no livro? O que queria ensinar?
Para entender bem quem é foi este homem, leia Números 22-24.
Plano de Fundo
Ao contrário da versão Vulgata, as
versões Árabe antiga e Etiópica, assim como nossas versões, trazem que
Balaão (בּלעם) era filho de Beor (בּעור – be‛ōr), que era de
Petor (pē´thor – פּתור – Φαθουρα). A Vulgata diz “Balaão, proveniente de
Bosor” como sendo o lugar de onde veio. “Bosor” e “Beor” são os mesmos
nomes, com uma diferença apenas de uma letra, צ para ע. Possivelmente
morava no oriente (Mesopotâmia), um residente da mesma área geral da
qual vieram Abraão e os magos dos dias de Jesus. Esta era a região em
que Labão vivia e à qual Jacó se dirigiu para obter um esposa (Gn
29.1-35).
Procedências
Balaão foi um
adivinho, pagão, que vivia em Petor, cidade da Mesopotâmia (Nm 31.8),
próxima ao rio (provavelmente Eufrates cf. Nm 22:5). Tinha o
conhecimento de Deus, julgando que os próprios poderes dos adivinhos,
profetas e poetas não denotavam fatores que lhe poderiam oferecer
resistência. Balaão já havia conquistado Jericó e certas regiões dos
moabitas.
Balaão é uma das figuras mais curiosas
da Bíblia. Tamanha era a sua fama que o rei Balaque de Moabe, ao
enfrentar a chegada dos israelitas a caminho da terra prometida, mandou
pedir ao vidente que lançasse uma maldição sobre os invasores para que
os moabitas conseguissem derrotá-los.
Participação no drama de Números
O rei Balaque, de
Moabe, ao enfrentar os israelitas no caminho da terra prometida, já
sabia que eram muito fortes e o Deus todo poderoso era com eles. Foi a
partir daí que o rei Balaque mandou chamar Balaão, para que fizesse um
feitiço e derrotasse os israelitas. Porém Balaão não quis ir. Todavia
Balaque mandou que chamassem Balaão mais uma vez, e que dessa vez lhe
oferecessem muito dinheiro. Desta forma Balaão foi, com aprovação do
Senhor, contanto fizesse o que lhe seria pedido.
Balaão dispunha de
acessibilidade a Deus muito acima da média e tinha o desejo básico de
ouvir a voz de Deus. Apesar da recaída que ocasionou a experiência da
jumenta que falou (Nm 22.22-31), quando ele aceitou o convite do segundo
grupo de emissários e foi até Balaque. Balaão buscava a Deus e sempre
que possível e era flexível às ordens de Deus. Porém, há uma
profundidade de percepção na transmissão das verdades que Deus deu a
Balaão, o que indica que ele não era novato nas coisas profundas do
Espírito. Pelo visto, na gangorra do bem e do mal na experiência de
Balaão, o bem saiu vitorioso. Isto foi exato pelo menos nas fases
iniciais do seu contato com Balaque e nas pressões que sofreu, ou para
abençoar ou para amaldiçoar Israel. Outra evidência é que Balaão foi
usado por Deus para abençoar os Israelitas e, assim, frustrar o plano
engenhoso de Balaque de detê-los. Desta forma ele faz parte no drama de
Números, sendo parte importante, para que mais uma vez Deus pudesse
mostrar o Seu poder e punir o povo de Israel pelo seu pecado.
Ironias existentes no drama
Uma delas é o
episódio da jumenta. Como que um animal irracional e sem os órgãos
específicos da fala poderia comunicar-se? De fato a jumenta não só
expressou-se com a fala inicial, mas também respondeu a afirmação de
Balaão, ou seja, teria entendido inclusive o que Balaão havia falado.
É interessante notar que a narrativa de
Números 22-24 não dá a entender que Balaão teria sido de forma alguma
responsável pelo pecado do povo de Israel. Ele apenas teria ido embora.
Não fossem outras citações falando do pecado de Balaão em outros
lugares, como em Nm 31:16, Dt 23:4, 2Pe 2:15, Jd 11 e Ap 2:14.
