Diz o insensato no seu coração: O ceticismo religioso e seus arautos
Alderi Souza de Matos
Há vários séculos a visão de mundo
materialista e irreligiosa tem sido aceita de modo crescente como uma
postura legítima ao lado de outras cosmovisões. Todavia, em anos
recentes vem ocorrendo um desdobramento novo e preocupante: a afirmação
cada vez mais insistente de que a perspectiva ateísta é a única
defensável do ponto de vista científico e filosófico, e que, portanto, a
religião, em qualquer de suas manifestações, deve ser banida para
sempre e completamente do cenário humano. Hoje, cada vez mais a
incredulidade religiosa é saudada como racional e esclarecida, ao passo
que a fé é rotulada como retrógrada e obscurantista.
O impacto do Iluminismo
A atitude anti-religiosa não é nova na
história da humanidade – e do Ocidente em particular. Ela vicejou em
algumas correntes filosóficas da Grécia antiga, tais como os céticos
(Pirro, Tímon, Arcesilau e Carnéades), descritos como os primeiros
relativistas da filosofia, e os epicureus (Epicuro, Lucrécio), tidos
como os primeiros humanistas liberais. Todavia, foi o Iluminismo do
século 18 que lançou as bases para uma ampla aceitação da perspectiva
materialista da vida no mundo moderno, ao fazer da razão e da
experiência os árbitros da verdade, em detrimento da fé e da revelação.
Os iluministas podiam até ser religiosos, como foi o caso de Descartes,
Locke e Newton, mas as posturas racionalista e empirista prepararam o
caminho para questionamentos cada vez mais ousados na esfera religiosa.
Foi curiosa a posição dos deístas, os
iluministas que ainda queriam preservar um espaço para a religião. Sua
solução foi postular um Deus absolutamente transcendente, que não tinha
nenhum relacionamento com o mundo e a humanidade. Immanuel Kant
(1724-1804), um dos filósofos mais brilhantes da modernidade, foi mais
além. Ele colocou Deus e as realidades transcendentes na categoria dos
“númenos”, ou seja, entidades que escapam à percepção sensorial e,
portanto, não podem ser conhecidas em seu ser. Kant e os deístas tiveram
em comum o fato de reduzirem a religião à ética. O único valor da
religião seria auxiliar a moralidade. Certas doutrinas, como a
existência de Deus, deviam ser consideradas verdadeiras porque são o
fundamento da vida moral.
A ofensiva da incredulidade
O século 19 testemunhou o surgimento de
filosofias explicitamente secularistas e anticristãs. Essa tendência
havia começado com o filósofo empirista inglês Thomas Hobbes (†1679),
considerado o primeiro materialista moderno, e se fortaleceu com David
Hume (†1776), defensor da idéia de que não se pode ter certeza de nada
(ceticismo). Na França, Voltaire e os enciclopedistas também de
destacaram por seu questionamento da religião. Finalmente, o alemão
Arthur Schopenhauer (1788-1860) foi o primeiro grande filósofo ocidental
a ser abertamente ateu e o seu compatriota Ludwig Feuerbach (1804-1872)
descreveu a religião como uma projeção dos ideais, anseios e temores do
ser humano.
Eles foram seguidos por três grandes
pensadores anti-religiosos que se tornaram ícones da cultura
contemporânea, exercendo poderosa influência desde o final do século 19:
Karl Marx (1818-1883), Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Sigmund Freud
(1856-1939). Outro enorme desafio à cosmovisão cristã foi a teoria da
evolução das espécies, proposta pelo naturalista inglês Charles Darwin
(1809-1882), que propôs uma alternativa radical para a doutrina bíblica
da criação. O impacto dessa mentalidade secularizante tem sido
devastador em alguns países de formação cristã. Na Espanha, Alemanha e
Inglaterra, menos da metade da população acredita em um Ser Supremo. Na
França, os que crêem não chegam a 30%.
Popularização do ateísmo
De uns anos para cá, a mídia vem divulgando
entusiasticamente o ideário secularista. Dessa maneira, conceitos que
anteriormente se limitavam aos círculos acadêmicos e filosóficos, vão se
tornando familiares ao público mais amplo. Isso ocorre principalmente
através de periódicos de grande circulação, como é o caso, no Brasil, da
conceituada revista Veja. Essa publicação, tão valiosa em
diversos aspectos, tem articulistas, como André Petry, que
freqüentemente se referem à religiosidade e à fé em Deus em termos
depreciativos e irônicos. A religião é caracterizada como algo
fantasioso e anticientífico, que mais prejudica do que beneficia o ser
humano. Alguns argumentos favoritos são as guerras e a intolerância
religiosas, os conflitos entre fé e ciência, e a resistência dos
religiosos a determinados valores e comportamentos da cultura moderna
(aborto, homossexualismo, pesquisas com embriões etc).
