O PRIMEIRO CULTO PROTESTANTE NO BRASIL
Alderi Souza de Matos
Cabe aos presbiterianos a honra de terem
realizado o primeiro culto evangélico na história do Brasil e das
Américas. Esse evento singular ocorreu há 450 anos em uma pequena
colônia fundada pelos franceses na baía de Guanabara.
1. A França Antártica
Após o descobrimento do Brasil, Portugal
demorou a interessar-se pela ocupação e a colonização dos novos
domínios. Com isso, a colônia atraiu a atenção de outras nações
européias, especialmente a França. Após a experiência mal-sucedida das
capitanias hereditárias e as constantes incursões estrangeiras, Portugal
resolveu tomar providências concretas. Em 1549 enviou o primeiro
governador-geral do Brasil, Tomé de Souza, que se instalou em Salvador.
Todavia, o controle da imensa costa era ainda muito limitado. Foi nesse
contexto que o militar e aventureiro Nicolas Durand de Villegaignon teve
a idéia de fundar uma colônia numa região bem conhecida dos franceses: a
baía de Guanabara.
Villegaignon aproximou-se do vice-almirante
Gaspard de Coligny, um dos principais conselheiros do reino, que nutria
fortes simpatias pela Reforma. Com isso, conseguiu o apoio do rei
Henrique II (1547-1559), que lhe forneceu dois navios aparelhados e
recursos para a viagem. A expedição chegou à Guanabara no dia 10 de
novembro de 1555, sendo bem recebida pelos índios tupinambás,
acostumados à presença de franceses na região. O grupo instalou-se na
pequena ilha de Serigipe, mais tarde denominada Villegaignon, onde foi
construído o Forte Coligny.
2. A vinda dos reformados
Diante de várias dificuldades surgidas,
Villegaignon escreveu à Igreja Reformada de Genebra solicitando o envio
de pastores e colonos evangélicos que contribuíssem para a elevação do
nível moral e espiritual da colônia. Coligny convidou para liderar o
grupo um ex-vizinho seu, Filipe de Corguilleray, conhecido como senhor
Du Pont. Por sua vez, João Calvino e seus colegas alegremente escolheram
para acompanhar os colonos os pastores Pierre Richier (50 anos) e
Guillaume Chartier (30 anos). Os seus objetivos específicos eram
implantar a fé reformada entre os franceses e evangelizar os indígenas.
Os huguenotes que os acompanharam foram
Pierre Bourdon, Matthieu Verneil, Jean du Bourdel, André Lafon, Nicolas
Denis, Jean Gardien, Martin David, Nicolas Raviquet, Nicolas Carmeau,
Jacques Rousseau e o sapateiro Jean de Léry, o cronista da viagem, que
escreveria a obra Viagem à Terra do Brasil (publicada em 1578).
Eram ao todo 14 pessoas. O grupo deixou Genebra em 16 de setembro de
1556. Após visitarem o almirante Coligny, seguiram para Paris, onde
outros se uniram à comitiva. Alguns pensam que entre eles estava Jacques
Le Balleur. No dia 19 de novembro embarcaram para o Brasil no porto de
Honfleur, na Normandia.
A frota de três navios, comandada por Bois Le
Conte, sobrinho de Villegaignon, levava cerca de 290 pessoas, inclusive
algumas mulheres. Como de costume, a viagem foi muito penosa. A certa
altura, diante da situação em que se achavam, os reformados recitaram o
Salmo 107 (ver os vv. 23-30). No dia 7 de março de 1557, os viajantes
finalmente entraram no “braço de mar” chamado Guanabara pelos selvagens e
Rio de Janeiro pelos portugueses.
3. O primeiro culto
O desembarque no forte Coligny deu-se no dia
10 de março, uma quarta-feira. O vice-almirante recebeu o grupo
afetuosamente e demonstrou alegria porque vinham estabelecer uma igreja
reformada. Logo em seguida, reunidos todos em uma pequena sala no centro
da ilha, foi realizado um culto de ação de graças, o primeiro culto
protestante ocorrido nas Américas, o Novo Mundo.
O ministro Richier orou invocando a Deus. Em
seguida foi cantado em uníssono, segundo o costume de Genebra, o Salmo
5: “Dá ouvidos, Senhor, às minhas palavras”. Esse hino constava do Saltério Huguenote,
com metrificação de Clement Marot e melodia de Louis Bourgeois, e até
hoje se mantém nos hinários franceses. Bourgeois foi diretor de música
da Igreja de Genebra de 1545 a 1557 e um dos grandes mestres da música
francesa no século 16. A versão mais conhecida em português (“À minha
voz, ó Deus, atende”) tem música de Claude Goudimel (†1572) e
metrificação do Rev. Manoel da Silveira Porto Filho.
Em seguida, o pastor Richier pregou um sermão
com base no Salmo 27:4: “Uma coisa peço ao Senhor e a buscarei: que eu
possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para
contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo”. Após o culto, os
huguenotes tiveram sua primeira refeição brasileira: farinha de
mandioca, peixe moqueado e raízes assadas no borralho. Dormiram em
redes, à maneira indígena. A Santa Ceia segundo o rito reformado foi
celebrada pela primeira vez no domingo 21 de março de 1557.
4. Eventos posteriores
Infelizmente, o vice-almirante acabou
entrando em conflito com os huguenotes sobre questões doutrinárias e os
expulsou da colônia. Em 4 de janeiro de 1558, eles partiram para a
França a bordo de um velho navio. O comandante avisou que a
viagem iria ser difícil e não haveria alimento para todos. Diante disso,
cinco huguenotes se ofereceram para voltar à terra. Inicialmente
Villegaignon os recebeu de modo cordial, mas logo os acusou de serem
traidores e espiões. Formulou um questionário sobre pontos doutrinários e
lhes deu doze horas para responderem por escrito. O resultado foi a
bela Confissão de Fé da Guanabara ou Confissão Fluminense.
O almirante declarou heréticos vários artigos
e decidiu pela morte dos reformados. No dia 9 de fevereiro de 1558,
Jean du Bourdel, Matthieu Verneil e Pierre Bourdon foram estrangulados e
lançados ao mar. André Lafon foi poupado devido às suas vacilações
religiosas e ao fato de ser o único alfaiate da colônia. Jacques Le
Balleur fugiu e foi para São Vicente. Levado preso para a Bahia, ficou
encarcerado por oito anos, sendo então conduzido ao Rio de Janeiro, onde
foi enforcado. Ele e seus companheiros ficaram conhecidos como os
mártires calvinistas do Brasil.
Essa efêmera presença calvinista no início da
história do Brasil não produziu efeitos permanentes. Não foi possível
aos reformados alcançar seus dois intentos principais: criar uma igreja
reformada e evangelizar os nativos. Todavia, esse episódio é considerado
um marco significativo na história das missões cristãs, pois foi a
primeira vez que os protestantes buscaram anunciar a sua fé a um povo
pagão. O fruto mais duradouro do singelo empreendimento foi a bela
confissão de fé selada com sangue.
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