Outro aspecto que também pode ser
mencionado é a maneira como ele tentava enganar Balaque dando opiniões
pra destruir os Israelitas, sendo que ele já sabia que Deus era com
eles, e não poderiam ser derrotados.
Aspectos Teológicos
Balaão procurava falar somente o que
Deus lhe permitia, isso de certa forma mostra que ele era um homem que
buscava a Deus. Porém fica claro que Balaão tentava negociar com Deus.
Certamente que isto não era algo bom.
Podemos ver também que Balaão era um
homem inspirado pelo Senhor para declarar a vontade de Deus, mas isso
não significa necessariamente que Balaão era um homem bom ou um crente
verdadeiro em Javé. Todavia, as profecias de Balaão sobre Israel foram
reais e se realizaram. Podemos ver que Deus permitiu que um homem como
Balaão fosse usado por Ele. Balaão mostrava flexibilidade diante das
vontades de Deus, isso quando essa vontade lhe era clara.
Aspectos Éticos
O caráter de Balaão
claramente pode ser visto por dois extremos de interpretação. Há quem o
estigmatize de salafrário, um feiticeiro pagão. Embora desempenhasse o
papel de verdadeiro profeta ao abençoar Israel, antes de sair de cena,
ele sugere um meio peculiarmente repugnante de ocasionar a ruína de
Israel.
Está visível que Balaão não tinha o
caráter tão bom assim, pois o mesmo recebeu dinheiro para ir até Balaque
e amaldiçoar Israel. Fica claro que Balaão não era tão certo aos olhos
de Deus.
Porque o autor inclui esta historieta no livro
O autor inclui esta
história no livro para mostrar o poder de Deus sobre uma nação chamada
Israel. E mesmo que o personagem seja um vidente, não é alguém além de
Deus.
Sabemos que Deus age através da
história, e esta certamente é uma parte específica da história de
Israel, que possivelmente ainda era lembrada pelos primeiros leitores do
livro de Números.
Há uma possibilidade de que a vida de
Balaão representasse o crente que cumpre a letra da lei, mas viola seu
espírito. Ele não falaria o que Deus não lhe dissesse, mas queria fazer o
mal. É tão evidente que Balaão sempre tentava negociar com Deus. Porém
Balaão, de forma clara, estava sempre buscando saber do Senhor. Isso
implica na real situação de um crente que conhece a lei mas não a segue,
e busca a Deus, mas faz sempre o contrário da vontade dEle. Creio que o
autor queria deixar este exemplo para os crentes, e também contar a
história do poder milagroso de Deus sobre o povo de Israel.
O que queria ensinar
Que serão malditos os que amaldiçoarem, e
benditos o que abençoarem, pois o nome do Senhor é poderoso e não deve
ser negligenciado.
Que diante de uma ordem do Senhor, todo orgulho deve ser posto por terra, e somente o nome do Senhor será exaltado.
Que nada prevalece contra os propósitos de Deus. Quando Deus está no comando ninguém é suficientemente poderoso pra vencê-lo.
Por maior que seja a “recompensa”, ou a
quantia monetária envolvida, ir contra a vontade de Deus nunca é uma
alternativa válida para os que O conhecem.
Bibliografia
John Gill’s Exposition of the Entire Bible
“Bíblia de Estudo em Cores”. Editora Bom Pastor, São Paulo, 2002.
“Bíblia Nova Versão Internacional”. Editora Vida, São Paulo, 2002.
GORDON, J. Wenhan “Números: Introdução e Comentário.” Editora Cultura Bíblica, São Paulo, 1991.
CHAMPLIN, Russell Norman. “Enciclopédia de Bíblia Teologia E Filosofia.” Editora Candeia, São Paulo, 1991.
LIVINGSTN, George Hebert. “Comentário Becon”. Editora CPAD, São Paulo, 2005.
PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. “Foco e desenvolvimento no Antigo Testamento”. Editora Hagnos, São Paulo, 2006.
Nm 22-24
Nm 31:8, 16
Ne 13:2
Mq 6:5
Dt 23:4-6
Js 13:22, 24:9
2Pe 2:15
Jd 11
Ap 2:14
http://unidosnosenhor.com.br/bemvindo/multimedia-archive/balaao/
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