Outra maneira pela qual essa e outras
publicações ajudam a difundir a mentalidade cética consiste no grande
espaço dado a autores que pregam abertamente o ateísmo. Os exemplos mais
conhecidos são o filósofo francês Michel Onfray (Tratado de ateologia), o biólogo inglês Richard Dawkins (Deus, um delírio), o jornalista inglês Christopher Hitchens (Deus não é grande) e o filósofo americano Sam Harris (Carta a uma nação cristã).
As conhecidas “páginas amarelas” com freqüência apresentam entrevistas
com alguns desses intelectuais, que defendem abertamente o fim da
religião. Tais revistas também publicam regularmente matérias que
mostram a aplicação da teoria evolutiva aos mais diferentes aspectos da
vida pessoal e social. Um exemplo recente é a entrevista com o
primatologista Frans de Waal, segundo o qual a moralidade, que muitos
julgavam o último refúgio da religião, não tem origem religiosa e nem é
exclusiva do ser humano (Veja, 22/08/2007).
Onde ficamos?
Essas considerações nos levam de volta à
expressão do título deste artigo, extraída do Salmo 14.1. Hoje aqueles
que negam a Deus não o fazem somente no seu íntimo, mas proclamam de
modo explícito a sua incredulidade, buscando ativamente simpatizantes
para a sua causa. Quais devem ser as respostas dos cristãos a esse
desafio? Em primeiro lugar, eles não devem descartar tão rapidamente os
ataques desses autores, mas exercer uma necessária autocrítica,
reconhecendo que muitas de suas alegações contra os religiosos são
legítimas. De fato, a história demonstra que muitas vezes os adeptos de
diferentes religiões, inclusive o cristianismo, têm se portado de
maneira presunçosa e intolerante. A religião com freqüência tem sido
culpada de comportamentos negativos, como violência, discriminação e
hipocrisia. Muita maldade tem sido cometida em nome de Deus e da fé, e
isso não só entre os fundamentalistas islâmicos.
Em segundo lugar, o desafio desses críticos
aponta para a necessidade de um criterioso trabalho apologético. Os
cristãos não são obrigados a ficar numa atitude passiva, como se fossem
cordeirinhos, achando que não têm como oferecer respostas convincentes
aos inimigos da fé. O cristianismo e a crença em Deus são
intelectualmente defensáveis, como já demonstraram muitos autores ao
longo da história, desde os apologistas do 2º século, passando pelos
escolásticos medievais (Anselmo de Cantuária e Tomás de Aquino, entre
outros), até pensadores do século 20, como C. S. Lewis, Francis
Schaeffer e Cornelius Van Til. Um exemplo atual na comunidade científica
é o geneticista cristão Francis Collins (Veja, 24/01/2007).
Por último, essas manifestações de antipatia à
religião são reveladoras do estado de ânimo do homem contemporâneo, com
todas as angustiosas perplexidades do tempo presente. Existem questões
para as quais simplesmente não há uma explicação naturalista, como a
origem da vida. Outra área crucial em que a ciência e a filosofia têm
falhado em dar respostas satisfatórias são as grandes questões
existenciais, aquelas que dizem respeito ao sentido da vida e da pessoa
humana. Por mais que os materialistas neguem, sua concepção do homem
tende a trivializar a significado e a importância da vida, abrindo as
portas para horríveis violações da dignidade humana. Esse estado de
coisas oferece aos cristãos valiosas oportunidades de testemunho sobre a
esperança que neles há.
Matérias de Veja sobre o assunto:
Matérias de Veja sobre o assunto:
25-05-05 – Entrevista com Michel Onfray
24-01-07 – Entrevista com Francis Collins: “A ciência não exclui Deus”
07-02-07 – Okky de Souza: “Como a fé
desempatou o jogo – os antepassados humanos que desenvolveram a
capacidade de crer foram os únicos a sobreviver à Idade do Gelo. Isso
explica porque a fé resiste mesmo quando a ciência prova que o
sobrenatural nada mais é do que química e eletricidade”.
09-05-07 – Gabriela Carelli e Leoleli Camargo: “A revolução sem fim de Darwin” (Darwin como “herói da racionalidade”).
27-06-07 – Jerônimo Teixeira – “Queda de
braço com Deus: os ateus fazem propaganda em livros que provocam os
fiéis e afirmam que pode existir sentido em uma vida sem religião”.
22-08-07 – “A moral é animal” – entrevista com Frans de Waal
26-12-07 – André Petry: Religião: “Como a fé resiste à descrença”
26-12-07 – André Petry: “O conflito entre fé e ciência”
26-12-07 – Entrevista com Sam Harris: “A
religião faz mal ao mundo. O filósofo Sam Harris, um dos ateus mais
barulhentos dos EUA, diz que só com o fim da fé se poderá erguer uma
civilização global”.
http://www.mackenzie.br
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